quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Chico Palma (Francisco Palma)

Texto de Dante Martorano, A verdade, n. 13 – julho/agosto de 1979.

 
     Ainda que um dos condestáveis da Revolução de 1930, o General Flores da Cunha, em 1936, contra Getúlio Vargas pretendia lançar sua revolta e a do Estado que governava. Contava unificar a ação de muitos que conspiravam, por quase todo o País.
      Num dos seus romanescos gestos e emocionadas atitudes, naquele mesmo ano, entretanto, renunciando ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul dispersou seus comandantes e liberou os compromissos de todos aqueles que aliciara à luta armada.
     A revolução que se pretendia defalgar por poderosas forças, aptas à derrocada do Governo Federal, gorou por inteiro.
     Aqui em Santa Catarina, entretanto, o recuo não abrangia os irmãos Palma, liderados pelo primogênito Antônio, de há muito engajados na pregação revolucionária juntamente com Garibaldino Velho.
     Um dos Palma, em 1930, já empunhara armas. À frente de alguns cavaleiros se dirigira a Bom Retiro e de lá somente retornara quando necessário á guarnição de São Joaquim. Incomparável cavaleiro, exímio mestre no uso das armas de fogo, inabalavelmente solidário a seus amigos, a fama de homem valente devia Francisco à sua personalidade. Não chegando até eles as contra-ordens de Porto Alegre, ousadamente invade São Joaquim. Como operação militar, cumprido foi à risca o ritual de ocupação da Prefeitura Municipal, Correios e Telégrafos, da Cadeia Pública e de tudo que simbolizasse o Governo Federal.
     Até as armas do destacamento local da Polícia Militar caíram em seu poder, com isto aumentando a sofreguidão, por combates verdadeiros, dos bravos que aglutinara num improvisado contingente.
     Entrementes, exilado no Uruguai, Flores siquer imaginava parte do território brasileiro desvencilhado de Vargas e à espera das ordens do inspirador do movimento. Realmente nos 2.000 km2 de superfície do Município de São Joaquim, em todos os altiplanos e canhadas, a revolução vencera. De lá partiriam outros e mais poderosos atos de hostilidade ao Governo sediado no Rio de Janeiro, a serem desfechados em todo o Brasil. Assim prenunciava o turbulento tropel das cavalgadas pelas ruas da bucólica cidade, no festivo tiroteio da vitória.
     Desta vez Santa Catarina deixava de ser mera espectadora dos “bochinchos” gaúchos a cruzarem nossos caminhos. Éramos nós mesmos a Revolução que enfrentava Getúlio. Contra o esmagador poderio da União.
“Chico Palma” se viu sozinho, e nãoaceitou sucumbirem suas poucas armas ao confronto militar. Mesmo porque não foi necessária a marcha contra as forças legalistas, eis que uma Companhia do Exército Nacional se deslocou para São Joaquim, seguida de forças da Polícia Militar de Santa Catarina. Foi o fim. Extinguira-se sem sangue o movimento contra Vargas.
     Mas, por muitos meses, o Exército Nacional e a Polícia Militar mantiveram pelotões acantonados na cidade recém-reconquistada, com a determinação de ser preso o autor dos atos de força. Patrulhas armadas vasculhavam continuamente os campos próximos. Boatos se chocavam. Atônito, o povo presenciava a requisição de seus cavalos pelas forças militares. Nos passos do Rio Pelotas, na fronteira com o Rio Grande do Sul, espreitavam dia e noite os sentinelas. Tudo em vão. Abrigado pelos homens do campo, cavalgando rápido pelos caminhos e pelos pousos – permanecia ele sempre livre.
     Notórios alguns incidentes ainda hoje repetidos pela gente da serra, neles sempre evidente o sangue frio de Francisco Palma. O mais propalado é o do encontro numa “venda” de beira de estrada. Lá, uma patrulha inteira atônita deixava se desarmar por ele. E tudo à frente do aterrorizado bodogueiro, incapaz de apontar para seu procurado freguês pachorramente encostado no balcão.
     Assim quanto mais tempo escorria, mais se disseminava a fama de quem, em sua perseguição, mobilizara centenas de soldados.
     Um dia, entretanto, as forças militares voltaram a seus quartéis e, anistiado, Francisco Palma nunca chegou a ser preso e mesmo com a posterior sentença condenatória da Justiça Militar, jamais chegou ao grande público brasileiro o conhecimento desta rebelião.
    Perder-se-ia sua menção na história, não fora a bravura de Francisco Palma, demonstrando inequivocamente o destemor da gente catarinense.

