quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MANOEL PALHANO DE JESUS



          Ao começar a escrever meu livro “O Voo das Curucacas”, recém-publicado, que se dedica ao estudo genealógico de famílias serranas de Santa Catarina, percebi que não seria possível inserir os elementos da Família Palma, uma das mais conhecidas dessa região, devido ao grande volume de dados encontrados. Além disso, as famílias formadoras da Família Palma já haviam sido mais estudadas por outros historiadores e estudiosos serranos, o que me fez focar mais nas pesquisas das famílias Souza e Ribeiro, até então, pouco abordadas. Assim, a família Palma aparece no meu livro como ramo colateral às famílias Souza e Ribeiro ali estudadas, mas sem o merecido destaque.
            Em função desse débito com minhas origens maternas, seu estudo será aprofundado, a partir de agora, por meio deste blog.
            A Família “PALMA” de São Joaquim tem como principal representante o casal: INÁCIO DA SILVA MATTOS e ISMENIA PEREIRA MACHADO, conhecidos por INÁCIO PALMA e ISMÊNIA PALMA, em função da fazenda da qual eram proprietárias: a Fazenda das Palmas, na região do Bentinho, em São Joaquim. Duas famílias são ancestrais de Inácio: a DA SILVA MATTOS e a PALHANO PRESTES. Outras duas são de Ismênia: a Família PEREIRA DE MEDEIROS e a Família MACHADO. Sobre elas passaremos a realizar nossas próximas publicações.
            Iniciamos, portanto, por um dos ancestrais mais antigos que temos notícia dessa família: Manoel Palhano de Jesus.


MANOEL PALHANO DE JESUS

1. MANOEL PALHANO DE JESUS (em algumas fontes, como Enedino Batista Ribeiro e Galete, era chamado João Baptista Palhano Prestes). Seu inventário é de 1841.
Esposa: CONSTÂNCIA MARIA DE SOUZA (falec. 1863), natural de Santo Antonio da Patrulha, filha de Ignácio de Souza e de Maria Bernarda da Silva.

Filhos:

1.1 – MANOEL PALHANO PRESTES (1825 – inventário de 1887, provável dia da morte: 24 de maio de 1887).
Esposa: THOMAZIA MARIA PEQUENA
Fazendas:
- DO “LAVATUDO”
- DO “FERNANDO”
- DO “POSTO”
- DA “LAGOINHA”
- DE “ILHA”
            O Curador Geral no inventário de Manoel Palhano Prestes, Manoel Moreira da Silva Ruiz Júnior, explica que “há mais de seis meses o inventariado foi preso, sendo levado para Tubarão, mas que, seguindo o parecer geral da população, foi assassinado pela Polícia Rural, não tendo mais aparecido nem chegado ao seu destino, nem mandado notícias. A família que o considera morto já mandou rezar missas por sua alma e providencia agora a abertura de seu inventário, tendo em vista ter deixado bens e muitos herdeiros menores, desejando a viúva vender alguns deles para quitar dívidas”.
            Pesquisando no site da Fundação Biblioteca Nacional, encontrou-se um artigo no jornal “Regeneração”[1], escrito em 08 de março de 1888, e publicado em 03 de abril na “secção livre”, em que Antônio Palhano de Jesus (irmão de Manoel) questiona “Porque será que não se captura os assassinos do infeliz Manoel Palhano Prestes? Esperão  ue elles commetão mais algum assassinato?”. Assim, entende-se que o assassinato realmente ocorreu, ou que, pelo menos, assim acreditava a sua família. Contudo, Antônio não menciona os nomes das pessoas que teriam cometido o crime. 

 
Regeneração: Orgam do Partido Liberal. Desterro, terça-feira, 03 de abril de 1888, n. 68.

             A viúva inventariante de Manoel Palhano Prestes, THOMAZIA MARIA PEQUENA, sob juramento, declarou, em sua Fazenda do “Posto”, que seu marido havia sido preso e assassinado pela Polícia Rural no dia 24 de maio de 1887, quando viajava de São Joaquim para Tubarão, tendo deixado dezessete filhos. A listagem dos filhos será apresentada na próxima postagem do blog.

