sexta-feira, 15 de abril de 2011

ABERTURA DA ESTRADA QUE LIGA LAGES A SÃO JOAQUIM – 1929

Por Ismênia Ribeiro Schneider

Em 10 de abril de 1929, reuniram-se às margens do rio Lava Tudo, divisa, naqueles tempos, entre os municípios de Lages e São Joaquim, autoridades e grande massa popular dos dois municípios para as festividades de inauguração da estrada que, finalmente, passaria a unir as duas cidades. O ponto de encontro foi o porto da balsa, localizado um pouco mais acima da atual ponte, balsa que, por muitos anos, permaneceu como único meio de transposição do grande rio.
Na margem direita acampou a comitiva do Prefeito lageano, Caetano Vieira da Costa; na margem esquerda, a comitiva do Prefeito joaquinense, Boanerges Pereira de Medeiros. Depois de missa campal, seguiu-se a inauguração tão esperada: a esposa do Dr. Walmor Ribeiro, lageano, Vice-Governador do Estado, cortou a fita de saída da balsa para São Joaquim. A fita de entrada, lado de Lages, foi cortada pelo Dr. Félix Malburg, representante do Dr. Adolfo Konder, “Presidente” (Governador) de Santa Catarina.
Dentre os oradores protocolares, fez uso da palavra em nome do Município de São Joaquim, o Secretário da Prefeitura, Enedino Batista Ribeiro, 30 anos de idade. A certa altura de sua alocução, proferiu Enedino as seguintes palavras proféticas: “a ligação São Joaquim – Lauro Muller por estrada de rodagem, há de ser, em futuro não remoto, uma realidade. E então, ligada a Serra Catarinense aos municípios do Sul Catarinense, enormes serão as vantagens que advirão para a nossa Região. Este é o primeiro golpe que se vibra nesta imensa cordilheira de montanhas, em que lhe povoa o dorso imensurável gigante de pedra, que se opõe a que se abram estradas em nosso solo”.
Não imaginava naquele ensejo, o jovem secretário da Prefeitura que vinte e dois anos depois, seria ele, na qualidade de Deputado Estadual por seu Município, na gestão 1950-1954, e autorizado pelo Governo do Sr. Irineu Bornhausen, no dia 17 de maio de 1951, que apresentaria a seus pares, na 22ª Sessão Ordinária da Assembléia Legislativa, com longa “Exposição de Motivos”, uma “Indicação”, encarecendo a urgência da abertura da SERRA DO RIO DO RASTRO. Aprovado o projeto, os trabalhos tiveram início ainda em 1951, através da 5ª Residência de Estradas de Rodagem de Tubarão. Ao final de sua gestão, em 1954, Irineu Bornhausen subiu a Serra em automóvel, concretizando o vaticínio de Enedino naquele longínquo 10 de abril de 1929: a partir daquele momento, teve início, realmente, uma nova era desenvolvimentista para a Região Serrana.
Em maio de 1951 apresentou ainda outra Indicação à Assembléia Legislativa, em conseqüência da qual foi celebrado no Rio de Janeiro, em 11 de setembro de 1951, um Acordo entre o Governo da União e a Prefeitura de São Joaquim, para a instalação, no município, de um POSTO DE FRUTICULTURA, que teve como primeiro diretor o engenheiro-agrônomo João Palma Moreira. Esse Posto foi o embrião para as futuras conquistas em Fruticultura de Clima Temperado da região;
Em 1952, apresentou a Indicação que resultou na instalação, na mesma cidade, de um POSTO DE METEREOLOGIA, para subsidiar diretamente os técnicos do Posto de Fruticultura, o que era feito até ali através dos Aparados da Serra, RS, a mais de 60km e em local de 600m de altitude, bastante inferior aos 1415m do posto joaquinense;
Criação da 11ª RESIDÊNCIA DE ESTRADAS DE RODAGEM, com vistas à execução dos vários projetos rodoviários de São Joaquim, Bom Jardim, Urubici, e Bom Retiro, que, graças ao intenso trabalho de Enedino foi instalada em sua cidade natal, sob  a direção do engenheiro Lourenço Faoro.
Em 1999, o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina decidiu comemorar o centenário de nascimento de seu sócio Enedino Batista Ribeiro com uma sessão solene à qual esteve presente o deputado joaquinense Sandro Tarzan que, impressionado com a relevância das obras conquistadas pelo homenageado em prol da Região Serrana, e de São Joaquim em especial, obras desconhecidas da historiografia serrana, resolveu prestar-lhe também reconhecimento na Assembléia Legislativa.
Em decorrência desse resgate político e histórico, duas homenagens lhe foram prestadas:
-                            o Executivo Estadual, no dia 25.10.2002, outorgou-lhe, “in memorian”, a Medalha Anita Garibaldi, a mais alta condecoração do Estado por serviços relevantes prestados a SC;
-                            a Assembléia Legislativa aprovou que passasse a ser denominada RODOVIA ENEDINO BATISTA RIBEIRO o trecho da SC-438 compreendido entre a ponte do rio Caveiras e a do rio Lava Tudo, no município de Painel.
Em março de 2006, foi instalado na cabeceira da ponte do Lava Tudo, lado de São Joaquim, um marco comemorativo do trecho assim denominado, com o entorno ajardinado, com bancos onde os viajantes podem descansar e apreciar a paisagem. 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

CORONEL JOÃO RIBEIRO - Um dos dez fundadores de São Joaquim

PARTE II – VIDA ECONÔMICA
Por Ismênia Ribeiro Schneider
abril 2011

Dados do inventário de João da Silva Ribeiro Júnior:
Termo de Louvação:
Redigido no dia 04.10.1894, na vila de São Joaquim da Costa da Serra, na residência do Juiz de Direito da Comarca, Dr. Vasco Albuquerque Gama, para onde são convocados todos os herdeiros, mais o curador de D. Ismênia, interditada por sofrer das faculdades mentais, mais o Curador Geral dos Órfãos, o cidadão Capitão Luciano Silveira Goulart,) a fim de escolherem os dois avaliadores do espólio, como determina a Lei, escolha que recaiu nas pessoas do Tenente Coronel José Antunes Lima e em João Jose Rath.
Intimados os dois avaliadores, todos se reuniram na residência, ou melhor, no domicílio do casal João Ribeiro/Ismênia que era a “Fazenda São João de Pelotas”, para a avaliação, após levantamento pelo inventariante de todos os bens do espólio em questão.