 
Chico Palma

*Obs.: Na próxima postagem, colocaremos informações genealógicas de Chico Palma.





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A CHEGADA DE OUTUBRO...

Começa a abrandar o pior do inverno, que nós, meridionais, sofremos hibernados. A alegria da primavera passa a exigir que se abram as janelas das casas e as dos corações. Começam a apertar as saudades dos nossos queridos distantes e das paragens da infância. Sempre me acontece o mesmo: já a partir de setembro parece que tomo asas que me impelem sempre mais para o sul. Meu marido, ser racional, me diz: “que vamos fazer na Serra, com o frio que ainda faz por lá?”. E eu refreio a ânsia de andar nos nossos campos verdes em flor, campos que no meu coração são sempre os do primo Titinho, depositário, com seus irmãos Hercilinho e Clóvis, das últimas terras em poder dos Ribeiros na grande estância que foi a Fazenda São João de Pelotas, à qual me sinto unida atavicamente. Já comuniquei ao companheiro de andanças que estamos no último pote de mel... senha para a partida: precisamos ir a São Joaquim comprar mel para os próximos meses!
Bem vindo, outubro!
Com tua chegada iniciaremos o voo para a liberdade!...
Ismênia Ribeiro Schneider
menoka@uol.com.br

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Novos fatos sobre a Casa de Pedra da Fazenda do Socorro em Bom Jardim da Serra

* Artigo escrito em parceria com Henrique Brognoli Martins


Revendo alguns registros sobre a Casa de Pedra da Fazenda do Socorro, baseados em muitos anos de pesquisas, posso afirmar que a casa ali edificada foi berço das famílias Souza e Ribeiro, às quais pertenço.
Não é, porém, a casa primitiva da Fazenda do Socorro, adquirida em 1776 por Matheus José de Souza a Manoel Marques Arzão, pois havia uma  outra, que segundo consta, pegou fogo. Nos inventários de sua filha Maria Benta de Souza de 1858, e no de seu genro João da Silva Ribeiro (Senior) de 1868, e no testemunho dos moradores do local, foram relacionadas além das terras da Fazenda, a existência de três mangueiras e benfeitorias, mas não era mencionada nenhuma casa de pedra coberta com telhas, como era usual numa casa desse tipo. Citavam, isso sim, casa em Lages, onde efetivamente residiam.
 A casa de pedra ainda existente, ao que me consta, foi edificada na última metade do século XIX, por Matheus Ribeiro de Souza, um dos filhos do casal acima citado, época em que a Fazenda do Socorro começou a ser dividida ou permutada entre todos os herdeiros, os quais construíram, nessa época, suas novas sedes de fazenda como a da “Chácara”, a da “Fazenda Bom Jesus das Pelotas”, a de “São José do Socorro” e também  a de “ São João de Pelotas”, no sul do município de São Joaquim, adquirida e construída pelo herdeiro João da Silva Ribeiro Júnior, que ali se radicou em 1858. Naquela época, acredito, que também foram edificadas outras casas de pedra, dada a grande disponibilidade de basalto na região que serviu também para construção de inúmeras taipas que ainda embelezam os campos serranos. Ainda hoje são remanescentes naquela região serrana algumas casas de pedra. Posso citar uma na localidade São Luiz, no “Campo de Fora”, no Distrito da Mantiqueira, outra na cidade de Bom Jardim da Serra, que, parece, abriga há muitos anos uma casa comercial, e ainda uma outra em São Joaquim, onde também há muitos anos funcionam estabelecimentos comerciais.
Foi a partir de 1900, que Manoel Cecilio Ribeiro, único filho homem de Matheus, passou a ser proprietário da antiga Sede da Fazenda do Socorro quando foram implementadas algumas melhorias no interior da Casa de Pedra, que posteriormente, com a sua morte em 1917, passou para sua única filha Dolores de Souza Ribeiro, casada com Adolfo José Martins.
Há alguns anos visitei a Casa de Pedra e pude observar o estado de abandono em que se encontrava. Houve, por exemplo, uma alteração no telhado, inicialmente  de 04 águas, e também  não mais existe a continuidade da casa, uma vez que em pedra restam três das quatro fachadas, frente e laterais. Acredito que parte do seu valor histórico tenha se perdido,  por não estar mais compondo o conjunto arquitetônico original, haja vista o estado de depreciação das mangueiras, o desaparecimento das demais benfeitorias anexas  à casa, os galpões que integravam aquela centenária fazenda.  No entanto, deve ser de grande valor sentimental para a família de Dolores Ribeiro Martins, em especial para seu único filho ainda vivo, Manoel Cecílio Ribeiro Martins. Nunca entendi a razão de Adolfo José Martins ter dividido aquela antiga sede entre tantos herdeiros, fato esse que propiciou a rápida deterioração desta referência cultural, não só para os atuais herdeiros, mas para toda a “Costa da Serra”.
 Chamo a atenção que em meu blog postei no dia 31.10.2011 matéria justamente sobre as nossas primitivas fazendas ancestrais, artigos escritos por Enedino Ribeiro em 1950.