1.2 – MANOEL MARIA PALHANO PRESTES (Tio Maria), c.c. Generosa.

1.3 – ANTONIO PALHANO DE JESUS (nasc. 1840), solteiro. Rico fazendeiro.

Filhas:

1.4 – MARIA ANTONIA DE JESUS ou MARIA PALHANO DE JESUS (Mariazinha) (1821 – 16.02.1888), c.c. ANTONIO ZEFERINO MATTOS[2] ou ANTONIO DA SILVA MATTOS[3] (Tonico das Palmas) (falec. 15.06.1912). Antonio era filho de João Zeferino da Silva Mattos (1799 – 1843) e de Anna Joaquina da Conceição (falec. 1881).


Certidão de Casamento em grafia original:
 “Ao primeiro dia do mês de setembro do anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, nesta matriz de N. S. dos Prazeres, depois das canônicas, e na presença das testemunhas nomeadas e abaixo assinadas, o Ver. Miguel Teixeira Guimaraes e Antonio Pereira dos Santos, se receberão em matrimônio ANTONIO ZEFERINO MATTOS, filho de João da Silva Mattos, já fallecido, e de Ana Joaquina da Conceição, e MARIA ANTONIA DE JESUS, filha de Manoel Palhano de Jesus, e de Constancia Maria de Souza” (Livro 6, fls.33).
Filhos do casal na próxima postagem do blog.
Antonio Mattos casou-se em segundas núpcias com Francisca Rosa de Arruda[i], em 22 de abril de 1840. Francisca era filha de Manoel Joaquim Pinto e de Joaquina Rosa de Jesus. Francisca era viúva de João Rodrigues de Souza.

Notas: 1 - Há discrepâncias sobre o nome “Mariazinha”. Nas certidões de casamento, na sua própria e na do filho, seu nome é “Maria Antonia de Jesus”. No seu próprio inventário, porém, datado de 1892, tendo sua morte ocorrida em 16.02.1888, seu nome é registrado como MARIA PALHANO DE JESUS.
2 - Em jovem, “MARIAZINHA”, como era chamada, era mulher de rara beleza, e a seu respeito correm muitas “lendas”, sendo a principal a de que morreu aos 29 anos, no parto do 3º filho, que também faleceu. Com a descoberta do seu inventário cai por terra a lenda, pois constamos que Mariazinha, tendo nascido em 1821 (conforme inventário do Pai, Manoel Palhano de Jesus, de 1841), e falecido no dia 16.02.1888, faleceu aos 67 anos, na “Fazenda do Alecrim”, domicílio da família até aquela data. A família era muito rica, com um montante de bens por ocasião de seu inventário de noventa e sete contos, trezentos e cinqüenta e seis mil réis (97:356$000), quando era considerado milionário quem tivesse bens no valor de cem contos de réis.
3 - “Tonico das Palmas” como era chamado o marido de “Mariazinha” possuía as seguintes fazendas, além da do ALECRIM:

- “Fazenda da Ilha”, localizada no Rincão do Alecrim
30:000$000
- “Fazenda Santo Antonio”, “Propriedade de Marafigos”, sobre o rio Antonina, parte sul.
60:000$000
- Todas as partes dos campos e matos da FAZENDA DAS PALMAS.
25:000$000
- Um rincão de campos denominados MONTE ALEGRE, dividindo por uma parte com Manoel da Silva Ribeiro (c. c. Olinda da Silva Ribeiro Diogo), casal ancestral das Famílias Bathke e Luenemberg na região de São Joaquim, onde se domiciliaram depois que vieram da Alemanha para o Brasil. Por outra parte fazia divisa com a fazenda de João Cavalheiro do Amaral. (Provavelmente a fazenda de Cavalheiro do Amaral era a do MORRO AGUDO”)
10:000$000