Foram descritos os seguintes bens:

IMÓVEIS (ou “bens de raiz”):
- Um terreno na vila de São Joaquim, com oitenta palmos de frente e duzentos e oitenta de fundo, valendo.
30$000
- Uma casa de pedra na rua principal dessa vila com várias benfeitorias e vários terrenos.
6:000$000
- Uma casa na Fazenda VARGINHA, com várias benfeitorias.
1:000$000
- Uma casa velha coberta de telhas, com benfeitorias no pasto da mesma fazenda.
250$000
- Uma casa de madeira com benfeitorias, na Varginha, no local denominado Invernada Grande.
100$000
- Os campos e matos da VARGINHA.
16:000$000
- Uma casa de tijolos no centro da Fazenda São João de Pelotas, coberta de telhas, e muitas benfeitorias como casas cobertas de telhas, mangueiras, lavouras, quintais, dois potreiros e os terrenos onde se assentam essas construções.
9:000$000
- O “Rincão dos Potreirinhos”, na dita fazenda, fechada pelo herdeiro João Baptista Ribeiro de Souza, exclusive as taipas, e mais os tapumes.
8:000$000
- Os campos do “POSTO”, inclusive as taipas e tapumes.
15:000$000
- O rincão da INVERNADA DO CEDRO, com as taipas e tapumes.
10:000$000
- A FAZENDA SÃO JOÃO DE PELOTAS, exclusive a “Invernada  Grande do Fundo’”, a do “Cedro” e a dos “Potreirinhos”, mas inclusive a metade do RINCÃO DO CEMITÉRIO, ainda indiviso.
95:000$000
- A INVERNADA GRANDE DO FUNDO, com as taipas e tapumes.
35:000$000

Assinaram este documento o Juiz, o escrivão e dois avaliadores: Jorge Antunes Lima e João José Rath.
Fazenda “São João de Pelotas”, 16 de novembro de 1894.

DÍVIDAS ATIVAS
Devem ao monte:
1- José Pereira de Ávila
119$000
2- João Augusto Xavier Neves
380$000
3- Antônio José de Lima
125$500
4- Joaquim José Pereira
1:596$000
5- Januário Pinto de Arruda
212$400
6- Antônio Mariano Teixeira Brasil
156$500
7- Ezírio Bento Rodrigues Nunes
677$500
8- Antonio Manche
122$500
9- O espólio de Manoel Moreira dos Reis Júnior
400$000
10- Ten. Cel. Fermino Lopes Rego, representando o governo da República
10:000$000
11- Oscar Lima (três bestas a 80$000)
240$000
12- Dona Ignes Baptista Ribeiro (filha)
635$720
13- Horacio Joaquim de Albuquerque
363$770
Declarou mais o inventariante que suas oito irmãs receberam dotes matrimoniais no valor de
1:981$000
Todos
15:848$000

Declarou o inventariante que os documentos comprobatórios da propriedade legítima de todos os bens imóveis descritos e avaliados se acham depositados em poder do herdeiro João Baptista Ribeiro de Souza, bem como os documentos relativos às dívidas ativas do espólio.
Declarou mais que não existe DÍVIDA PASSIVA, e que as despesas com o funeral e “bem da alma”, foram feitas pelos herdeiros de acordo mútuo e expensas próprias.
Fazenda São João de Pelotas, 19.11.1894.
Bernardino Esteves de Carvalho – escrivão
Vasco de Albuquerque Gama  - Juiz de Órfãos
Affonso da Silva Ribeiro – inventariante

A seguinte peça de inventário é o “Auto de Alimpação da Partilha”, que é o momento em que os herdeiros e curadores podem concordar ou discordar da descrição e avaliação dos bens feitas pelo inventariante, que foi feito no próprio dia 19.11.1894.
Para se proceder à partilha, houve necessidade de se esperar o resultado da avaliação dos bens pertencentes ao espólio no município de Lages, solicitada ao Juízo de Direito e de Órfãos da Comarca de Lages em CARTA PRECATÓRIA do dia 05 de outubro de 1894, expedida pelo Juízo Deprecante da Comarca de São Joaquim da Costa da Serra, representado pelo Dr.Vasco de Albuquerque Gama.
No dia 06 de novembro de 1894 é feita a autuação em que o Juiz de Direito e de Órfãos da Comarca de Lages, Dr. Joaquim Fiúza de Carvalho, manda intimar os mesmos avaliadores dos bens de São Joaquim, Ten. Cel. José Antunes Lima e o Capitão João José Rath, para avaliar os bens existentes em Lages.
O escrivão de Órfãos  Filippe Micalão de Góss.
No 8.11.1894, na “Fazenda do Pinheirinho”, residência do Cel. João Ribeiro no município de Lages, em presença do Sr. Juiz, do escrivão, do Major Affonso da Silva Ribeiro, inventariante, e dos avaliadores José Antunes Lima e João José Rath, foram descritos e avaliados os seguintes bens:

IMÓVEIS
1- Uma sorte de campos e matos da Fazenda denominada PINHEIRINHOS no município de Lages
43:000$000
2- Uma invernada fechada, com a denominação de INVERNADINHA, na mesma fazenda
1:500$000
3- Uma invernada com a denominação INVERNADINHA DO PINHEIRINHO
14:000$000
4- Uma CASA de morada na Fazenda Pinheirinhos, sendo edificada de pedras, coberta de telhas e repartida por paredes de estuque, forrada e assoalhada
1:800$000
5- Uma invernada denominada SANTANA, compreendendo todo o terreno fechado a espensas do co-herdeiro FIRMINO BRANCO, e o terreno onde se acha edificada a casa, curral, lavoura e potreiros da referida fazenda Santana
9:000$$000
6- Outra morada de casa mais benfeitorias, na Fazenda Santana, juntamente com os móveis nela existentes, que são de pouco valor
1:000$000
7- Os campos e matos sitos na mesma fazenda Santana, fora dos tapumes e ocupados pelas benfeitorias da aludida casa
2:000$000