Casa de Pedra da Fazenda do Socorro (Bom Jardim da Serra)




quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Algumas das Maiores Fortunas da Comarca de Lages no séc. XIX

           Segundo o historiador Gilberto Machado, do Museu do Judiciário Catarinense em Florianópolis – a mais importante fonte de dados sobre o poder aquisitivo das famílias catarinenses no séc. XIX, especificado nos inventários ali arquivados –, quando a moeda corrente era o “milréis”, quem tivesse dez contos de réis era rico, e quem tivesse cem era milionário. Um dos filhos de Matheus José de Souza, segundo esse padrão, “não era milionário” e, contudo, era dono de sete grandes fazendas, duas casas em Lages e vinte e dois escravos de alto valor econômico, sendo o total de seus bens de quarenta e sete contos de réis. Vale a pena notar a valorização dos escravos. Só o escravo Ricardo, de João Baptista de Souza, de seiscentos mil-réis, valia mais que a sua casa principal em Lages, de quinhentos e oitenta mil-réis. O genro desse cidadão, coronel João da Silva Ribeiro Júnior foi o homem mais rico do seu tempo, tendo seus bens sido avaliados em quatrocentos e seis contos de réis.
Inventariado
Ano da morte
Cônjuge
Montante de bens
1 – João da Silva Ribeiro Júnior (Cel João Ribeiro)
1894
Ismênia Baptista de Souza
406:016$370 + 400$000 do processo de sobrepartilha
2 – Ismênia Pereira Machado (Ismênia Palma)
1934
(séc. XX)
Inácio da Silva Mattos (Inácio Palma)
333:921$000
3 – Júlia Baptista de Souza e Oliveira
1883
Vidal José de Oliveira Ramos
286:111$500
4 – Manoel Ribeiro da Silva Filho (Ribeirinho)
1886
Leucádia Damasceno de Córdova
278:885$280
5 – Anna Maria de Lima
1865
Manoel Rodrigues de Souza
230:357$323
6 – Antonio José Pereira Branco Sobrinho
1861
Umbelina de Oliveira Trindade
165:414$232
7 – Joaquim José Ribeiro do Amaral
1861

130:881$625
8 – Anna Maria de Andrade
1880
Manoel José Pereira de Andrade
130:217$505
9 – Antonio da Silva Mattos (Tonico das Palmas)
1912
(séc. XX)
1ª esposa: Maria Palhano de Jesus (Mariazinha)
123:930$000
10 – Elizeo José Ribeiro do Amaral (assassinado)
1885
Clara Maria de Jesus
117:391$800
11 – Amelia Fermina de Jesus Borges
1883
Francisco Borges do Amaral e Castro
104:682$028
12 – Maria de Souza Teixeira
1876
José Domingues Arruda
99:586$020
13 – José Manoel de Oliveira Branco
1887
Maria José de Oliveira Trindade
98:095$818
14 – Antonio Pereira da Cunha e Cruz

