sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Lida de campo em São João de Pelotas

         Dando continuidade a uma matéria anterior, que retrava um pouco da vida nas primitivas fazendas serranas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, escolhemos um texto de Enedino Batista Ribeiro: Lida de campo em São João de Pelotas. Esse excerto foi publicado em “A Tribuna”, de São Joaquim, em 1931, e, posteriormente, no livro Gavião-de-Penacho: Memórias de um Serrano (1999). Ele retrata a história de uma parada de rodeio na Fazenda São João de Pelotas.


 Lida de campo em São João de Pelotas
Ao amigo Inácio Pereira, publicado
em “A Tribuna”, de São Joaquim,
a 28 de junho de 1931

Nota: Excerto escrito em 1931, aparece aqui completamente refundido, para fazer parte das MEMÓRIAS [Excerto publicado em 1999 no livro “Gavião-de-Penacho – Memórias de um serrano”, de Enedino Batista Ribeiro].

            Voltando cinquenta anos atrás o pensamento, mergulho meu espírito na quadra feliz e doce da minha primeira infância, num tempo em que eu, guapo rapagote, nos rasgados das coxilhas, ou nos costões íngremes das montanhas, esporeava o “pingo” na cabeça do matambre, fazendo o corcel dar o máximo de velocidade, no encalço do touro bravio que, tresmalhando do rebanho, não obedecia à volteada.
            Recordo então, um por um, todos os episódios, muitas vezes dramáticos, mas sempre belos e atraentes da vida movimentada de uma grande fazenda de criação de gado.
            Só para quem não nasceu, ou nunca viveu numa fazenda, nem nunca sentiu a paz bucólica de um sítio, quando o sol à tardinha vai se escondendo atrás dos montes e dourando a paisagem com o mágico reflexo de nuvens de cor-de-rosa, só quem nunca viu uma queimada de campo, quem nunca assistiu a uma derrubada de roça, só quem nunca atirou um pealo, quem nunca viu como o caboclo destemido e garboso salta ao lombo do potro xucro e sai ao léu pelas campinas, só quem nunca parou um rodeio e nunca assistiu a uma briga de touros, desconhecerá que a vida do campo é a melhor, a mais pura e bela, a mais divertida de todas!
            Mas quem, como eu, na “lida de campo” e numa queda de cavalo arrancou o primeiro dente que lhe nasceu, ama tal vida como a nenhuma outra, e quando circunstâncias estranhas à sua vontade dela o privaram, chora a sua falta e há de morrer como o “cavalo mostardeiro”, com a cabeça voltada para a querência, ou seja, com o coração preso à inapagável saudade da vida dos campos!
             Façamos, então, leitor amigo, um retrospecto de meio século no passado, e me acompanhe na descrição de um dos mais apreciados acontecimentos que ocorriam anualmente na vida da Fazenda “São João de Pelotas”[1], ao tempo em que estava sob o mando de meu pai – João Batista Ribeiro de Souza.
            Vamos “parar” um rodeio no “Pinheiro Seco”, célebre rincão nos anais daquela Fazenda, tanto pelo número de cabeças, como pela brabeza do gado.
            Empregarei, quando possível, a linguagem e os nomes regionalistas que então aprendi e que muito perto me falam ao coração.