            Segundo sabia Joaquim Galete da Silva, o maior estudioso da Família Palma entre os familiares, o pai de Mariazinha, conhecido por ele e por Enedino Batista Ribeiro, como JOÃO BAPTISTA PALHANO PRESTES, tem essa versão de seu nome contestada pelos dados tanto da Certidão de Casamento de TONICO DAS PALMAS/“MARIAZINHA” (Maria Antonia de Jesus), e também em seu próprio inventário, feito na Comarca de Lages em 1841, ano de sua morte, onde a grafia era MANOEL PALHANO DE JESUS.
            Ainda segundo Galete, Manoel Palhano de Jesus era tio de Dona Leocádia, mãe de Luiz Carlos Prestes, prestigioso chefe político brasileiro do Partido Comunista. Talvez através da família desse personagem, conhecido nacionalmente, seja possível chegarmos à sua biografia e genealogia.

1.5 – ANNA ANTUNES DE JESUS (Donana) (falec. 11.08.1884[ii]), casada com ANTONIO PEREIRA CAMARGO (falec. em 1854), filho de Anastácio Pereira de Camargo e de Maria Gertrudes de Souza.
            Antonio Pereira Camargo faleceu muito jovem, em sua fazenda do “Curralinho”, mordido por uma cascavel. Por ocasião de sua morte, em 1854, Donana estava grávida de sua última filha, Camilla Maria de Jesus, depois c. c. Antonio José Alves de Sá, político do Partido Liberal que se tornou o primeiro prefeito de São Joaquim.
            Por ocasião da morte do marido, Donana e os filhos ficaram com 16:720$580. Por ocasião de sua própria morte, em 1884, 30 anos depois, Donana deixou a seus herdeiros a quantia de 46:815$361. É bom lembrar que quem tivesse naquele tempo cem contos de réis (100:000$000) era milionário. Donana, portanto, foi uma excelente pecuarista, apesar de ter herdado muitos bens por inventário de sua mãe, D. Constância Maria de Souza, da qual recebeu a legítima no valor de 3:868$214.
Título dos Herdeiros de Donana e Antonio Pereira Camargo na próxima postagem do blog.

1.6 – BALBINA MARIA DE SOUZA (nasc. 1833).

1.7 – MARIA IGNACIA (Tia Nacha), c.c. ANTONIO DA SILVA RIBEIRO FILHO (Tio Ribeiro). Antonio da Silva Ribeiro Filho era filho de pai com o mesmo nome (c.c. Gestrudes Maria de Córdova, filha de Antonio Joaquim de Córdova e Manoela Maria da Silva), que era filho de Pedro da Silva Ribeiro e Ana Maria de Saldanha.

1.8 – CÂNDIDA MARIA DE SOUZA (nasc. 1839), c.c. ANTONIO SILVANO PROENÇA.
Casamento: 28 de novembro de 1857.


[1] JESUS, Antônio Palhano de Jesus. Secção livre, Lages. Regeneração: Orgam do Partido Liberal. Desterro, terça-feira, 03 de abril de 1888, n. 68.
[2] Conforme Certidão do primeiro casamento.
[3] Conforme Inventário judicial e também conforme a Certidão do segundo casamento.


[i] Inventário de Antonio da Silva Mattos, 1912.
[ii] Certidão de óbito de Anna Antunes de Jesus, 1884.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A nevada de 1912

    Lançado o livro “O Voo das Curucacas” que conta a formação do território da Região Serrana de Santa Catarina no século XVII e também como se domiciliaram nessa região algumas das primeiras famílias das estirpes RIBEIRO e SOUZA – estabelecidas na COSTA DA SERRA, em duas fazendas de criação de gado: a Fazenda de Pelotas e a Fazenda do Socorro – seguimos as postagens do Blog com um texto de Enedino Batista Ribeiro, que fora citado no jornal Diário Catarinense de domingo, 28 de julho, devido a neve que ocorreu de maneira inusitada em Santa Catarina.
    Vejamos como Enedino relata os fatos ocorridos nesta que foi a maior nevasca de que se tem notícia no século XX em Santa Catarina. Nevou nessa região de São Joaquim, durante três dias e três noites, ininterruptamente. Segundo Enedino, a neve começou a cair às 10 horas do dia 1 de setembro, seguindo até dia 3 de setembro do mesmo mês. Acompanhemos o que tem a narrar o autor, então com 13 anos de idade, durante os acontecimentos desastrosos.