Joaquina Maria da Maia
93:819$208

Fonte: Museu do Judiciário Catarinense, em Florianópolis.

sábado, 23 de junho de 2012

Árvore genealógica das primeiras gerações da Família Ribeiro (1737 - 1944)


Vamos colocar no blog uma sequencia de árvores genealógicas das Famílias Ribeiro e Souza, ancestrais da pesquisadora Ismênia Ribeiro Schneider, duas famílias que entrecruzaram seus caminhos na construção de cidades e da cultura da Serra Catarinense.
Com as árvores esperamos que fique mais fácil de visualizar os dados genealógicos aqui expostos.
Iniciamos com as primeiras gerações da família Ribeiro e colaterais.
Os estudos dessas duas famílias compreende dez gerações da Família Ribeiro e nove da Família Souza. Naturalmente, em árvore genealógica é impossível colocar todos os dados em uma só árvore. Vamos tentar colocar por geração. Portanto, a árvore apresentada acima mostra a primeira união entre as duas importantes famílias, que aconteceu entre João da Silva Ribeiro "Sênior" (1787 - 1868) e Maria Benta de Souza (1790 - 1857). Foi dessa união que surgiram nove descendentes, dentre eles João da Silva Ribeiro Júnior (Coronel João Ribeiro).

Árvore elaborada a partir das pesquisas de Ismênia Ribeiro Schneider
Desenhada no programa Genopro por Miriam Ribeiro Schneider
Editada por Daniela Ribeiro Schneider