OUTUBRO

            Tempo de marcação e derrubada do gado para dar sal “guela” abaixo. Grande azáfama no velho solar dos descendentes do Coronel João Ribeiro, em São João de Pelotas. Gente como pinhão na pinha. Ao clarear do dia, todos os seus habitantes já estão de pé e se movimentam: uns socam o sal; outros vão ao potreiro recolher a cavalhada; aquele emenda um laço, este afia uma tesoura e, em todos os semblantes, pinta-se uma louca alegria; um entusiasmo, um frêmito como que agita aquele mundo de gente: é que hoje é dia de rodeio no “Pinheiro Seco”. Eta ferro! O negócio vai ser duro!
            Chegam os cavalos do potreiro e o velho Batista, homem ainda de boa idade, ríspido, severo e que entende da lida como gente grande, dá ordens aos peões; grita ao pessoal, e então todos os campeiros, de buçal na mão, dirigem-se à mangueira onde está a cavalhada, chegada há pouco do potreiro. Um laçador bom entra na mangueira e vai laçando os cavalos, enquanto os outros ficam sobre a porteira esperando as ordens do patrão.
            O primeiro cavalo laçado é um tordilho chato de nome Fumaça: é o encilha do chefe. Um “piazinho” chega o buçalete e o conduz para o galpão. O segundo que cai no laço é o cavalo baio amarelo, da tropilha da Taipa, chamado Beladona; diz o seu Batista: “chega, campadre Silvano”; o terceiro é um cavalo branco, crina preta, muito bonito, de nome Patarata: “Chega, Inácio Pereira”. O Patarata, bom como um veneno e velhaco como um raio, costumava velhaquear e derrubar o Inácio, escapando com o lombilho; apesar disso, era o seu favorito. O quarto é um cavalo sebruno, o Cedro: “Chega, Afonso”; o quinto um cavalo preto, o Fumega: “Chega, Antônio Pedro”; o sexto cavalo branco, o Cambraia: “Chega, Amado”; o sétimo, um cavalo rosilho, o Caçapava: “Chega, Máximo”; o oitavo é um pingo branco, pintado de preto na tábua do pescoço, o Garça: “Chega, seu Tinoco”. Um “piazinho” de sete a oito anos sai saracoteando e vai enfrenar[2] o seu corcel. O Garça era um dos melhores matungos da tropilha, lindo animal, faceiro, caminhava quebrando o freio com o queixo na maçã do peito.
            E assim por diante, que mais de trinta teria de enumerar, até que cada campeiro recebesse o seu cavalo, todos, um por um, determinados pelo velho Batista, geralmente o mesmo que recebera na véspera.
            Em seguida, cada qual encilha o seu pingo, sem apertar muito a chincha e sem pôr os pelegos.
            Enquanto isso, na cozinha e na casa grande, ia um atropelo do mulherio que prepara um almoço ligeiro, ou um café “salgado”[3], para a campeirada que se aproxima das mesas arrastando as esporas, alegres, jocosos, palradores. A tudo dirige com energia e afabilidade, a dona da casa, dona Cândida Ribeiro, ainda bem moça e sempre muito bonita.
É a hora de sair para o campo. Cada um aperta o seu cavalo, ata o laço nos tentos e os mais moços e mais “fachudos” amarram a cola do pingo, lá em cima, “onde a Maruca prende o grampo”; prende as rédeas na cabeça do serigote, bem curto, e o matungo fica ali, enfrenado, nervoso, pisando em flores, mordendo a maçã do peito.
Os campeiros de laço nos tentos, botas e esporas, montam a cavalo, de “arreador” ou “rabo-de-tatu” na mão. Saem para fora do parapeito, param, o patrão põe os olhos na turma para ver se não falta ninguém.
Coo! Coo! Coo! Chamam-se os cachorros, os inseparáveis e eficientes auxiliares do camponês na lida com gado xucro, atendendo logo, seis, oito, pulando, ladrando, correndo contentes, à frente dos cavalos.
Sai a cavalgada. A poucas quadras da casa, o patrão sustém o cavalo e dá as suas últimas ordens aos ginetes que se apinham ao seu redor:
- O Amado, o João Chica, o Joaquim Januário, o Chico Minducha e o Edmundo, vão ao fundo dos “Dois Irmãos” a galopinho, dando água para os cavalos, trazendo tudo, gado e cavalhada, não deixando nada.
- O Inácio Pereira, o Afonso e o Zé Negrinho, vão ao fundo do “Maria” e do “Faxinal”, a galopinho, dando água para os cavalos: tragam tudo, gado e cavalhada, e, às vezes, brincalhão... “veado, graxaim, jaguatirica, tudo que acharem”. A brincadeira dava como que ênfase às ordens transmitidas aos seus comandos, para que esses pusessem toda a atenção e empenho na recruta da gadaria.
- O Antônio Pedro, o Bento e o Guacho, vão ao “Corredor Ruim”, “Fundo do Rodeio” e “Picada Grande”, trazendo tudo, gado e cavalhada, que não fique nada... poupando e dando água para os cavalos.
- O Pedro Grande, o Marcos, o Loiola, e o seu “Tinoco” entram aqui no “Fundo da Lagoa”, no “Boi Brasino” e levam tudo que acharem para o rodeio.
- O Compadre Januário e o Narciso seguem com os cargueiros de sal diretamente para o “Pinheiro Seco”; descarregam e vão preparar o moquém para assarmos o churrasco do mamote[4] que vamos matar. Nessa palavra do chefe, “muito negro” passava a língua nos beiços, antegozando o sabor do churrasco com farinha seca, pão e café gostoso.
- Terminando, dizia o velho Batista: eu, o compadre Silvano (e mais as visitas, se as havia) vamos aqui pelo “Morro do Lagoão”, recrutando o que acharmos, esperando vocês no rodeio.
E desse modo, o experimentado fazendeiro distribuía o pessoal, de jeito que cada canto daquele fazendão, recebesse a sua turma de campeiros. Ele e os companheiros iam, mais ou menos diretamente, para o “Pinheiro Seco”; ali subiam um morrinho alto, de onde se descortinava uma vasta extensão de campos; e o velho Batista abria o peito chamando o gado: aon... maton... on... on! Dali a pouco principiava de novo: aon... maton... on... on!...
E que peito tinha o velho! Foi célebre! Sua voz clara e possante ecoava como um clarim na quebrada dos montes e como que rolava sem perder a intensidade no vargedo das campinas!
O gadaréu levantava a cabeça, ouvia o grito do pastoreio e imediatamente seguia para o rodeio, aos pinotes berrando e chifrando uns aos outros. Aí então, tinha-se diante dos olhos um espetáculo magnífico: O rodeio do Pinheiro Seco ficava numa rechã[5] formada pelo concurso de pequenas colinas e outeiros atapetados pela verde pastagem que, já em outubro, muito viçosa, reverberava aos raios do sol; aqui e ali, rasos e límpidos arroios prateavam, em riscos largos, o fundo da paisagem, sumindo além na orla dos capões.
Já perto do meio-dia, a campereada está chegando ao fim. De todos os lados afluem animais para o rodeio; aos pinchos[6], berrando, num alarido louco. Os terneirinhos novos, galantes como uns brincos, reúnem-se aos magotes para brincar, saracoteando, pulando e correndo uns atrás dos outros.
Dali a pouco começam a chegar os campeiros com os pontões de gado, os cavalos banhados em suor, resfolegando, arquejantes, batento o vazio. Está parado o rodeio: quatrocentas, quinhentas reses... Que bicharedo!
No gado do “Maria” vinha um touro preto caracu, da virilha branca, animal criado, possante, lindo como uma fita, e uma das raras reses mansas daquele rodeio de feras.
No gado dos “Dois Irmãos” vinha um touro colorado, bicho criado, grande como um rancho e feroz como um tigre.
Os dois titãs se avistam: velhos inimigos, começam logo a se provocar: cavando terra, defecando abundantemente, rabejando, urrando de espaço a espaço, enterram as aspas no chão, levantando leivas de terra; dos pescoços de rodo e dos cupins monstruosos levanta-se uma cerração de poeira vermelha. Quando apenas uns oitenta centímetros os separam, levantam muito a cabeça, ambos ao mesmo tempo, param, curvam o pescoço ligeiramente em sentido oposto, armam-se garbosamente, cavam a terra... É momento psicológico de grande emoção. Os cavaleiros, ofegantes pelo nervosismo que os domina, rodeiam os “gladiadores”, com grande cuidado e imensa cautela. Há perigo iminente (e logo veremos o fim trágico da luta), pois o touro que apanha sai seco, fulo de raiva; o que encontra pela frente leva na ponta dos chifres.
Há apostas entre os espectadores, as opiniões e palpites se dividem entre o preto e o colorado... subitamente, ouve-se um choque violentíssimo – a luta teve início: os dois touros, ambos possantes, ambos formidáveis, dão-se marradas tremendas, pontaços horripilantes, partem de lado a lado arrancando pelos, riscando o couro; o sangue esguicha dos pescoços nodosos e dos cupins hirsutos; outra vez uma cerração vermelha ergue-se daqueles corpos em feroz contenda qual uma caldeira efervescente de zarcão. E, por mais de dez minutos, prolonga-se a luta, sem que se possa calcular a qual dos contendores caberá a vitória.
De repente, em dado momento, o touro preto consegue pegar o colorado por baixo do pescoço hercúleo, suspende-o na cabeça e o carrega dezenas de metros, rasgando o chão com as patas, estendo o colorado na relva e calca-o furiosamente a cornadas! Este “berra como vaca”; é o sinal de que se acobardou. Rápido como o relâmpago levanta-se o colorado, destro como um lutador medieval; o preto crava-lhe as aspas, aceradas durindanas[7], nos quartos musculosos e atira-o, escafedendo.
Na fuga, episódio perigosíssimo para os espectadores, o touro colorado parte em vertiginosa carreira em direção aos cavaleiros que formavam um semicírculo próximo ao local da briga; alcança um deles, o Máximo, que montava o brioso Caçapava; levanta o cavalo e o cavaleiro nas aspas, enterra uma delas até o meio no ventre do pobre corcel.
Cena dantesca aquela em que um touro bravíssimo levanta sobre os chifres um cavalo, o cavaleiro fazendo prodígios para subtrair-se ao iminente perigo.
Rápido, o touro consegue atirar o cavalo ao solo o “tripedo” arrasto. Desde aquele momento o colorado passou, nas crônicas da Fazenda, a denominar-se “o Criminoso”.
Refeito da forte emoção que o prendeu, o velho Batista gritou energético: Capem essa fera!
Os cavaleiros se entreolharam; mas, habituados a esses lances dramáticos e arriscados da vida de uma fazenda de criação de gado, sacam os laços e avançam sobre o colorado que, a um canto do rodeio, cavava terra envolto num turbilhão de pó. O touro, vendo-se acossado por aquele pugilo de laçadores, resiste-lhes furioso, cavando terra, bramindo como um leão, investindo, ora contra um, ora contra outro dos cavaleiros; mas dez homens são também dez feras dotadas de inteligência – que é a força mais terrível do mundo – dez laços quase ao mesmo tempo caem-lhe em cima, maneiam-no e derrubam-no, mais rápido do que se poderia esperar. Laços nas pernas, laços nas mãos, aqueles destemidos camponeses estaqueiam o vigoroso animal.