IMÓVEIS
01 casa grande, sita nesta cidade, à rua Quinze de Novembro, construída de pedra com cantaria na frente, com cozinha, ramada nos fundos, contendo 01 armário e 01 fogão, e com fundo correspondentes
12:000$000
01 casa anexa à anterior, com todas as dependências e fundos correspondente, mas em mau estado
3:000$000
01 POTREIRO fechado, sito nos subúrbios da cidade, além do rio Caraá
400$000
01 sorte de matos de cultura, medidos e demarcados, sitos na barra do rio Caveira com o rio Canoas no fundo do Serrito, propriedade comprada ao Major Antonio Delfes da Cruz, Firmino Rodrigues Leite e Bernardino Machado, conforme consta da escritura de compra
12:000$000
01 casa de madeira, térrea, com poucas benfeitorias, localizada nas terras citadas anteriormente
200$000

Na mesma data os autos são remetidos ao contador do Juízo para serem calculadas as custas do processo na Comarca de Lages no valor de 293$460.
Concluídos todos os trâmites legais, no dia 14 de novembro de 1894, a Precatória é devolvida ao Juízo de Direito e de Órfãos da Comarca de São Joaquim da Costa da Serra, onde se processa o presente inventário.
Já aos 19.11.1894, na Fazenda São João de Pelotas, na presença das autoridades responsáveis pelo inventário, os autos são dados à vista dos herdeiros e curadores para opinarem sobre a descrição e avaliação dos bens existentes em Lages. Todos concordam e assinam de próprio punho.
Chegada a hora da PARTILHA são escolhidos como Partidores os cidadãos SILVANO ANTONIO PROENÇA pela família e HORÁCIO DA SILVA DUTRA pela Justiça.

AUTO DE PARTILHA
O montante dos bens a partilhar são, segundo o Juiz de Órfãos e os Partidores:
Bens de raiz
295:280$000
Bens móveis e semoventes
79:859$500
Dotes das 8 herdeiras
15:848$000
Dívida ativa
15:028$870
Monte Mor
406:016$370
Meação da viúva
203:008$185
Legítima de cada herdeiro
20:300$813 ½

Nota:
406:016$370 = quatrocentos e seis contos e dezesseis mil trezentos e setenta mil réis.
203:008$185 = duzentos e três contos, oito mil cento e oitenta e cinco mil réis.
20:300$813 ½ = vinte contos, trezentos mil, oitocentos e treze e meio réis.
A partir desta fase, os herdeiros, muitos deles moradores fora, como Manoel Ignácio Velho, residente no RS e a maioria domiciliada em Lages, menos João Baptista Ribeiro de Souza e Ignácio Subtil de Oliveira, residentes em São Joaquim passam ao herdeiro Cezário Joaquim do Amarante, domiciliado na Fazenda do Barreiro, em São Joaquim, uma PROCURAÇÃO de amplos poderes para representá-los nos restantes procedimentos do presente inventário.
Testemunharam Silvano Antonio Proença e Sebastião da Silva Furtado.
Tabelião: Bernardino Esteves de Carvalho.

Observação:
Dos quinhentos inventários da Comarca de Lages, referentes ao período 1840-1888, e os dezenove pertencentes à Comarca de São Joaquim, período de 1888-1940, o que denota a maior fortuna da Região nesse período é a do Cel. João Ribeiro, seguida pela de Inácio da Silva Mattos, na época do inventário de sua mulher, Ismênia Pereira Machado, falecida em 1934 – Inácio e Ismênia Palma – casal fundador da Família PALMA de São Joaquim, cujo monte-mor (montante de bens) alcançava 333:921$000. O montante dos bens de João Ribeiro era de 406:016$370. A terceira maior herança pertenceu a Vidal José de Oliveira Ramos, no valor de 286:111$500.
Dados interessantes: a mulher de João Ribeiro, Ismênia, e Júlia, a de Vidal Ramos eram ambas filhas de INHOLO, portanto, irmãs, a primeira de sua união marital com Maria Gonçalves do Espírito Santo e a segunda de seu casamento com Cândida dos Prazeres Córdova.
No entanto, João Baptista de Souza (1800-1850), INHOLO, não chegou a ser milionário, como o eram as pessoas que possuíssem cem contos de réis. Seu espólio alcançou 46 contos de réis, mas era proprietário da Fazenda “São João”, renomeada por João Ribeiro “São João de Pelotas”, mais três grandes propriedades na Região da Coxilha Rica, herdades pela filha Júlia.
Segundo o historiador Gilberto Machado, quem tivesse a partir de dez contos de réis, era “remediado”.
Esta análise sobre as fortunas é relativa, pois naturalmente, perderam-se, ou estão arquivados em lugar desconhecido, muitos inventários além dos aqui referidos, que se encontram a salvo no Museu do Judiciário Catarinense, em Florianópolis e os de São Joaquim no Fórum daquela cidade.

Pesquisa realizada por Ismênia Ribeiro Schneider, em março de 2005.

Fontes:
- Inventário judicial sem testamento do ano de 1894, Processo nº 76, Fls 1, arquivado no Juízo de Direito da Comarca de São Joaquim da Costa da Serra, Província de SC. Atualmente, julho de 2007, encontra-se arquivado na 2ª Vara Civil, no cartório sob responsabilidade da escrivã D. Josenádia Vicentini de Nardi, Fórum de São Joaquim,SC.
- Arquivo particular de Enedino Baptista Ribeiro e de Ismênia Ribeiro Schneider.