quarta-feira, 6 de junho de 2012

SÃO JOÃO DE PELOTAS

                                                                     Por Ismênia Ribeiro Schneider       
         
             No dia nove de setembro de 1845, João Baptista de Souza (1800 – 1850), INHOLO, comprou de Constantino Luiz Duarte e de sua mulher, D. Maria do Espírito Santo Ávilla, uma grande gleba de terras na confluência do rio Pelotas com o Lavatudo, chamada pelos proprietários “Fazenda Coqueiros”, renomeada por Inholo “Fazenda São João”, que se tornou seu domicílio, apesar de possuir na Coxilha Rica, em Lages, várias outras fazendas. Ali morava com os quatro filhos de sua primeira união estável, mas não oficializada com Maria Gonçalves do Espírito Santo: Maria Benta, Ismênia, Maria Magdalena e Marcos, mais Júlia, a filha que teve com sua segunda mulher, a esposa legítima, que acabava de falecer naquele ano, Cândida dos Prazeres Córdova.
            Por ocasião de seu inventário, após o seu assassinato em 13 de agosto de 1850, essa grande fazenda foi herdada pelos quatro filhos naturais. Ismênia havia se casado com o primo-irmão, João da Silva Ribeiro Júnior (1), mais tarde conhecido como “Coronel João Ribeiro”, que, não sabemos ainda como, mas provavelmente por permuta e compra, adquiriu toda a propriedade dos demais herdeiros, passando a denominá-la SÃO JOÃO DE PELOTAS. Todo o seu território, bem mais tarde, se transformou num distrito do município de São Joaquim, com o mesmo nome. Em 1858, a nova sede mandada construir pelo Coronel João Ribeiro estava pronta. Para defesa do frio intenso da região, a maioria das fazendas localizava-se em zonas baixas, e assim aconteceu com São João de Pelotas: do alto das coxilhas que a rodeavam avistava-se um impressionante conjunto de casa, benfeitorias e taipas, tudo em “pedra-ferro” (basalto), sede de fazenda que se transformaria em referência na Região Serrana. As ruínas das taipas ciclópicas atestam ainda a grandiosidade do que foi o latifúndio construído por João da Silva Ribeiro Júnior.
            João (1819–1894) e Ismênia (1832–1920) tiveram dez filhos, dos quais apenas dois eram homens, AFFONSO DA SILVA RIBEIRO e JOÃO BATISTA RIBEIRO DE SOUZA (1860–1944), conhecido na região por “Coronel Batista”, “Seu Batista”, que, por morar, em São João de Pelotas, de 1900 a 1909, tornou-se o curador da mãe, Ismênia, que aos 62 anos ficou doente das faculdades mentais. Ali nasceram os dez filhos que teve com sua mulher CÂNDIDA DOS PRAZERES BAPTISTA DE SOUZA, também prima-irmã, pois era filha de MARCOS BAPTISTA DE SOUZA, irmão de Ismênia. Nesse período, Seu Batista foi responsável pelos mais de cento e vinte milhões de metros quadrados de terras e por cerca de 2.600 cabeças de gado.
           São João de Pelotas permaneceu em poder da família de 1845, quando foi comprada por INHOLO, até mais ou menos 1925, portanto, por cerca de 80 anos, quando começou a ser vendida. Uma pequena parte, felizmente, com ela continua, nas pessoas de Hamilton José Palma Vieira, “Titinho”, Hercílio Vieira Neto, “Hercilinho”, e Clóvis Edu de Palma Vieira, “Clovis”, netos de Maria Cândida Ribeiro Vieira, “Candoca”, que ao comprar de seu pai, “S. Batista”, através de seu marido, Hercílio Vieira do Amaral, a parte da fazenda denominada “POSTO”, conseguiu preservar por 151 anos, com a família, um pedaço daquelas terras, sagradas para os descendentes.
            Conhecedores da saga da família RIBERO naquelas paragens, pode-se compreender a nostalgia de seu descendente Enedino, quando escreve em suas memórias:
            “Tudo ali, na histórica Fazenda de SÃO JOÃO DE PELOTAS ainda se pode ver, tocar e sentir, na confrangedora lembrança das coisas grandiosas que passaram e não voltam mais! Tristeza e melancolia ali recendem, principalmente para quem nesse lugar nasceu e passou a quadra risonha se sua primeira infância, no aconchego de entes queridos, que também passaram e não voltam mais!”
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            Esclarecimentos sobre os parentescos citados acima, importantes para se compreender quando e como ocorreram essas uniões entre Ribeiros e Souzas. Tudo começou ao redor do ano de 1755, quando MANOEL DA SILVA RIBEIRO e MATHEUS JOSÉ DE SOUZA compraram fazendas próximas na região que era conhecida apenas como “Costa da Serra”, hoje Bom Jardim. A região era montanhosa, completamente isolada. A única cidade existente era Lages, a cerca de 28 léguas, isto é, a mais ou menos 180 km de distância, com a qual só havia comunicação a cavalo, em território dominado ainda pelos índios, por animais selvagens, matas fechadas, com grandes distâncias entre fazendas, etc. Todos esse problemas ocasionaram que quando chegava a idade casadoura dos jovens, a amizade que a necessidade de mútua proteção estabelecia entre as famílias, propiciava o casamento entre os seus filhos. E assim aconteceu entre os vizinhos Ribeiros e Souzas: o sétimo filho de Pedro da Silva Ribeiro e de Ana Maria de Saldanha, JOÃO DA SILVA RIBEIRO “Sênior” (1787 – 1868) casou-se com a segunda filha de Matheus José de Souza, MARIA BENTA DE SOUZA (1790 – 1857). O filho desse casal, JOÃO DA SILVA RIBEIRO JÚNIOR (1819 – 1894) casou-se com ISMÊNIA BAPTISTA DE SOUZA (1832- 1912), filha do já citado JOÃO BAPTISTA DE SOUZA, “Inholo”, irmão de Maria Benta, a mãe de João Júnior. Na geração seguinte, o filho de João/Ismênia, o “Coronel Batista”, JOÃO BAPTISTA RIBEIRO DE SOUZA (1860 – 1944) casou-se com a também prima-irmã, CÂNDIDA DOS PRAZERES BAPTISSTA DE SOUZA, filha do irmão de Ismênia, MARCOS BAPTISTA DE SOUZA (1833 – 1906) (2), casado com mulher fora das duas estirpes, MARIA RODRIGUES DE ANDRADE, “D. Marica”, uma figura excêntrica, muito forte. Usava sempre revólver na cintura e tomava conta das duas fazendas de sua família enquanto “Mano Marcos”, como chamava o marido, viajava para tratar de negócios e temas políticos de seu Partido, o Conservador, do qual era Presidente. O domicílio da família era a Fazenda “Santa Maria”, em Bom Jesus, RS. A Fazenda de SC, “São Pedro”, era dividida da anterior pelo rio Pelotas. Diz uma “lenda” familiar que “D. Marica” matava os escravos faltosos, e os enterrava nas cozinhas, e quw foram encontrados ossos na casa da Fazenda “São Pedro”, quando foi demolida. Lenda ou verdade?... Conhecendo os traços de caráter dessa ancestral, dá para entender um pouco a força de sua filha, D. Cândida dos Prazeres Baptista de Souza, esposa do “Coronel Batista”, senhora de São João de Pelotas no começo do séc. XX, que costurava barrigas de cavalos, encanava ossos com perfeição, fazia partos, dava remédios, enfim, atendia a todos na propriedade aonde viveu boa parte de sua vida de casada.
            O estudo das gerações sucessivas dessas famílias joaquinenses extrapola o simples levantamento e registro de nomes “mortos”, para o desvendar ante os olhos atônitos de seus descendentes da história de vida, os amores, as tragédias, as dores, as alegrias, as realizações de alguns milhares de homens e mulheres que os antecederam na corrente da vida...