Então o tio Amado, moço, jovial e destro camponês, joga-se de cima do Cambraia, saca de uma faca e, em golpes rápidos, extirpa os testículos enormes do colorado que, assim, perde a “cisma”, deixando desde aquele momento de ser touro, passando para o rol dos tourunos.
O tio Amado, sempre patusco, com os bidoques na mão, mostrando aos companheiros diz: “vou comer eles assados para eu ficá valente também!”. Mas, em seguida, desiste e joga ao “Veludo” e ao “Barão”, dois ótimos cachorros gadeiros, um preto e outro baio, que devoram o avantajado par de glândulas.
Ao levantar-se, “o criminoso” ficou dançando e se virando para todos os lados, tal como os touros nas arenas das praças de toureação; mas, os cavaleiros que, prudentemente, se haviam retirado do local, não deixaram “inimigo” contra quem o colorado pudesse investir.
E assim, o colosso perdeu a “cisma” e não teve em quem se vingar! O mesmo, muitas vezes, acontece na vida, para os homens... Perdem o rompante e ficam falando sozinhos.
Enquanto isso se fazia, minha mãe, que se encontrava com as filhas no Pinheiro Seco, mandou que alguns peões levassem o mísero Caçapava para a sombra de um capãozinho, onde havia uma aguada; ali chegando, com aquela sua presença de espírito admirável e ânimo sereno, mamãe ordenou que se pusesse a vítima de pernas para cima, lavou as tripas do animal com água de creolina e pôs-se pacientemente a recolhê-las, depois com tento de couro cru, bem desinfetado na creolina, coseu a barriga do cavalo.
Todos pensavam, corroborando com a opinião de que se devia sangrar o pobre animal pra não estar sofrendo, que o Caçapava não escaparia daquela. Mas minha mãe não deixou que o matassem, dizendo que não havia tripa furada e o cavalo podia se salvar.
Realmente, a vítima do colorado não morreu, sarou, sem voltar todavia ao seu antigo vigor.
Tempos depois, quando se avistava o Caçapava, magro e peludo, matando butuca pelas encostas dos matos, repetia-se a história mil vezes contada, da trágica cena do Pinheiro Seco.
Quando mamãe terminou o tratamento dispensado ao destitoso animal, era chegada a hora do churrasco. Então, todos a cavalo, inclusive as senhoras, reunidos em um piquete de cavalaria ou guarda avançada, atravessaram o rodeio coalhado de gado, em direção ao moquém que estava organizado justamente do lado oposto ao que ficara deitado o Caçapava. O lugar era pitoresco, um capãozinho com boa sombra e excelente água.
Três ou quatro menores ficaram rodeando o gado no rodeio, a fim de evitar que alguma rês mais arisca se tresmalhasse, enquanto o patrão e sua comitiva iam ao “encosto”[8] para a muda de cavalos e churrasquear.
Aí, na enseada de um banhado atolador, recostavam-se os cavalos, desencilhavam-se os que haviam servido para reunir o gado no rodeio, com um manojo[9] de capim desempastavam-se-lhes o lombo do suador, e um molequinho os conduzia aos bebedouros d’água, já na direção da sede da Fazenda.
Então, no “encosto”, com os cavalos de reserva, repetia-se a mesma cena da manhã na mangueira da casa: - Cai o laço no pescoço do Soberbo, “Chega fulano”; Vem o Preá, “chega o beltrano”; - O Serrote, o Sucena, a Beleza, e a Égua Moura, o Humaitá, o Corisco, o Gadeia, o Veado, O Mouro Grande etc., são distribuídos pelos campeiros.
É a hora boa da churrascada. Há tempo já, o tio Januário e seus comandados haviam carneado o mamote gordo. As postas graxudas eram moqueadas em cima do brasido, cheirando apetitosamente.
Grupos de três a quatro campeiros recebiam seu assado e dirigiam-se para uma mesa improvisada onde, com abundância recebiam farinha de mandioca, pão e grandes bules de café.
Era uma verdadeira festa. O trago da cachaça corria solto, de mão em mão, esquentando o sangue dos homens que discutiam, riam, gesticulavam, comentando as aventuras da campeirada do dia; a briga dos touros, o acidente com o Caçapava. Só o Máximo não ria, continuava macambúzio com o desastre acontecido ao seu amigo e pingo de estimação.
Pronto. Todos montados voltam ao rodeio, fazendo broxas (riscar a grama com as patas traseiras do cavalo quando esse em disparada é sustado abruptamente pelo freio), roseteando os pingos para alertá-los de que a hora é chegada do entrevero com o gado xucro: os excelentes cavalos de São João de Pelotas conheciam do serviço, só faltava falarem.
Chegando ao rodeio, acaba-se a farra: o velho Batista fecha a cara e dispõe os seus homens para “aparte” que é uma das fases mais emocionantes da lida de campo: - trinta, quarenta cavalarianos formam uma grande ala em meia-lua e, assim, conjuntamente, cortam um pontão de gado. É o sinuelo[10], que conduz a um determinado lugar na direção da Fazenda, para facilitar a sua próxima condução, fica separado, a pouca distância do grosso do gado do rodeio, pela ala de cavaleiros, espera-se uns minutos até o gado sossegar; depois dois ou três homens acompanham o chefe, entram no sinuelo, e vão, cautelosamente, fazendo voltar para o rodeio as reses que não devem ser conduzidas para a sede da Fazenda.
Então, o “seu” Batista determina a ordem dos trabalhos: Velhos e moços, peões e íntimos da família, naquela hora, todos são iguais, recebem ordens e ninguém discute. “Faz a fala”:
Vamos apartar as vacas de cria, terneiros de ano que vão à marca, os touros para castrar e as reses magras para se dar sal goela abaixo: poupando os cavalos e sem perder tempo. Vamos nas horas de Deus!
Todos levantam o chapéu, em sinal de respeito ao nome do Criador.
Três a quatro ginetes entram no sinuelo e vão refugando as reses que não figuram em nenhuma das classes enunciada pelo chefe.
“Limpo” o sinuelo, oito, dez homens ficam cuidando deste, enquanto o restante volta ao rodeio. Aí se dispõem aos pares, geralmente velhos parceiros de aparte, e vão separando as reses jeitosamente, para não atropelar a gadaria, até que cada um dos bichos sai fora do grosso do gado; nesse momento, sem pestanejar, ao mesmo tempo, ambos os cavaleiros cerram esporas nos matungos e, aos gritos, a estalos de arreador, a toda velocidade, levam a rês, “na barbela do freio”, até o sinuelo, onde, à entrada deste, sentando as mãos nas rédeas, fazem os pingos rasgar a grama naquele dependurado do Pinheiro Seco.
Barbaridade! Nossa Senhora! Que coisa bonita de se ver!
Quem nunca assistiu a um aparte de rodeio de gado xucro, não pode avaliar a técnica, a prática requerida por parte dos cavaleiros para que a rês chegue ao sinuelo, sem escapar nem para um nem para outro lado, nem que parando a rês subitamente, sigam, os dois ginetes no ímpeto da velocidade adquirida, emparelhados, sem rês nenhuma, como dois bobos... Quando isso acontece é um “fiasco” para os companheiros que se prezam.
E por essa forma continua o aparte, horas a fio, até que se tenha retirado do rodeio a última rês que se pretende conduzir para casa.
Terminando o aparte, todos os cavaleiros se dispõem ao redor do sinuelo que, no Pinheiro Seco, ficava formado por duzentas e mais reses.
Ligeiro descanso para os cavalos que, banhados em suor, arquejantes, resfolgam a plenos pulmões, narinas abertas, vermelhas como uma nesga de baeta[11]. Depois, a um sinal do chefe, encaminha-se aquele bicharedo em direção da Fazenda: é uma tarefa árdua. Ao restante do gado que ficou no rodeio, é distribuída farta quantidade de sal, colocado em cochos, que o bicharedo lambe gulosamente.
Naqueles bons dez quilômetros que separam o Rodeio do Pinheiro Seco da sede da Fazenda de São João de Pelotas, em todo o seu percurso, inumeráveis são os episódios que ocorrem de minuto a minuto. O gado é bravio. Por todos os lados refugam reses a toda brida, sobre as quais açula-se a cachorrada que, ganiçando, aos tombos, às dentadas, conseguem às mais das vezes fazer voltar as reses ao sinuelo. Esse serviço é feito, mesmo, quase exclusivamente pelos cães gadeiros, esses leais e valorosos serviçais do homem. Os cavaleiros não podem despegar-se do grosso do gado, pois esse pode se tresmalhar totalmente numa debandada geral, indo, água abaixo, um dia inteirinho de serviço e porfiada luta com o gado xucro.
Finalmente, eis-nos chegando, com aquele pontão de gado, à Fazenda, para encerrá-lo na mangueira: “Agora é que a porca torce o rabo se não for pitoca!”.
À vista da casa e do mulherio encarapitado em cima das taipas e das tronqueiras para assistir ao grandioso e “sui generis” espetáculo, o gado começa a refugar, trotando, correndo em redemoinho, batendo os chifres que repercutem em estalidos secos como o pipocar de metralhadora em funcionamento.
É o momento decisivo: é preciso evitar a todo o transe o “estouro da boiada, episódio grandioso e belo, mas perigosíssimo porque a manada assim desembestada, leva de roldão e amassa sob as patas tudo o que encontrar pela frente. A gauchada então cerra esporas nos matungos e comprime a gadaria sobre a porteira do mangueirão, toda aberta.
Acuação cerrada da cainçalha, gritos, estalos de arreador, berraçada das vacas de crias e dos bezerros – um alarido infernal!
Dez, vinte reses, tresmalham-se, mas o grosso do gado é encerrado: dois ou três ginetes postam-se à porteira, e os demais, a toda velocidade daqueles valentes corcéis, de laço na mão, matilhas e cães a ganiçar, cortam as coxilhas, sobem e descem as encostas do morro no encalço das reses que fugiram na estrada da mangueira. Raras escapam daqueles centauros veteranos e encanecidos no lombo dos cavalos; algumas são conduzidas no laço, a rabo-de-tatu, à custa de cachorros que se lhes ferram nos garrões, que outro jeito não há.
Recolhida a última rês que se tresmalhara e fechada e porteira, o velho Batista abre a fisionomia, levanta o chapéu bem alto e exclama:
Graças a Deus! Todos os presentes o acompanham no gesto e repetem a jaculatória.
Então a campeirada segue para casa, feliz, alegre, sem sentir canseiras, mentindo, contando lorotas, rasgando faixas de apocalípticas proezas praticadas naquele faustoso dia de rodeio no Pinheiro Seco.
Desencilhados os cavalos, cada qual puxa o seu até o riacho “Tourinho” onde, carinhosamente, lava o pingo dos pés a cabeça, molhando o “bolso” (nas entrepernas a capadura, ou o úbere das fêmeas). Em seguida, a cavalhada é repontada para o “Açude Grande”, no Capão da Lagoa, onde pastoreados, ficam pastando e bebendo água, sendo à noitinha conduzidos para o potreiro.