- O arquivo morto da 2ª Vara do Fórum de São Joaquim foi transferido para o Museu do Judiciário de SC, em Florianópolis.

terça-feira, 22 de março de 2011

Homenagem a Iponá Palma Ribeiro Szpoganicz

Texto escrito para a comemoração do aniversário de 75 anos de Iponá, lido na  abertura do concerto da orquestra de câmara de São Joaquim, ocorrido na Igreja Matriz daquela cidade, em 20/03/2011.


Por Ismênia Ribeiro Schneider

Cada família possui uma história, diria, “secreta,” porque não conhecida das demais pessoas fora do círculo familiar, que se concretiza segundo um código de conduta, embasado nos valores morais e culturais que o casal carrega para o matrimônio. Mas o que é um casal, afinal? É a simbiose de duas personalidades, de dois corações que na troca de experiências vivenciais comuns, passam a formar uma identidade única, a tal ponto homogênea que não se consegue mais distinguir o que pertencia à bagagem afetivo-cultural de cada um dos cônjuges.
Tivemos o privilégio de ser filhos do casal Enedino Batista Ribeiro e Lydia Palma Ribeiro, cuja identidade era perfeita, o que permitiu que nos criássemos sem traumas, porque sabíamos que, sob nossos pés, a rocha firme daquele amor era a salvaguarda da nossa integridade.
O nosso lar viveu sempre, como sua característica principal, a realidade de abrigar uma família joaquinense, radicada e perfeitamente aculturada na capital do Estado. Tivemos uma vida um pouco diferente das demais famílias florianopolitanas, porque bipolarizada: de março a começo de dezembro permanecíamos na velha casa de estilo colonial, na Praça Getúlio Vargas. E de dezembro a fevereiro ficávamos na nossa granja no Pericó, perto do nossa cidade natal São Joaquim.  Em Florianópolis a tônica era o estudo dos jovens, justificando a meta maior de nossos pais, que era propiciar estudo aos filhos. Havia no casarão dois centros nervosos: de um lado, a cozinha e a sala de jantar da “tia” Lydia (apelido carinhoso, “tio” e “tia”, com que os joaquinenses se tratam), onde acontecia a vida em grupo. Uma mesa para quinze ou mais pessoas congregava os ânimos. A um canto, um grande quadro de giz surpreendia pelo inusitado. Muitas vezes a comida esfriava para que algum de nós apresentasse algum problema, um desafio, que passava a ser discutido, no quadro, por todos. Essa parte da casa era o destino natural dos que iam chegando, pois ali ficava o reduto daquela que era o elo efetivo e afetivo de todos, nossa serena e amorosa mãe. Em lugar mais central encontrava-se o “gabinete do tio Nida”, o paciente e exímio mestre: foi ali, principalmente, que aprendemos a amar a História, a Geografia, a Literatura, a Música, a Astronomia, todos os saberes, já que todos eram objeto de seu interesse. Ali aconteciam as conversas pessoais, as “consultas”, o intercâmbio de idéias.  
    Na infância, quando ainda morávamos em São Joaquim, de manhã cedo, antes de irmos para as aulas, na única escola existente na cidade, o Grupo Escolar Manuel Cruz, que ocupava toda a atual Praça Cesário Amarante, tomávamos o “café com mistura” com bolinhos fritos na hora, mais as outras “misturas” normais.
    Íamos para o nosso primeiro “sítio” (a Fazenda “Bela Vista”), as crianças, em carro-de-boi, e o “Tio Nida” e a “Tia Lydia” a cavalo, cuidando da comitiva. Muitas vezes, corríamos ao lado do carro; a Iponá, que detestava a condução que os outros adorávamos, queria sempre “ir a pá”, como ela falava, de modo que acabava sendo levada na “garupa” do Pai...
    Nossa vida social centrava-se principalmente nas visitas que as irmãs Palma que moravam na cidade, faziam-se mutuamente, carregando junto todos os filhos, para “passar a tarde na casa desta ou daquela irmã”. Não sei como elas aguentavam, pois nos reuníamos a fazer folia sempre mais de doze primos, pois a maioria das famílias eram numerosas. A Iponá era uma das mais brincalhonas, fazendo sempre amigos, que a acompanharam para o resto da vida, pois sempre se caracterizou por ter um carisma especial.
No final da década de 1940 e em toda a de 50, época de nossa juventude, poucas famílias possuíam, em Florianópolis, telefone, carro ou televisão. O lazer da mocidade consistia na leitura, no cinema e nos bailes, nas “soirées-dançantes”, ora no clube “Doze de Agosto”, ora no “Lira Tênis Clube”. Às moças não era permitido freqüentar, desacompanhadas, esses ambientes. Durante muitos anos, nos finais de semana, a tarefa de nossos pais era nos acompanhar. Hoje, imagino que tal obrigação lhes fosse pesada, mas na época nunca os sentimos contrariados em nos proporcionar tal distração. Sob seus cuidados nos acompanhavam outras meninas, vizinhas, primas ou colegas. Somente quando os filhos homens foram considerados “responsáveis”, é que assumiram a missão de acompanhar as irmãs. A partir daí, creio que num discreto sistema de controle, criou-se o hábito de irmos ao quarto do casal “contar as novidades”, tão logo voltássemos para casa.
A casa vizinha na Praça Getúlio Vargas era dos Szpoganicz, sendo que a Iponá, já desde nova, flertava com o vizinho, namorando à janela com o Erasmo.
Com nossos pais, vindos da cultura joaquinense, aprendemos o dom da hospitalidade: nossa casa estava permanentemente aberta aos amigos e parentes. Havia sempre um lugar à mesa, ou uma cama para a visita inesperada. Criados em duas famílias numerosas, sentiam-se à vontade e contentes rodeados por muitas pessoas. Esta foi uma das principais heranças da Iponá, que perpetuou em todos os cantos do mundo por onde viveu: o acolhimento e receptividade, sempre trazendo para junto de si os parentes e amigos. É a sua marca registrada! Até hoje recebe em sua casa pessoas de todas as partes do mundo.
Um traço que distinguia nossos pais era o grande amor que nutriam por sua terra natal. Sentiam uma profunda nostalgia das paragens de sua infância. Esse sentimento toca a todos nós, os irmãos, mas especialmente Iponá, que não pode passar muito tempo sem voltar para sua querência e seus amigos. Como ela diz, “aqui eu sou feliz”.
O nosso paraíso era a pequena fazenda que possuíamos a 25 Km de São Joaquim, no Pericó, onde passávamos as férias de dezembro a março. Ali se fortalecia o sentimento de camaradagem, pois o grupo se tornava mais coeso e alegre, para melhor usufruir as delícias que nos eram proporcionadas: passeios a pé e a cavalo, participação nas lides campeiras, nos rodeios, etc. De manhã cedo, éramos despertados para tomar, na cama, o camargo. A Iponá, revelava-se uma verdadeira amazona, sendo a principal companheira do pai nas lidas campestres e também nas compras no Pericó.
Durante essa temporada, uma das nossas maiores alegrias eram os passeios à cidade, principalmente para o baile de gala do Clube “Astréa”, no começo do ano. Cada um ficava na casa de um tio diferente, mas na hora da entrada no baile, porque se tornara um acontecimento na cidade, entrávamos juntos, os onze. A festa era animada pelo famoso conjunto “Jazz Pedacinho do Céu” que, à nossa chegada, parava o que estivesse tocando, para nos receber com o tango “Sonho Azul”, emblema da família. A Iponá, alta e esguia, de belo rosto sorridente, arrasava corações.
À noite, no sítio, nos reuníamos na “cozinha de chão”, onde era aceso um fogo, ao redor do qual nos sentávamos a contar “causos” de cobras, de assombração, de histórias das famílias Palma e Ribeiro, comendo milho verde ou pinhão, assados no borralho. Nas noites muito escuras e secas, quando o céu parecia um veludo negro bordado de dourado, saíamos a estudar os astros. A Iponá era sempre uma das últimas a se recolher, pois não queria perder nada dos acontecimentos.
A nossa aniversariante foi uma das primeiras a namorar entre as filhas mulheres e a terceira delas a se casar, com seu amor de toda a vida, Erasmo. Ela preferiu não trabalhar fora e se dedicar à família e filhos, que foram muitos, seis ao todo, dois homens: Eduardo e Erasmito e quatro mulheres: Eunice, Eleonora, Beatriz e Raquel. Erasmo fez concurso para o Banco do Brasil e nas suas atividades profissionais  como gerente começou a viajar com a família: Foz de Iguaçu, Braço do Norte, Florianópolis, quando foi nomeado diretor do BESC na capital, sendo dali promovido a diretor do Banco do Brasil, seguindo carreira no Exterior: Uruguai, Peru, Espanha, Colômbia, onde se aposentou. Para Iponá e sua prole esta foi uma experiência ímpar, pois propiciou inúmeras oportunidades culturais, sociais e vivencias para toda a família.
Em todas essas andanças Iponá sempre teve o coração voltado para a terra natal, suas paisagens, seus hábitos, seus parentes e amigos.
Neste momento, em que aqui estamos para homenageá-la, em seu aniversário de 75 anos, se tornam mais que nunca verdadeiros os versos de nosso velho poeta Casimiro de Abreu:
“Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
Florianópolis, março de 2011.