Texto escrito em Florianópolis, maio de 2006, comemorativo da abertura da Rodovia Enedino Batista Ribeiro, trecho da SC-438, entre o Rio Caveiras e o Rio Lavatudo, Município de Painel, num percurso de 33 km.
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Notas:
(1)   JOÃO DA SILVA RIBEIRO JÚNIOR, “Coronel João Ribeiro”, foi um dos mais ricos fazendeiros do seu tempo, além de importante político, chefe do Partido Conservador no tempo do Império, depois, já na República, Partido Republicano. Fez parte do grupo de fazendeiros que fundou São Joaquim, em 1 de abril de 1873 (emancipado de Lages em 31 de março de 1886). Foi o presidente do Conselho Fiscal, nomeado para arrecadar fundos para a construção da Igreja. Foi o segundo Prefeito do Município, de 1891 a 1995. seu nome passou a designar a praça central, tanto da cidade de São Joaquim como da de Lages.
(2)   MARCOS BAPTISTA DE SOUZA distinguiu-se como grande estancieiro e chefe político, substituto de João Ribeiro, após a morte deste, na chefia do Partido Republicano. A “rua Marcos Batista”, em São Joaquim, é assim denominada em sua homenagem.

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segunda-feira, 14 de maio de 2012

HOMENAGEM A ENEDINO BATISTA RIBEIRO NA DATA DO SEU ANIVERSÁRIO: RECORDAÇÕES FAMILIARES

                                                    Por Ismênia Ribeiro Schneider

I.          ENEDINO BATISTA RIBEIRO:
Nascimento: 14/05/1899
Morte: 10/04/1989
Filiação: João Batista Ribeiro de Souza (1860-1944) e
Cândida dos Prazeres Batista de Souza (1871- 1930)
Local de Nascimento: São Joaquim da Costa da Serra - SC
Fazenda São João de Pelotas - divisa com o Rio Grande do Sul
Casamento: Lydia Palma (1902 - 1980) - joaquinense
Data do casamento: 24/04/1926

Descendência:
1- Ernani Palma Ribeiro (falecido em 2004)
2- João Batista Ribeiro Neto (falecido em 1988)
3- Selva Palma Ribeiro
4- Yolita Ribeiro Werner (nascida Yolita Palma Ribeiro)
5- Yara Palma Ribeiro
6- Elba Palma Ribeiro (falecida em 1934)
7- Ismênia Ribeiro Schneider (nascida Ismênia Ribeiro)
8- Iponá Ribeiro Szpoganicz (nascida Iponá Palma Ribeiro)
9- Enedino Ribeiro Filho (falecido em 2003)
10- Gleci Palma Ribeiro Melo (nascida Gleci Palma Ribeiro)

Netos: 32


Formação Acadêmica:
- Formado em Farmácia, em 1924, pela Faculdade de Bioquímica e Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Vida Pública:
-          Diretor-Secretário da Prefeitura municipal de São Joaquim (1926),
-          Tabelião de Notas e Escrivão do Civil e do Comércio de São Joaquim (1928-1947),
-          Deputado suplente à Assembléia Legislativa de Santa Catarina pela União Democrática        
           Nacional (UDN) (1950-54);
-          Presidente da Comissão Estadual de Abastecimento e Preços de SC (1954-56);
-          Diretor Comercial da Empresa Luz e Força de SC S/A (1956-59);
-          Inspetor Geral, Interino, da Inspetoria de Veículos e Trânsito Público de SC (1956),
-          2° Oficial do Registro de Imóveis de Florianópolis (1959-1960- quando se aposentou);
-          Representante do Governo do Estado junto ao Conselho Regional do Serviço Social Rural
            (1959-1961);
-          Professor da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de SC (Disciplina:
           Farmacognosia), onde se aposentou.