XXIV
A Nevada de 1912

Já nos últimos dias de agosto, meu pai recebeu, com grande atraso, telegrama de Lages, chamando-o, pois sua mãe estava gravemente enferma.
No dia 1º de setembro, papai seguiu para aquela cidade, acompanhado de um peão de confiança.
Lembro-me, como se fora hoje, da partida de meu pai. No momento exato em que ia penetrar na restinga da casa, voltou-se no cavalo e nos abanou com o chapéu, pois todos nós da família tínhamos ficados encostados às taipas de parapeito, vendo sua partida.
Seriam nove horas da manhã de um dia triste e nublado, com grandes paredões pretos no horizonte, para as bandas do rio Grande do Sul. Não sei por que pairava no ar desolação que oprimia a gente, como que pressagiando funestos acontecimentos.
A temperatura era muito baixa, e cada vez escurecia mais. Recolhemo-nos para dentro da casa, e mamãe nos convidou para rezarmos o Padre Nosso, todos juntos, de joelhos. Assim foi feito.
Foi nessa ocasião que fiquei sabendo que minha mãe, aquela mulher forte e inteligente, também tinha sua boa dose de superstição.
Mamãe, com todos os filhos ao redor dela, disse o seguinte:
Meus olhos andam repuxando, e quando isso acontece, sempre eu tenho de chorar muito; depois, os malditos dos bicos-xanxões não param de chorar perto de casa; isto é bicho de mau agouro; se eu pudesse, mandava matá-los a todos.
Seria mesmo só superstição?
Para aqueles dias era... Todavia, para um futuro que não estava longe, o que minha mãe estava dizendo, era pressentimento exato de dias angustiosos que estavam por chegar.
Às dez horas do dia 1º de setembro de 1912, começou a cair a neve, abundantemente. O céu era púmbleo. Nevou três dias e três noites sem parar!
Foi a maior nevada que caiu na região de São Joaquim e em todo o Planalto Catarinense, desde que aquela zona foi habitada. Essa opinião foi então, e é até hoje, tida como verdadeira.
Foi uma coisa espantosa! Um dilúvio de neve! Fenômeno grandioso que envolvia a terra!
Os caibros da casa vergados, estalavam sob a grossa camada de gelo acumulado; nos matos, as árvores se desgalhavam de alto a baixo, com estalidos secos, perfeitamente audíveis no interior da habitação, onde os familiares, à roda de mamãe, comentavam o fenômeno nunca antes presenciado.
Nós, os menores, de certo modo, e com razão, intimidados, perguntávamos se papai iria morrer naquela barbaridade? Nossa mãe então nos tranquilizava dizendo que “nada ia acontecer”.
Ao anoitecer, pontões e pontões de gado, mugindo, atropelando-se, chegaram à sés, rodeando a casa, e ali passando a noite toda, sob os açoites do vento que rodopiava e sibilava inclemente, com temperatura abaixo de três graus negativos.
No dia seguinte, 2 de setembro, o gelo era tanto em cima da casa que, coberta de tabuinhas, não tinha como não afundar, deixando-nos sem teto.
Naquela emergência, mamãe determinou que uns três ou quatro homens decididos, furassem, no meio, tábuas de um metro e um metro e meio de comprimento e encabassem em longas varas (rodos), para puxar a neve de cima da casa. Essa ordem fui cumprida com rapidez, afastando-se o perigo de afundar a coberta, penetrando o gelo no interior da residência.
Enquanto isso se fazia, mamãe mandou os filhos mais velhos, Afonso e Edmundo, e peões da Fazenda, que encilhassem os cavalos que se encontravam nas estrebarias, e fossem atropelar o gado que permanecia encorujado ao redor da casa, sem comer. O exercício impediria o encarangamento, dada a baixa temperatura. Isto também se fez com presteza, mas de pouco adiantava, porque algumas horas depois, o gado voltava para casa doido de fome, uma vez que a pastagem havia desaparecido totalmente sob a grossa camada de neve, que crescia de hora para hora.
A situação era, aliás, delicada, mas a fazendeira, na ausência do marido, e com os filhos moços, não se acovardavam: o gado continuou a ser repontado para obriga-lo ao exercício, e a neve a ser retirada de cima da casa, com aqueles objetos que mamãe mandara fazer e a que dava o nome de “rodo”.