Obrigada!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

VIDA FAMILIAR E POLÍTICA DO CORONEL JOÃO RIBEIRO - Um dos dez fundadores de São Joaquim

Por Ismênia Ribeiro Schneider


PARTE 1 – DADOS FAMILIARES
                                                                       Contextualização:
João da Silva Ribeiro Júnior – “Cel. João Ribeiro"
Nascimento: 29.03.1819   Falecimento: 10.05.1894 (75 anos).
Nascimento provável na Fazenda do Socorro – Bom Jardim.
Casou-se em Lages, com Esmenia Baptista de Souza, em 17.05.1845.

O Coronel João Ribeiro que deu nome às praças centrais de Lages e São Joaquim, além de pecuarista, era político influente, chefe do Partido Conservador no tempo do Império na Região Serrana, que continuou a comandar depois de proclamada a República, já então com o nome de “Partido Republicano”. Foi um dos fazendeiros fundadores da Freguesia de São Joaquim da Costa da Serra, no dia 1º de abril de 1873, quando desempenhou a função de chefe do Conselho Fiscal. De 1891 a 1895 foi nomeado 2º Intendente da cidade (Prefeito). Foi Presidente da Câmara de Vereadores de Lages nos anos de 1875 e 1878.

Ascendência do Cel. João Ribeiro:
Pai: João da Silva Ribeiro “Sênior” (1787-1868).
Avôs Paternos: Pedro da Silva Ribeiro (1746-1835), casado com Ana Maria de Saldanha (1854 -  ?).
Bisavôs Paternos: Manoel da Silva Ribeiro (1712-1802), c. c. Maria Bernardes do Espírito Santo (Benavides) ( ?-1808). Estes foram os primeiros ancestrais que habitaram terras brasileiras. Manuel era soldado de profissão, veio para Santo Antônio da Patrulha e dali para a região de Bom Jardim, onde comprou a “Sesmaria do Pelotas”.
Trisavôs Paternos: Domingos da Silva e Domingas Pereira, de Mondim de Basto, Braga, Província de Trás-os-Montes, norte de Portugal. Ao que se sabe não vieram para o Brasil. Aí também nasceu Manoel.
Mãe: Maria Benta de Souza (1790-1857).
Avós Maternos: Matheus José de Souza (1737-1820), c.c. Clara Maria de Athayde (1774-1810). Matheus era açoriano da Ilha Terceira, natural da capital, Angra do Heroísmo.
Bisavós Maternos: José de Souza Rodrigues Medeiros, da Ilha de São Miguel, Açores, c.c. Ignês Maria da Conceição, de Angra, Ilha Terceira, casados em 25.02.1724. Não vieram para o Brasil.