Três horas da tarde.
Merenda farta.
Hora do pealo.
Eta! Mundo velho!
Vai começar a derrubada geral do gado. É a fase mais perigosa para os homens na lida de uma fazenda, quando se trata de um gado brabo como era o do Pinheiro Seco. O homem deixa de ser centauro, é simplesmente homem apeado do seu corcel que lhe oferecia uma proteção quase completa contra a agressividade dos animais xucros. Têm que entrar na mangueira a peito descoberto, no meio do gado feroz que entre as taipas do mangueirão se reborqueia, correndo de canto a canto, batendo os cascos, retinindo os chifres.
Naquele lote, todo o gado é brabo, mas algumas reses se sobressaem, e essas são as primeiras a pressentir os lidadores que de laço na mão, afoitamente, se lançam na mangueira de chinchador à ilharga, chapéu quebrado na testa, em mangas de camisa.
As mais ferozes carregam imediatamente sobre peleadores: alguns vão à taipa, outros mais destros e destemidos quebram o corpo e jogam o laço em reborqueado que, em rodilhas coleantes de serpente, vai “cantar” as munhecas do bicho; deitam o laço na cintura e o animal tomba fragorosamente, como se fosse ferido pelo raio.
- “Acarca, fulano”! grita o peleador e o fulano avança sobre o animal deitado e torce-lhe a cabeça; ato contínuo, outro laçador põe o seu laço nas pernas no animal, que fica assim bem seguro e estaqueado; nesse momento um dos três homens ali presentes, grita forte: “Sal e água, marca, tesoura e faca”, conforme as operações por que vai passar o animal.
Sal e água goela abaixo usa-se nas fazendas, na saída do verão, não só como tônico e reconstituinte, mas como um depurativo que, purgando a rês, facilita a queda dos pelos do inverno, abrevia a engorda, e, como dizem em veterinária caseira, faz “abortar alguma doença incubada”.
A marca, naturalmente, é para assinalar os animais, facilitando a identificação no caso do extravio, ou, quando na fazenda há mais de um dono, saber a quem pertence aquele animal.
A faca serve para fazer o sinal sangrento nas orelhas, cujo feitio há de todos os tipos, e para castração, quando for o caso.
A tesoura presta-se para destopetear o gado, isto é, aparar bem rente um pêlo alto que cresce na testa das reses durante o inverno, que as enfraquece e as enfeia; pode servir também para cortar a crina da cauda que é a matéria-prima sempre muito procurada nos mercados do mundo.
Para todos esses misteres há gente escolhida pelo patrão, escolha que recai de preferência sobre os indivíduos desadestrados no manejo do laço – que o pealo é uma arte difícil – ou então menores já com a prática desse serviço.
Trabalhada a rês, vai-se-lhe dar liberdade; nesse momento, parte do acalcador e seus parceiros o aviso:
Vai o charque, minha gente!”
Espalhados que andam por todos os recantos da mangueira, fazendo idêntico trabalho, peleadores se previnem; é que vai levantar-se uma rês muito braba, investideira.
Virgem poderosa! Os laços que a manietavam no chão afrouxam-se ao mesmo tempo, o acalcador já “se escafedera”, prudentemente. O animal se levanta enfurecido e investe furioso sobre o primeiro homem que se lhe depara pela frente e só o deixa quando a cerca em que o perseguido trepou, não lhe permite mais avançar.
E não raro, antes que o perseguido atinja a taipa, a rês o alcança e o levanta nas pontas aceradas: fere a vítima de morte ou a contunde gravemente – são os cavacos do ofício.
Há reses tão brabas e encanzinadas que, por mais destemerosos que sejam os homens, não lhes permite mais voltarem à mangueira para continuar a lida. Nesses casos é preciso recorrer a um expediente: derrubar a rês novamente e amarra-lhe curta a mão direita ao pé esquerdo ou vice-versa, o que impossibilita o animal de correr, embora possa se pôr em pé; fica ali urrando, cavando terra, esbravejando na sua ira impotente, que para tudo há remédio no mundo: para o boi brabo, a maneia cruzada, para homem louco, a camisa-de-força.
Trabalhando o gado todo, contada classe por classe, toma-se nota de tudo, para posterior registro no Livro Tombo da Fazenda, abrem-se as porteiras e solta-se o bicharedo que “sai de marca quente”, e vai direitinho, em marcha batida, para a querência.
Dezenove horas:
Lá se vai o sol entrando
Redondo como um vintém
E a Terra triste ficando
Co’a despedida de alguém!...