Como é fácil perceber, surgiu outra dificuldade desagradável: montanhas de neve se formaram em roda da casa, junto às paredes, fazendo com que diminuísse consideravelmente a temperatura no interior da residência, o que poderia ocasionar resfriados e mesmo pneumonia, tanto mais que havia crianças de tenra idade entre os moradores, como a minha mana mais moça, a Ceci, que contava apenas com dois anos de idade.
Fez-se então um grande fogo na cozinha, que se comunicava com a casa grande por passadiço fechado, e escancaram-se as portas de comunicação, sem se dar importância a um pouco de fumaça que invadia a residência da família.
E esperou-se ainda aquela noite, para ver o tempo como amanheceria, a fim de ser tomada uma providência contra o gelo que se apinhava ao redor da habitação.
O dia 3 de outubro amanheceu mais claro, embora a neve continuasse a cair com intensidade. Por volta do meio dia, a nevada foi cessando. O mundo era um oceano alvinitente (de alvura imaculada), nenhuma pedra, nenhuma árvore descoberta... neve, neve e neve por toda a parte; céu e gelo era só o que se via!
Pouco a pouco foram se esgarçando as nuvens e o sol, lindo como nunca, encheu de luz dourada a superfície prateada da terra! Impossível fitar a imensidade; cegavam a gente as cintilações argênteas que subiam das várzeas, que desciam das montanhas! Era um espetáculo soberbo, belo, magnificamente belo!
Não se podia andar lá fora, o gelo alcançava os joelhos. A água para o preparo dos alimentos e para tomar, era obtida da própria neve, derretida ao fogo. O frio era uma coisa que sobressaía. É sabido que no degelo a temperatura é mais baixa do que no período em que, propriamente, está caindo neve, para o que há uma explicação científica: no inverno o sol é fraco, pouco intenso, e, costumeiramente, cessada a queda de neve, ventos fortes sopram sobre a terra, levantando nuvens de um tênue poeira gelada.
Então o termômetro acusa acentuadas baixas na temperatura.
Morreu bastante gado, ovelhas, porcos, animais cavalares nos matos, acalcados pelas madeiras e galhos que despencavam em cima das reses.
Um outra feição triste e calamitosa das grandes nevadas é o estrago que ocasionam nas florestas. É um estrondar contínuo das árvores que caem e que se racham de alto a baixo... aquilo dá um medo na gente, que nem é bom falar!
Lembro-me que na tarde daquele dia 3, sol a pino, bem vestidos e bem calçados, várias pessoas subimos ao morro da Santa Cruz, e de lá de seu cocuruto, fazíamos rolar pequenas bolas de neve que iam crescendo rapidamente, à medida que corriam morro abaixo até sua base, uns cento e cinquenta metros de percurso, onde chegavam transformadas em enormes globos de neve. Para nós, no cimo do morro, e para os que apreciavam a brincadeira das janelas da casa, era um entretenimento incomparável, principalmente se o “bólido”, na descida vertiginosa, batia em alguma rocha, esborrachando-se em milhões de pedacinhos: era então uma chuva de neve, como se aprecia nos foguetes de lágrimas dos fogos de artifício.
Papai regressou de Lages lá perto do dia 10 ou 12, muito triste com a morte da mãe, ocorrida justamente a primeiro do mês, início da nevada.
Depois de abraços de pêsames apresentados a nosso pai, ele passou a contar as ocorrências da viagem: no dia de sua partida, depois de ter passado o Lavatudo e vencido seu profundo vale, na chapada, a camada de gelo já era tão considerável que os animais mal podiam andar. Meia tarde ainda, teve que pousar, porque as montarias estavam exaustas. No dia seguinte, sobre a noite, é que pôde chegar à cidade de Lages. Não alcançou os funerais de vovó, cujo enterro realizou-se abaixo de neve, as pessoas se atolando no gelo para carregar o esquife. Esperou a missa de sétimo dia e veio embora, devendo voltar a Lages dentro de dois meses, para o inventário dos bens da finada. 
Então passamos nós a lhe relatar o que foi a cruel nevada e as medidas de emergência que tiveram de ser tomadas, para evitar danos na casa, doenças em pessoas da família e domésticos e maior mortandade de gado. 
Papai, mais uma vez, elogiou a fibra da dona da casa, que tomou as medidas adequadas à fúria das intempéries. 
Eis aí, numa descrição sucinta, o que foi a grande nevada de 1912, a maior que se registrou até hoje nos anais das invernias do Planalto Catarinense.