Esposa: Esmenia Baptista de Souza (1831-1912) (conhecida também por Ismênia, mas no inventário do marido aparece com o nome original), filha de João Baptista de Souza (1800-1850) – Inholo - e  de sua companheira, Maria Gonçalves do Espírito Santo (?-1882). Em 1848, o casal separou-se, tendo Inholo casado com Cândida dos Prazeres Córdova. Inholo era irmão de Maria Benta, a mãe do Cel. João Ribeiro que era, desta forma, primo-irmão da mulher.
Domicílio: Fazenda “São João de Pelotas”.

Filhos:
1- Emília Baptista de Souza (1852- ?), c.c. Moysés da Silva Furtado (1832- 04.08.1900), filho de José da Silva Furtado e Joaquina Maria do Espírito Santo.
Número de filhos: 12        Domicílio: “Fazenda do Limoeiro”.
2- Ignes Baptista Ribeiro (1854-23.01.1895), c.c.:
1º esposo: Francisco Pereira de Medeiros (1854-1886), primo-irmão, filho de Manoel José Pereira de Medeiros (“Manduca Pereira”) e Ignácia Mª de Saldanha (irmã do Cel. João Ribeiro).
Número de filhos: 03     Domicílio: “Fazenda do Posto” (era parte de São João de Pelotas).
2º esposo: Ignácio Sutil de Oliveira, filho do Máximo Sutil de Oliveira e Maria das Dores Oliveira.
Número de filhos: 04, tendo morrido 02 em criança.         Domicílio: “Posto”.
3- Júlia Baptista Ribeiro (1855-1926), c.c. Luiz de Oliveira Ramos Júnior (1853-1924), “Lica Ramos”, filho de Luiz José de Oliveira Ramos “Sênior” e de Maria Gertrudes Vieira.
Número de filhos: 12
4- Affonso da Silva Ribeiro (07.10.1856-08.08.1917), c.c. Maria Umbelina Ribeiro Branco (02.01.1860-10.08.1942), filha de Antônio José Pereira Branco Sobrinho (falecido em 05.09.1861) e Umbelina de Oliveira Trindade.
Domicílio: “Fazenda do Pinheirinho”.
5- Maria Benta Ribeiro Branco (1857-  ?), c.c. Firmino José Trindade Branco (1844-     ), filho de Antônio José Pereira Branco Sobrinho e de Umbelina de Oliveira Trindade.
Domicílio: “Fazenda Santana”.
6- Ana Maria Baptista Ribeiro (1858-  ?), c. c.:
2ª núpcias: com Manoel Inácio Velho, filho de Ignácio Manoel Velho e de Maria Ignácia de Souza Velho.
Número de filhos: 08          Domicílio: “Fazenda da Conceição”, Bom Jesus, RS.
7- João Baptista Ribeiro de Souza  (1860-1944), “Cel. Baptista”, c.c. Cândida dos Prazeres de Souza (1971-1930), filha do Cel. Marcos Baptista de Souza e Maria Rodrigues de Andrade. Marcos (1835-1906) era o filho mais moço do “Inholo” e Maria Gonçalves do Espírito Santo. Era irmão da Esmênia Baptista de Souza, sendo, pois, primos-irmãos, de João Baptista Ribeiro de Souza e sua mulher,  Cândida dos Prazeres Baptista de Souza.
Numero de filhos: 10 (mais dois que morreram em criança).
Domicílio: “Fazenda São João de Pelotas” até 1894;
“Fazenda Santa Cruz” (herança paterna)
8- Maria dos Prazeres Ribeiro (1863-  ?), c.c. João Baptista de Souza Neto, “Baptista Marcos”, filho de Marcos Baptista de Souza e de “Dona Marica”.
Número de filhos: 14
Domicílio: “Fazenda Morro Chato”, Bom Jesus, RS, às margens do Rio Pelotas.
9- Belizária Ribeiro do Espírito Santo (1868-  ?), c.c. Cezário Joaquim do Amarante (25.02.1852-10.08.1929), filho de Felisberto Joaquim do Amarante e de Carlota Joaquina do Amarante (de Liz) em solteira – descendente do casal Joaquim José Pereira e Anna Maria de Santa Rita que, ao comprarem a Fazenda Grande no “Quarteirão do Portão”, tornaram-se os fundadores do depois chamado Município do Painel.
Número de filhos: por não terem filhos, adotaram a sobrinha Paschoa, filha de Ignês, falecida no parto.
Domicílio: “Fazenda do Barreiro”, no Painel.
10- Cecília Baptista Ribeiro (1868- ?), c.c. Vicente Antônio Moraes, filho de Manoel Antônio
de Moraes e Gertrudes Maria de Jesus. Separaram-se judicialmente.
Número de filhos: sem filhos.  

O Coronel João Ribeiro faleceu na Fazenda Limoeiro, Coxilha Rica, em Lages, de propriedade de seu genro Moysés da Silva Furtado, casado com Emilia. Foi enterrado no cemitério particular de Pelotinhas, devido a perturbações da ordem ocasionadas pela Revolução de 1893. No dia 10 de maio de 1897, três anos após sua morte, seus restos mortais foram transladados para o Cemitério público de Lages, o “Cruz das Almas”, após missa solene cantada na Igreja Matriz, oficiada pelo Reverendíssimo Padre Rogério Nenhaus. Nessa ocasião foram distribuídas esmolas aos pobres, em honra à memória do falecido, cidadão dos mais ricos da região, mas conhecido por sua simplicidade e generosidade.

Esclarecimentos de dados da Certidão de Óbito do Coronel João Ribeiro:
- No “Quarteirão do Pelotinhas” (hoje se diria “na Região do Pelotinhas”) ficava a “Fazenda do Limoeiro”, de Moysés da Silva Furtado, genro do Cel. João Ribeiro;
- Esmenia (com “E” e sem acento circunflexo no segundo “e” era a grafia original do nome dessa nossa ancestral). Nos documentos mais recentes (ela faleceu em 1912), encontramos seu nome como “Ismênia”;

Fontes:
- Inventário de João da Silva Ribeiro Junior, de 1894, arquivado no Fórum de São Joaquim, 2ª Vara. Proc. nº 76.
- Sobrepartilha ao Inventário nº 20, em que foi inventariado o falecido João da Silva Ribeiro Junior, de 1896. Arquivado no Fórum de São Joaquim, 2ª Vara. 
- Arquivos de Enedino Batista Ribeiro e de Ismênia Ribeiro Schneider.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Notas Biográficas dos Dez Fazendeiros que assumiram a chefia da Fundação de São Joaquim da Costa da Serra - A FAMÍLIA CAVALHEIRO DO AMARAL

Por Ismênia Ribeiro Schneider
Publicado no Jornal Travessia em abril e maio de 2007.