II. RECORDAÇÕES FAMILIARES:
Não sei se conseguirei mostrar a simplicidade, a riqueza de ternura, de harmonia e de felicidade com que transcorria a vida da família de Enedino e Lydia – a FAMILIA PALMA RIBEIRO – como ficou conhecida, durante os anos em que viveu em São Joaquim.
A casa de residência da família Palma Ribeiro em São Joaquim, até 1944, ficava na rua Lauro Müller, perto da Prefeitura, exatamente dando frente para a rua onde termina a Praça João Ribeiro. Toda a frente era ocupada pelo cartório de Enedino. Atrás dele é que ficavam os quartos, que abriam para a “sala de visitas”. Entrava-se para a área residencial pelo lado direito, através de um corredor que ia dar no meio da casa, onde havia um passadiço que ligava a parte da frente com a área da cozinha, uma dispensa e um depósito de lenha, onde também funcionava um chuveiro de latão com roldana, para o “banho geral dos sábados, uma verdadeira “operação de guerra”: um fogo fortíssimo era aceso no fogão, onde, numa lata de querosene com alça era aquecida a água para os banhos. Nenhum filho podia ausentar-se nessa hora, aliás nem o desejaria, porque na grande mesa coberta por alvíssima toalha branca, com bancos em vez de cadeiras, um lauto “café com mistura” nos esperava. O cheiro do pão e dos “sequilhos cobertos” recém-assados enchia o ambiente. À medida que tomavam o banho, as crianças iam sentando ao redor do fogão. Todos prontos, conversando e rindo, sentávamo-nos à mesa para desfrutar as delícias que nos esperavam, variando cada sábado: “chimias” de todas as frutas da região (de marmelo, de figo, de pêra, de maçã, etc), guardadas em caixas de madeira com uma tampa de correr, mel (às vezes ainda no favo), manteiga feita em casa, doce-de-leite, arroz doce, bijagica, rosca de coalhada, e nem sei mais quantas guloseimas. Não sei como a dona da casa tinha tempo, mas a verdade é que, todos os sábados, nos aguardava um mimo especial: cada menina recebia uma boneca de pão, de saia comprida, olhos pretos de grão de feijão (deliciosa boneca!) e os três meninos ganhavam cada qual seu jacaré, também de olho de feijão.
Não havia, em nenhuma casa da cidade, fogão a gás, geladeira, água encanada ou luz elétrica, e, portanto, não havia banheiros dentro de casa. Os banhos diários eram tomados em uma grande banheira de latão, esvaziada no quintal por duas pessoas, após cada banho. As residências possuíam, mais no fundo do pátio, uma “privada”, ou “latrina”. A louça, na nossa casa pelo menos, era lavada em duas bacias de latão, uma com água bem quente com espuma de sabão feito em casa, e outra com água onde era retirado o sabão, sendo depois a louça escaldada com água quente. Havia um balcão de madeira, com uma pia igualmente de madeira, onde era feita toda essa operação; a água escorria por uma calha, para o quintal.
A água potável vinha da “carioca” existente na estrada de saída para Florianópolis, em frente ao então hotel do Sr. Arquimedes de Castro Farias; a água para o demais consumo era apanhada em baldes com corda, do “poço” protegido por uma tampa grossa de madeira que, no centro, possuía uma tampa menor, por onde era retirado o líquido, depositado imediatamente dentro de casa em um tonel grande de vinho, adaptado a essa circunstância. Todas as manhãs o tonel era reabastecido. O poço ficava embaixo de um pé de pero-figo, famoso entre as crianças, que o escalavam para comer seus saborosos frutos sentados em seus braços acolhedores; as maiores, que já sabiam “andar em árvore”, treinavam as menores nessa habilidade importante para todos os pequenos joaquinenses. Havia, no quintal, outros pés de frutas, um de ameixa amarela, de galhos baixos, ainda mais próximos de nossas mãos ávidas perto do Natal, quando se dobravam ao peso das ameixas suculentas. Existiam também macieiras, além de verdes e alinhados canteiros de batata inglesa, ervilhas, temperinhos verdes, que ajudávamos a Mãe colher diariamente; brincávamos de esconder no meio dos canteiros. Até hoje uma de minhas melhores recordações é a do cheiro da terra fofa e preta do nosso quintal. Recordo também que ajudávamos (ou atrapalhávamos?) nossa mãe a fazer as velas necessárias ao consumo do ano.
O nosso terreno terminava na rua de trás, se não me engano chamada Vidal Ramos, cheia de pedreiras, para a qual se abria um pequeno estábulo, onde eram guardados os arreios, um carro de boi, lugar também onde era tirado o leite de três a quatro vacas, leite necessário ao consumo da família. Todas as tardes, dois ou três filhos, em geral “os meninos”, iam buscar os terneiros no potreiro da família, saindo pela “Rua Nova” (atual Rua Sebastião Furtado) e que ficava depois do morro que existe  no final dessa rua, no seu lado esquerdo, que, contornando o morro ali existente, vai dar no cemitério.
De manhã muito cedo, não sei quem ia buscar as vacas que, com suas crias, eram levadas de volta, depois da ordenha. Cedo, éramos acordados para tomar na cama o camargo. Antes de irmos para as aulas, na única escola existente na cidade, o Grupo Escolar Manuel Cruz, que ocupava toda a atual Praça Cesário Amarante, ainda tomávamos o “café com mistura” com bolinhos fritos na hora, mais as outras “misturas” normais.
Íamos para o “sítio” (a Fazenda “Bela Vista”), as crianças, em carro-de-boi, e o “Tio Nida” e a “Tia Lydia” a cavalo, cuidando da comitiva. Muitas vezes, corríamos ao lado do carro; a Iponá, que detestava a condução que os outros adorávamos, queria sempre “ir a pá”, de modo que acabava sendo levada na “garupa” do Pai...
Nossa vida social resumia-se às visitas que as irmãs Palma que moravam na cidade, faziam-se mutuamente, carregando junto todos os filhos, para “passar a tarde na casa desta ou daquela irmã”. Não sei como elas agüentavam, pois nos reuníamos a fazer folia sempre mais de doze primos, pois a maioria das famílias eram numerosas. Mas que eram tardes deliciosas, lá isso eram! Essas e outras práticas serviram para aprofundar e consolidar a amizade que, até hoje, une todos os primos Palmas.
Nos dias quentes de verão, transferíamos os banhos de sábado para o rio “São Mateus”, descendo a rua Thomás Costa, antes fazendo uma parada na casa de nossa querida “Tia Selvina”, cuja família sempre morou com a nossa, desde pelo menos 1851, quando a Fazenda “São João de Pelotas” passou para as mãos de nosso bisavô, João Ribeiro (o que deu nome à praça central da cidade). Tia Selvina foi quem cuidou de nosso pai, Enedino, em pequeno, e ele a amava muito, de modo que a considerávamos como nossa avó de verdade. Outras vezes, tomávamos o banho em um “poço” existente atrás do Hospital, que compartilhávamos com outras crianças e uma ninhada de cobras grandes e pretas que, de vez em quando, nadavam ao nosso lado. Não as temíamos, porque nosso pai a isso nos autorizara, afirmando que não eram venenosas. Passados tantos anos, é difícil de acreditar que o riacho caudaloso e límpido que era o São Mateus tenha se transformado no fio de água poluída e fétida de hoje em dia.
Intermináveis são as recordações do tempo bom de nossa meninice, da vilazinha isolada, jóia incrustada no meio de montanhas verdes, que era o nosso São Joaquim de antanho.
Saudades do nosso pai, que hoje, 14 de maio de 2012, estaria completando 113 anos. Ele nos proporcionou uma infância e juventude memoráveis e um sentimento de família que nos fortalece e nos dá o sentido da vida.