Jantar.
Que povão!...
Que lida braba também a do pessoal doméstico. A esposa do velho Batista (velho só no nome) que tinho administrativo tinha, que ordem e que limpeza reinavam naquele casarão! E que boa era minha mãe, alma santa, sempre tão meiga tão afável para com todos, grandes e pequenos, pobres e ricos. E, por isto, Deus, que já a levou deste mundo, te-la-á premiado com o Céu!
Depois do jantar, a rapaziada ia brincar e fazer estripulias ao luar: laçar os terneiros ou brincar de “roda-cotia” e de “gata cega”.
A peonada, os agregados, os negros velhos, ficavam em grupos palestrando, gracejando, contando mentiras, comentando os episódios da campeirada ou da lida da mangueira.
A casa grande se iluminava, alegre. Nas salas e nas varandas, os homens de mais idade e de mais responsabilidade se reuniam a meu pai, e as mulheres, à minha mãe, palestrando alegremente e tomando chimarrão, comendo guloseimas.
Dali a pouco, ouvia-se o som de uma gaita: era o Inácio Pereira que a tocava; a rabeca gemia sob o arco manejado pelo Zé Cláudio; o violão chorava: era o Serciliano que o dedilhava. Estava formado o baile, que moços e moças não faltavam na residência do casal Batista Ribeiro, dado o seu largo círculo de amizades e parentada. Por aqueles tempos de lida de campo, a vizinhança toda estava em São João de Pelotas.
De repente, fazia-se silêncio, atenção geral: eram dois cabras que se atracavam num desafio em versos, na lira pura, singela e expressiva do sertanejo – o “quero mana”. Ou era então um cabriola que se fincava a recitar versos de estirada décima.
E, para quebrar a monotonia da minha prosa – oca e balofa – lá vão alguns versos tais quais os aprendi, nesse já remoto passado da minha vida tão inocente, feliz e descuidosa. Por ignorância, e por prazer, perfilho aqui todos os delitos, contra a Poesia, dos versos que deliciaram outrora os meus ouvidos de criança:

Na costa do Rio Pelotas,
Naquele curral de dunas,
Deixei o negro deitado
No coice de uma reúna.
A sorte que negro teve
Ser preto como um carvão,
Se não eu não dava tempo
Do negro levantar as mãos!

Outro:
O índio quando me viu no laço
Disse: eu hoje não te deixo.
Olhei na cara do índio e
Contei dezoito fios no queixo;
Os olhos eram dois botões e
A barba como de peixe!...

Mais:
Lírio roxo, riscadinho,
Tem a cor de um penitente,
Quem anda cego de amor
Passa trabalho e não sente!

Ainda:
Vai-te carta venturosa,
Por esse mundo sem fim,
Se um dia me perder de vista,
Nunca te esqueças de mim!

Finalmente:
Menina dos olhos pretos,
Não me olhes chorando,
Eu faço que não te quero
Mas estou te namorando!...

            E, nesse diapasão, furavam as horas os poetas e queromanistas de São João de Pelotas! Bons tempos aqueles! Era-se mais feliz, havia mais amizades sinceras, mais dinheiro, o câmbio não oscila tanto e... Benza-me Deus! Cala-te língua! Ainda não de tinham inventado a bomba atômica e o tubaronismo, o quebra-quebra, o comunismo etc.
            Aí tem os amáveis leitores de “A TRIBUNA”, a história de um rodeio no Pinheiro seco, dedicada ao meu querido amigo Inácio Pereira, armado cavaleiro nas façanhas épicas de uma lida de campo no famoso rodeio de gado xucro, e que “Gavião-de-Penacho” se lhes propôs a contar.
Só há uma diferença: Gavião-de-Penacho – na pena – é como pintor pobre, sem arte e remendão, que foi fazer o retrato de um homem e lhe saiu do pincel a figura grotesca de um orangotango.