PARTE I

A Família Cavalheiro do Amaral – e seu papel na fundação da Freguesia.

Dada a relevância da Família CAVALHEIRO DO AMARAL no episódio da fundação de São Joaquim e os poucos estudos existentes sobre ela na genealogia dos primeiros povoadores, torna-se crucial iniciar pesquisas para o seu resgate histórico-genealógico: sete foram os irmãos Cavalheiro do Amaral, fazendeiros, que em 1873 se engajaram nos trabalhos, dois como conselheiros fiscais, quatro como vendedores ao grupo fundador do terreno onde se assentou a freguesia, e todos contribuindo financeiramente para a construção da capela e pelourinho, condição jurídica indispensável à fundação de qualquer póvoa naquela época. Na Comarca de Lages, a extensa região da Costa da Serra, em 1873, já era praticamente toda ocupada por grandes fazendas de criação de gado, sendo uma delas a propriedade da Família CAVALHEIRO LEITÃO, como se chamava a estirpe nas primeiras notícias que dela se tem como moradora daquela região, ainda no Século XVIII. O mais remoto ancestral de que se tem notícia, porém, foi o Sargento-Mor MIGUEL PEDROSO LEITE (1726-1811), natural de Porto Alegre, filho de Antônio Pedroso Leite e Maria Paes de Almeida Cavalheiro, c.c. INOCÊNCIA PEREIRA PINTO (1740-  ?), domiciliados  na Fazenda do “Chapéu”, na Serra Gaúcha, mas que a partir de mais ou menos 1767 tornaram-se moradores da Comarca de Lages, ele na condição de “Tropeiro”, conforme Recenseamento dessa cidade de 1790. O casal teve sete filhos, mas para o presente estudo, resumido, citaremos apenas o quinto, MANOEL CAVALHEIRO LEITÃO (1767 – ?) que veio a se tornar o rico proprietário de muitas terras  na região do atual Município de  São Joaquim, não se sabendo ainda como as adquiriu, nem se essas terras possuíam um nome genérico, pois as conhecemos apenas pelos nomes de cada  área, tal como permanecem até hoje. Para ser avaliada a sua extensão inicial, chamamos a atenção do leitor que a fazenda se expandia pelas duas margens do rio Lavatudo (grafia original desse caudal, e não “Lava Tudo”), mais para o lado de suas nascentes. Em sua margem direita, em data ainda desconhecida, foi vendida uma parte desse latifúndio que, mais tarde, transformou-se no Município de Urupema. Outra área a ela pertencente, de cerca de 200 milhões de m² foi vendida, em 1828, por Manoel Cavalheiro Leitão e sua mulher, MATHILDE DO AMARAL FONTOURA (1775- ?), ao estancieiro Manoel Rodrigues de Souza, que se tornou dono da Fazenda “Bom Sucesso”. Restou ainda para o herdeiro MANOEL CAVALHEIRO LEITÃO, filho, as seguintes fazendas: “Morro Agudo” (domicílio da família e que, talvez, fato a confirmar, fosse o nome de toda a área pertencente à família); “Varginha”; “Ilha”; “Rocinha”; “Postinho”; “Colégio”; além de três casas no centro de Lages, mais quinze escravos de alto valor econômico. Foi mais ou menos no centro dessa imensa área que, em 1873, quatro dos filhos do segundo Manoel:  Joaquim, João, Antônio e Inácio Cavalheiro do Amaral, venderam  aos fundadores da nova freguesia, uma área, por 1:250$000 (modo de grafar na época, em cardinal, a moeda corrente, o “mil-réis”), que, em ordinal, equivalia a, “um conto, duzentos e cinqüenta mil-réis”, em terreno assim descrito pelo historiador joaquinense, Enedino Batista Ribeiro, em sua monografia do município, de 1941 : “Fica a cidade situada á margem direita do riacho “São Mateus”, numa rechã cercada de outeiros e colinas de pouca elevação, a 1360 m de altura, justamente no lugar denominado CHAPADA DO CRUZEIRO, porque aí se cruzavam as duas grandes estradas gerais: uma que vinha de Lages, em demanda da cidade de Laguna, e a outra que, partindo do Rio Grande do Sul, rumava em direção aos caminhos do Desterro e outros pontos da Província de Santa Catarina”. A título de curiosidade, pois informação ainda a confirmar documentalmente, o lugar exato da freguesia chamava-se “Potreiro das Éguas”. Resumidos os dados  das propriedades, voltemos à síntese genealógica dessa importante estirpe joaquinense. Não encontramos, até este momento, outros filhos do casal Manoel Cavalheiro Leitão/Mathilde do Amaral Fontoura a não ser o filho com o mesmo nome do pai, que permaneceu solteiro, mas teve sete filhos (tidos com pelo menos duas companheiras):
MANOEL CAVALHEIRO LEITÃO, o segundo (? –  faleceu em 1860), permaneceu solteiro, mas teve os seguintes filhos, aos quais registrou com o sobrenome CAVALHEIRO DO AMARAL, e que são os cidadãos que em 1873 tanto trabalharam para a fundação e a  posterior consolidação  de São Joaquim da Costa da Serra:

1 – JOAQUIM CAVALHEIRO DO AMARAL (1830 - 1887), solteiro.
     Sobre este cidadão serão dados mais completos, porque foi um dos seis conselheiros      fiscais da fundação da freguesia.

2 – MANOEL CAVALHEIRO DO AMARAL (1831 - ?),
      Nada encontramos ainda de dados sobre este herdeiro.