Texto retirado de: 
RIBEIRO, Enedino Batista. A nevada de 1912. In: RIBEIRO, Enedino Batista. Gavião-de-penacho: memórias de um serrano. Florianópolis: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 1999, pp. 248-253.

Matéria do jornal Diário Catarinense que cita o livro Gavião-de-Penacho:



FRANTZ, Sâmia; DANTAS, Carolina. Reportagem especial: Uma aula de metereologia. Diário Catarinense, Florianópolis, 28 jul. 2013.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

LANÇAMENTO DO LIVRO "O VOO DAS CURUCACAS"

Caros amigos do Blog,

      Depois de muitos anos de trabalho e dedicação, cumprimos nosso objetivo de finalizar o livro "O Voo das Curucacas: Estudo Genealógico de Famílias Serranas de Santa Catarina", que trata, em especial, da Família Souza e da Família Ribeiro.

      
      O primeiro lançamento ocorreu em Florianópolis, no dia 22 de maio, na Assembleia Legislativa, em uma bela cerimônia, muito prestigiada por parentes, amigos, pesquisadores, interessados no tema e pessoas que tanto contribuíram para a construção, divulgação e lançamento do livro.



       O segundo lançamento aconteceu em Lages, na abertura da Festa Nacional do Pinhão, em 24 de maio. Nesse evento, tivemos o prestígio principalmente de familiares e, também, a participação do cantor e compositor nativista Ewerton Ferreira e seu companheiro na gaita.




      O último lançamento se deu na terra natal da autora do livro, na Secretaria de Desenvolvimento Regional de São Joaquim, no dia 25 de maio. O evento teve a participação do prefeito de São Joaquim e de outras pessoas que foram muitos importantes para a realização do lançamento e também para a elaboração do livro.



     Agradecemos imensamente a presença de todos nos lançamentos do livro e, especialmente, às pessoas que tanto nos auxiliaram, fazendo com que esses eventos fossem possíveis. Agradecemos também, aos pesquisadores, genealogistas, familiares, entre outros, que contribuíram com dados imprescindíveis para a minha pesquisa.

Obrigada!
E seguimos agora, principalmente, com as pesquisas da Família Palma neste blog.
Ismênia Ribeiro Schneider.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

LANÇAMENTO DO LIVRO "O VOO DAS CURUCACAS"

Caros amigos do Blog,
Ficamos um tempo sem postar novas reportagens em função da dedicação ao término do meu livro.
Agora vemos cumpridos nossos objetivos... O livro será lançado agora em maio, fruto de minhas pesquisas de 14 anos sobre famílias serranas de Santa Catarina.
Convidamos todos aos lançamentos, que ocorrerão em maio nas cidades de Florianópolis (22/05), Lages (24/05) e São Joaquim (25/04).


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Parzinho de vasos

      Como o Natal se aproxima, aproveitamos para postar um conto (Parzinho de Vasos), escrito pela "Vó Ismênia" no Natal de 1991, dedicado a sua neta Carina.