São Joaquim, julho de 1931.
(Ass.) Gavião-de-Penacho[12]




Figura 1 - Mangueira Redonda de Taipas das Ruínas da Fazenda São João de Pelotas.


Figura 2 - Em uma parte da Fazenda São João de Pelotas está localizada uma grande cruz de cedro, que assinala o assassinato de João Baptista de Souza, "Inholo", em 1850.  Essa parte da fazenda passou a ser denominada pelos moradores da região como Santa Cruz, nome pelo qual é conhecida até hoje.


Notas:

[1] Fazenda São João de Pelotas: ao sul do município de São Joaquim, divisa com o Rio Grande do Sul. Essa grande fazenda pertencia no tempo dessa parada de rodeio a João Baptista Ribeiro de Souza e de Cândida dos Prazeres Baptista de Souza. Mais informação sobre a fazenda em: https://genealogiaserranasc.blogspot.com.br/2012/06/sao-joao-de-pelotas.html
[2] Enfrenar: do espanhol; substituir o bocal pelo freio em animais que amansam. Sinônimo: enfrear.
[3] Assim chamado porque era servido algum tipo de carne: guisado com farinha de mandioca, charque, etc.
[4] Mamote: Terneiro crescido que ainda mama.
[5] Rechã – Planura alta.
[6] Pinchos – aos pulos.
[7] Durindana: nome dado por Carlos Magno à sua espada.
[8] Encosto: parte do campo concernente à pastagem dos animais durante um certo tempo.
[9] Manojo: molho ou feixe que se pode abarcar com a mão; manolho.
[10] Sinuelo: palavra de origem do espanhol platino e que significa o gado manso habituado ao curral, e que se emprega nos trabalhos rurais como guia de animais xucros.
[11] Baeta: tecido felpudo de lã.
[12] Gavião-de-Penacho: pseudônimo utilizado pelo autor em seus artigos na “A Tribuna” de São Joaquim.


Referência

RIBEIRO, Enedino Batista. Gavião-de-Penacho – Memórias de um serrano. Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Co-edição da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina. 544p. Coleção Catariniana, n. 1. Florianópolis: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 1999.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Homenagem a Arno Leopoldo Schneider (11.03.1931 – 29.01.2015)


No próximo 29-01 fazem dois anos da morte de meu fiel escudeiro, meu grande amor, Arno. Seguir vivendo é necessário, pois a família e amigos que constituímos juntos, os laços que construímos, merecem nossa dedicação. Seu legado me impôs metas de vida: continuar zelando pelos nossos e tentar viver com qualidade o tempo que ainda me resta. Porém, não passa um dia sem que não me recorde e sinta saudades dele.

**********************

Arno Leopoldo Schneider nasceu no dia 11 de março de 1932, na cidade de Santo Ângelo (RS). Cursou Odontologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, e era especialista em endodontia.  
Casou-se em 22 de julho de 1955 com Ismênia Ribeiro Schneider, com quem viveu por quase 60 anos. Faleceu em 29 de janeiro de 2015, em Florianópolis, deixando quatro filhos e quatro netos, além de muitas histórias para relembrar.
Como bem lembrou o Portal de notícias “Daqui”[i], com frequência, Sêo Arno era visto no bairro de Santo Antônio de Lisboa, caminhando de mãos dadas com sua esposa Ismênia, degustando um bom vinho ou ainda ouvindo uma boa música. Era impressionante ver sua amabilidade e vitalidade mesmo aos 83 anos de idade, sempre disposto a organizar as coisas da casa, participar dos eventos do Baiacu, acompanhar a esposa em eventos como o lançamento de seu livro, entre tantas outras ocasiões. Sempre será lembrado como um ótimo companheiro, marido, pai, avô e amigo, e um exemplo de como aproveitar a vida.
Sêo Arno era muito bem quisto entre familiares e amigos, sendo considerado pela esposa como o “seu fiel escudeiro”. Tal apreço era observado nos mais distintos momentos do cotidiano e tornou-se bastante evidente nas homenagens por ocasião de seu falecimento. Ainda em seu velório, Sêo Arno foi homenageado com música, assim como na cerimônia em que suas cinzas foram lançadas ao mar de Santo de Lisboa. Além disso, belas palavras foram proferidas em sua lembrança, como no texto de Ci Ribeiro, referindo-se à cerimônia de despedida de Arno Leopoldo Schneider:

Todos nós, de uma maneira ou outra, buscamos, se possível,l enganar a morte, pois no geral não sabemos tratar esta etapa de nossas vidas, apesar da certeza da morte física para todos. Porem, foi confortante ter participado ontem com vocês e amigos do ato de despedida da desencarnação do sêo Arno. Saí da celebração com orgulho de ter participado de um contraponto ao sentimento de perda e morte do querido sêo Arno.
Hoje, 30 de janeiro de 2015, amanheceu e segue nublado e chuvoso, como que num simbólico pranto pela nossa perda da companhia física dele entre nós. Mas prefiro ver esta chuva muito mais como água de apoio à germinação do que plantamos e estar por vir.
A acolhida e serenidade de vocês, as falas de carinho e apreço, de amigos e parentes, num misto de orações, recordações e músicas, serviu para comemorar o exemplo de vida do sêo Arno. Aquela celebração deu alento à perda ao enaltecer as virtudes do Arno cidadão, companheiro, irmão, esposo, pai, tio e avô, amante da cultura, de um bom vinho, das gentes e especial da Ismênia.
Poucos entre nós iremos merecer tal celebração e acolhida num momento tão delicado para os que ficam, cheio de eternas incertezas espirituais e materiais sobre o sentido e objetivo de nossas vidas.
A celebração, os sentimentos-compromissos expressos e o legado que nos deixa sêo Arno e vocês, com certeza ira se somar aos esteios de nossos sonhos e esperanças fraternas, por uma nova sociedade.
Como aprendiz da vida e da morte de companheiros, sem qualquer conotação religiosa à priori, acredito na possibilidade de um elo espiritual eterno, junto a nós, daqueles que nos foram caros e virtuosos. Acredito que os que positivamente fizeram a diferença em nossas vidas privadas e coletivas, lembrados e celebrados com esta virtude, nunca morrerão em nossas vidas, mas servirão de apoios aos nossos sonhos e esperanças.
Vida eterna para as virtudes do companheiro Arno, seu testemunho de vida em nossas vidas!!!
Abraços fraternos para todos vocês, em especial para a querida Ismênia.
Ci Ribeiro









[i] DAQUI, Portal de notícias. http://daquinarede.com.br/2015/01/rancho-de-amor-a-ilha-para-arno-schneider/

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Parzinho de vasos

Como o Natal se aproxima, aproveitamos para postar novamente um conto (Parzinho de Vasos), escrito pela "Vó Ismênia" para sua neta Carina.