3 – JOÃO CAVALHEIRO DO AMARAL (1832 –1914),
      c.c. Bertulina Rosa Fernandes
      Nº de filhos: 12
      Domicílio: uma parte da fazenda “Morro Agudo”, no lugar “Rincão da Cria”. 
 Declara em testamento que é filho de Manoel Cavalheiro Leitão e Mariana Cândida de Almeida;

4 – BENTO CAVALHEIRO DO AMARAL (1834 – 1912) solteiro,
Sobre este cidadão, igualmente, serão dados mais detalhes, porque foi um dos seis conselheiros fiscais da fundação da freguesia.

5 – IGNACIO CAVALHEIRO DO AMARAL (1839 -  ?)
      Nada encontramos, por enquanto, sobre este herdeiro.

6 -  ANTONIO CAVALHEIRO DO AMARAL TOTA (1842 – 1921),
c.c. Maria Cavalheiro do Amaral, filha de João Cavalheiro do Amaral e Bertulina Rosa Fernandes.
Antonio, filho de Manoel Cavalheiro Leitão com Maria Rosa Fernandes (segunda companheira) era, pois, tio da mulher.
      Nº de filhos: 10
      Domicílio: Fazenda “Postinho”, pertencente à Fazenda “Morro Agudo”.
      Duas casas localizadas em São Joaquim.

7 – MARIANNO CAVALHEIRO DO AMARAL ( 1845 -   ?)
      Nada ainda encontramos sobre este herdeiro.

FONTES: Livros: “Aurorescer das Sesmarias Serranas”, de Sebastião Fonseca de Oliveira, p. 230; “O Continente das Lagens”, de Licurgo Costa, p. 169. Inventários de Manoel Cavalheiro Leitão e de Joaquim Cavalheiro do Amaral, arquivados no Museu do Judiciário em Florianópolis. Inventários de Bento, Antonio, João Cavalheiro do Amaral arquivados no Fórum de São Joaquim, 2ª Vara Cívil (cartório).



PARTE II  -
Os Dois Conselheiros Fiscais da FAMÍLIA CAVALHEIRO DO AMARAL

JOAQUIM CAVALHEIRO DO AMARAL
Batismo: Lages,05.01.1829 – Morte: 21.02.1887.
Companheira: CAROLINA PEREIRA.
Pai: Manoel Cavalheiro Leitão ( solteiro, mas pai de sete filhos).
Mãe: Mariana Cândida de Almeida (companheira), natural de Vacaria, RS.
Propriedades: Fazenda “Campos Bellos”, no Rincão do “Morro Agudo”; campos e matos no “Cruzeiro”, herdados do irmão Mariano; casa em Lages e, mais tarde, uma na recém fundada Freguesia de São Joaquim da Costa da Serra.
Herdeiros ( filhas e netos reconhecidos em testamento):
1 – MARIA DAS DORES CAVALHEIRO DO AMARAL, c.c.Luiz Plínio Colin;
2 -  MARIA TULUTINA CAVALHEIRO DO AMARAL, c.c. Rafhael Ribeiro;
3 – ANDRELINA CAVALHEIRO DO AMARAL, c.c. Fortunato Borges Pereira, já falecida na época do  inventário de Joaquim Cavalheiro do Amaral, e cujos filhos são seus legatários no processo:
3.1 – MARIA, 11 anos;
3.2 – CAROLINA, 09anos;
3.3 – JOAQUIM, 08 anos;
3.4 – Roza, 07 anos.


BENTO CAVALHEIRO DO AMARAL

Não encontramos dados sobre esse importante joaquinense, a não ser que faleceu em 1912, ano em que foi instaurado seu inventário, do qual retiramos mais as seguintes informações: permaneceu solteiro, tendo como companheira CÃNDIDA MARIA PEREIRA, com a qual teve uma filha, HERCULANA PEREIRA DO AMARAL, casada com JOSÉ CUSTÓDIO PEREIRA, legitimada legalmente. É a sua única herdeira. Para os três netos,  GERVÁZIO PEREIRA DO AMARAL, LAURIVAL PEREIRA DO AMARAL e ANFROSIO PEREIRA DO AMARAL, filhos de Herculana, deixa os campos e matos de sua “FAZENDA CAMPO DO GADO”, sita no município de São Joaquim. Sua companheira e avó de seus netos, enquanto viver terá usufruto dos bens que lhe couberem em partilha, revertendo, após sua morte, para os aludidos netos.. Possuía mais os seguintes bens de raiz: uma casa na já referida fazenda “Campo do Gado”, outra na Freguesia de São Joaquim; parte da “Fazenda Varginha”, da “Fazenda Morro Agudo”, a “Invernadinha” e um potreiro fechado por taipas na fazenda citada anteriormente, contíguos à cidade de São Joaquim.

Em data de 28.06.1903, o Sr. Bento Cavalheiro do Amaral fez testamento de seus haveres e bens. Entre os legatários se encontrava “um estabelecimento de caridade para asilo de indigentes, localizado em um potreiro fechado de pedras e arame da Fazenda Morro Agudo, contíguo à vila, com as seguintes confrontações: com terras de Enéas da Silva Mattos e outros, Tenente Egídio Martorano e o arroio que passa próximo desta mesma vila, avaliado por 1$200.” Documento lavrado pelo escrivão Luiz do Nascimento Carvalho, e assinado pelo juiz José Fonseca Nunes. Para administrar o legado, foi constituída a Associação Beneficente Bento Cavalheiro, instituição pia, cujos fins são a pratica da caridade e a construção de um asilo para indigentes, conforme constam em seus estatutos, sendo a referida associação  considerada apta a administrar o legado, que recebeu no  dia 15.08.1925.


Fontes: Inventários de Joaquim Cavalheiro do Amaral, arquivado no Museu do Judiciário em Florianópolis, e o de Bento Cavalheiro do Amaral, arquivado no Cartório da 2ª Vara Civil do Fórum de São Joaquim.  Acervos de Enedino B. Ribeiro e de Ismênia R. Schneider, fone (48) 32252336 – e-mail: menoka@uol.com.br