     Desde o começo de dezembro, sempre à mesma hora, os moradores do centro da cidadezinha de São Joaquim viam passar, muito sérias e arrumadinhas, as duas meninas. Eram gêmeas e conhecidas de todos, que as chamavam “o parzinho de vasos”, pois de pareciam muito, andavam sempre juntas, tudo repartiam e compartilhavam.
Todos sabiam o itinerário e o objetivo da caminhada. Entreolhavam-se e sorriam misteriosamente. De dentro das casas, de vez em quando, alguém perguntava:
- As gêmeas já passaram?
- Sim, respondia quem observava, agora mesmo!
     As meninas caminhavam rapidamente, sem olhar para os lados, mas via-se que seus olhos brilhavam de ansiedade e emoção. Só paravam em frente à vitrine da Casa Martorano. Ali estavam expostos brinquedos, lindamente arrumados para o Natal. Mas as irmãzinhas só tinham olhos para duas bonecas colocadas lado a lado, no centro da vitrine. Eram realmente bonitas, diferentes de todas as que as meninas da cidade tinham visto até ali: eram bastante grandes, em fina porcelana, os cabelos compridos e louros, os olhos que abriam e fechavam delicadamente, com pestanas densas e escuras. Os lábios vermelhos deixavam ver uma fileira de dentes alvos. Em tudo iguais, num ponto diferiam: na cor dos olhos. Uma delas os tinha muito verdes, e o vestido, para combinar, era também verde, cheio de babados, rendas e fitas. A outra tinha os olhos castanhos, transparentes, e estava vestida de vermelho. As meninas, a quem sempre eram contadas histórias de fadas, pensavam que eram princesinhas encantadas...
     Segurando no cano dourado que protegia a vitrine, as crianças, alheias a tudo, permaneciam longo tempo observando as bonecas. Cada uma já escolhera a sua, até já lhes dera nomes: uma se chamaria Nina Rosa, a outra Rosa Maria. A mãe, confidente de tudo, aprovava a escolha. As três conversavam longamente sobre o assunto. As meninas sabiam que as bonecas eram muito caras, fora do alcance do ganho do pai, mas continuavam a sonhar... A mãe, como as demais pessoas da vila, sorria doce e misteriosamente.
     Na véspera do Natal, as meninas foram olhar mais uma vez a vitrine. Estava vazia! Lágrimas silenciosas rolaram pelos rostinhos: sabiam que as bonecas já haviam sido vendidas. Voltaram apressadas, para contar à mãe a desgraça. Esta as abraçou e consolou como pôde. Quem sabe não teriam uma surpresa? Mas elas sabiam que o papai não podia comprá-las, que outras meninas ficariam com as “suas” bonecas.
     Assim, a beleza da preparação da festa de Natal estava estragada para o “parzinho de vasos”. A visão de Nina Rosa e Rosa Maria não saía de suas cabecinhas.
     Ao entardecer da véspera de Natal, todos muito bonitos em suas roupas novas, sentaram-se na sala para receber os presentes. Eram nove irmãos e cada um ganharia somente um presente, entregue conforme a idade; a cada presente, a mãe tinha um sorriso para os dois pares de olhos negros, fixos nela com ansiedade.
     Quando, por fim, chegou a vez das gêmeas, a mãe saiu do quarto onde estavam trancados os presentes, com duas grandes caixas, uma embrulhada em papel verde e a outra em papel vermelho. Paralisadas pela emoção, as meninas olhavam para as caixas que lhe eram estendidas, sem poder mexer-se. Olhos arregalados, os corações batendo como as asas de um beija-flor, as menininhas não podiam acreditar no que estavam vendo. Os pais e os irmãos mais velhos olhavam, emocionados, a felicidade das crianças. O pai as abraçou ternamente e as empurrou de mansinho para a mãe...
     Enquanto aguardavam a ceia, as meninas, já agora segurando nos braços as bonecas, refizeram, pela última vez, o caminho.
     Os vizinhos viram passar as figurinhas, que lhes sorriam enlevadas; percebiam, porém, que o sorriso era puro encantamento, e que as meninas sorriam, na verdade, para algo invisível...
     As pessoas fechavam suavemente as janelas, após a passagem das crianças, e pensavam, com os corações leves, que o mundo, afinal, naquela noite, estava muito mais bonito...