       Desde o começo de dezembro, sempre à mesma hora, os moradores do centro da cidadezinha de São Joaquim viam passar, muito sérias e arrumadinhas, as duas meninas. Eram gêmeas e conhecidas de todos, que as chamavam “o parzinho de vasos”, pois se pareciam muito, andavam sempre juntas, tudo repartiam e compartilhavam.
Todos sabiam o itinerário e o objetivo da caminhada. Entreolhavam-se e sorriam misteriosamente. De dentro das casas, de vez em quando, alguém perguntava:
- As gêmeas já passaram?
- Sim, respondia quem observava, agora mesmo!
     As meninas caminhavam rapidamente, sem olhar para os lados, mas via-se que seus olhos brilhavam de ansiedade e emoção. Só paravam em frente à vitrine da Casa Martorano. Ali estavam expostos brinquedos, lindamente arrumados para o Natal. Mas as irmãzinhas só tinham olhos para duas bonecas colocadas lado a lado, no centro da vitrine. Eram realmente bonitas, diferentes de todas as que as meninas da cidade tinham visto até ali: eram bastante grandes, em fina porcelana, os cabelos compridos e louros, os olhos que abriam e fechavam delicadamente, com pestanas densas e escuras. Os lábios vermelhos deixavam ver uma fileira de dentes alvos. Em tudo iguais, num ponto diferiam: na cor dos olhos. Uma delas os tinha muito verdes, e o vestido, para combinar, era também verde, cheio de babados, rendas e fitas. A outra tinha os olhos castanhos, transparentes, e estava vestida de vermelho. As meninas, a quem sempre eram contadas histórias de fadas, pensavam que eram princesinhas encantadas...
      Segurando no cano dourado que protegia a vitrine, as crianças, alheias a tudo, permaneciam longo tempo observando as bonecas. Cada uma já escolhera a sua, até já lhes dera nomes: uma se chamaria Nina Rosa, a outra Rosa Maria. A mãe, confidente de tudo, aprovava a escolha. As três conversavam longamente sobre o assunto. As meninas sabiam que as bonecas eram muito caras, fora do alcance do ganho do pai, mas continuavam a sonhar... A mãe, como as demais pessoas da vila, sorria doce e misteriosamente.
    Na véspera do Natal, as meninas foram olhar mais uma vez a vitrine. Estava vazia! Lágrimas silenciosas rolaram pelos rostinhos: sabiam que as bonecas já haviam sido vendidas. Voltaram apressadas, para contar à mãe a desgraça. Esta as abraçou e consolou como pôde. Quem sabe não teriam uma surpresa? Mas elas sabiam que o papai não podia comprá-las, que outras meninas ficariam com as “suas” bonecas.
     Assim, a beleza da preparação da festa de Natal estava estragada para o “parzinho de vasos”. A visão de Nina Rosa e Rosa Maria não saía de suas cabecinhas.
Ao entardecer da véspera de Natal, todos muito bonitos em suas roupas novas, sentaram-se na sala para receber os presentes. Eram nove irmãos e cada um ganharia somente um presente, entregue conforme a idade; a cada presente, a mãe tinha um sorriso para os dois pares de olhos negros, fixos nela com ansiedade.
    Quando, por fim, chegou a vez das gêmeas, a mãe saiu do quarto onde estavam trancados os presentes, com duas grandes caixas, uma embrulhada em papel verde e a outra em papel vermelho. Paralisadas pela emoção, as meninas olhavam para as caixas que lhe eram estendidas, sem poder mexer-se. Olhos arregalados, os corações batendo como as asas de um beija-flor, as menininhas não podiam acreditar no que estavam vendo. Os pais e os irmãos mais velhos olhavam, emocionados, a felicidade das crianças. O pai as abraçou ternamente e as empurrou de mansinho para a mãe...
     Enquanto aguardavam a ceia, as meninas, já agora segurando nos braços as bonecas, refizeram, pela última vez, o caminho.
    Os vizinhos viram passar as figurinhas, que lhes sorriam enlevadas; percebiam, porém, que o sorriso era puro encantamento, e que as meninas sorriam, na verdade, para algo invisível...
     As pessoas fechavam suavemente as janelas, após a passagem das crianças, e pensavam, com os corações leves, que o mundo, afinal, naquela noite, estava muito mais bonito...


Natal de 1991.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Fazendas de criação de gado no Rio Grande do Sul e Santa Catarina

               Para retratar um pouco da vida nas primitivas fazendas serranas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, escolhemos alguns trechos do livro de Licurgo Costa, “O continente das Lagens – sua história e influência no sertão da terra firme”, volume 4, publicado em 1982, pela Fundação Catarinense de Cultura. Nesses excertos, pode-se observar um pouco dos costumes, tradições e dificuldades do cotidiano das fazendas de criação de gado. Pode-se, igualmente, compreender um pouco como eram as divisões internas das propriedades e em invernadas, o que facilitava o manejo do gado.
            Iniciamos, portanto, com alguns fragmentos sobre os aspectos da vida nas fazendas primitivas.


Aspectos da vida nas fazendas primitivas
(Licurgo Costa)

(pp. 1470-1473)
            “Sobre o que era o que poderíamos chamar de “vida cotidiana” do pecuarista ou fazendeiro nas primeiras décadas da Vila de Lages, quase nada sabemos. Na documentação até agora pesquisada há escassa menção à lida numa fazenda e como transcorria o dia-a-dia de um fazendeiro. Poder-se-á ter uma ideia aproximada, através do que conta Saint Hilaire[1] sobre a visita que fez à Província do Rio Grande do Sul e também a Santa Catarina, e pela correspondência oficial na época.
            Assim, por analogia, poderemos imaginar como eram as fazendas lageanas da época. Vejamos alguns aspectos da situação:
 – No começo não havia divisão, por cerca ou taipa[2] entre os campos dos diversos proprietários. As divisas eram estabelecidas nas escrituras e, a não ser pequenos potreiros ou piquetes em torno da sede, não havia mais cercas que as naturais, isto é, um grande rio ou banhado, sangas, e raramente valões abertos pelos proprietários, em geral com doze palmos de fundo por dez de largura. Nos lugares sem rios, grotas ou banhados, as divisões eram indicadas por marcas ou palanques de cem em cem metros ou mais, conforme as conveniências. Na época viajavam-se por toda região sem ser preciso abrir sequer uma porteira.
- O sistema de marcação e sinalização chegou ao Brasil com a primeira ponta de gado desembarcado em São Vicente (1534). As marcas de ferro eram em geral enormes, algumas de cerca de 25 centímetros de altura, para serem bem visíveis à distância. Aplicadas na picanha, ou melhor, em várias posições no quarto traseiro; pelo tamanho e pela rusticidade que as caracterizavam, prejudicavam muito o couro.
Mas à época da fundação parece que nos campos de Lages os fazendeiros não usavam marcas de fogo. A marcação era feita com sinais nas orelhas ou nos chifres.
[...]
Resolução da Câmara Municipal (1777):
- Os moradores do continente são obrigados, cada um d’elles, para rodeio a seus visinhos, juntando todos os seus animaes e gados, quatro vezes ao anno, para assim cada um costear o que é seu.
- O gado bovino e eqüino existente na região [nos primeiros tempos] não tinha dono, pertencia a quem conseguisse caçá-lo, o que não era fácil, pois exigia muita gente e muitos cavalos domados. No sul do Brasil somente as reduções jesuíticas conseguiam empreender grande caçadas de gado, porque mobilizavam centenas de índios e estabeleciam a média de cinco cavalos para cada um, construindo encerras com capacidade para milhares de cabeças, que eram repontadas para elas, geralmente um lote de vacas – mansas levadas a propósito.
- Uma das dificuldades existentes em Lages [nesses primitivos tempos] era a obtenção do sal [necessário ao “costeio”], que vinha de Laguna, em cargueiro de duas bruacas[3], comportando cada uma até sessenta quilogramas. Daí a preocupação de Correa Pinto com a estrada para Laguna e Tubarão. Como fazendeiro ele sentia a gravidade do problema.
- No começo, normalmente, só uma pequena parte do gado de cada fazendeiro era “costeada”[4], talvez um terço. O restante vivia alçado e quando precisavam fazer grande matança para uma venda de couro, que era o que verdadeiramente tinha valor comercial, abatiam as reses freqüentemente a tiro, como se fossem caça.
Talvez por aí se explica que no tombamento de gado dos fazendeiros lageanos conste sempre muito poucas cabeças: seria computado apenas o gado manso.
- O sal era colocado aos punhados, no chão, nos lugares escolhidos para rodeios. Somente no final do século passado [séc. XIX], começaram a ser usados os cochos. Eram feitos em pinheiro de bitola média, 30 centímetros, mais ou menos, escavados, em geral a enxó, e bem longos, digamos entre três e cinco metros, e colocados sobre forquilhas elevadas do chão uns setenta centímetros. O sistema de colocar o sal no chão perdurou até bem entrado o século em curso [séc. XX], mas nos consta que ainda há fazendeiros, em Lages, que continuam a usá-lo.
- O sal que chegava até Lages era importado de Portugal, que pela insuficiência de suas salinas também o obtinha das salinas espanholas. Era muito grosso, e precisava ser moído em pilão para ser levado ao campo. Aliás, posto em montículos na terra, não podia ser muito moído.
- As lidas de campo se limitavam à marcação, em abril ou maio, à queima em junho ou julho e à castração, entre setembro e outubro. No começo, cada fazendeiro se ajeitava com o pessoal de que dispunha, mas com o tempo, o desenvolvimento das fazendas exigia mais gente, e começou então o sistema de acorrerem para as grandes propriedades os vizinhos com seus camaradas disponíveis, que iam dar um “ajutório”. Depois o ajudado retribuía e assim trocando “ajutórios” todos resolviam seus problemas. Era como uma festa com churrasco, mateadas, troca de novidades, etc. este hábito perdurou até por volta dos anos trinta deste século [1930]. A legislação trabalhista talvez tenha sido um pouco responsável pelo desaparecimento de um costume que unia e criava amizades entre os homens do campo.
- Um pormenor a anotar sobre a vida dos primeiros fazendeiros lageanos é referente à moradia. Não eram todos os que tinham casa na Vila. Em geral viviam o ano inteiro na fazenda, mesmo no inverno, quando nada havia a fazer. E só apareciam se precisassem levar a esposa para dar à luz, ou quando deviam tomar providências indispensáveis junto ao Poder Público. Isto, naturalmente, prejudicava o desenvolvimento da Vila, a tal ponto que o Fundador, já em 1776, tratou do problema com o Governador da Capitania, Martim Lopes Lobo de Saldanha, e dele recebeu uma ordem draconiana no sentido de determinar “por edital e públicas notificações particulares a todos os moradores deste continente” para que dentro dos meses a que cada um fosse possível, se comprometessem a construir suas casas arruadas na Vila, com as combinações que parecessem justas ao Capitão-Mor, “sendo infalivelmente uma delas”, rezava ameaçadoramente a dita ordem, “remetermos V. mce, presos em ferros com escolta competente, paga às custas dos mesmos presos, donde não mandarei soltar nem deixar voltar para esse continente, enquanto ligitimamente me não mostrarem terem mandado fazer as ditas casas e estarem com efeito feitas”.
Parece que nem com esta ordem tão violenta obteve Correa Pinto que todos os fazendeiros construíssem suas casas na Vila. E muitos dos que as construíram continuaram a viver nas fazendas e conservavam suas casas fechadas na Vila.
[...]
- A utilização dos cachorros para as lidas do campo foi costume generalizado, desde a fundação. Aliás, desde quando os tropeiros começaram a palmilhar por estas paragens. Para recolher uma ponta de gado, para rodeiro, para marcar, etc., os campeiros sempre se faziam acompanhados de uma numerosa matilha que talvez mais atrapalhasse que ajudasse. Os cães eram da velha raça portuguesa, de cabeça grande, medianos na altura e obedientes, diz a tradição.
- Não conseguimos apurar quando começou a ser usado o arame farpado para dividir os campos. Parece-nos ter sido para o fim do século passado [séc. XIX], e precedido do arame liso. Então, sucedendo ao taipeiro, começou a aparecer o fazedor de cerca – o alambrador, como era designado no Rio Grande do Sul. Atualmente [1982] como as divisas são sempre feitas com arame, é o alambrador um profissional, bastante procurado. Os taipeiros já são raros. E caros...

Fatores de limitação da lotação

(pp. 1479-1481)
            Havia numerosos fatores para dificultar o desenvolvimento da pecuária e, entre muitos outros, um que não chegaríamos a imaginar atualmente: os obstáculos para o fechamento das propriedades. O arame, a princípio liso e depois farpado, começou a ser empregado nos países mais adiantados (Argentina, Uruguai), – aqui na América – por estancieiros ingleses, por volta de 1850-60. Nesta época, em Lages, as divisas entre fazendas eram, na medida do possível, as naturais: rios, banhados, grotas e onde não havia tais obstáculos, taipas, valões e uma ou outra cerca de achas de pinheiro. Taipas e valões sempre foram divisas caras. Ocorria então que nas épocas de secas, com rios dando vau, banhados sem água, etc., o gado de uma propriedade invadia a dos vizinhos. Parece-nos que esta teria sido uma das razões da Lei nº 520, de 2 de maio de 1862, cujo artigo 32 dizia o seguinte:
“Nenhum fazendeiro d’ora em diante poderá crear maior porção de gado do que aquela que se pode manter em seu campo; e justificando legalmente o contrário, por qualquer fazendeiro prejudicado, será o contraventor multado em 30$000 e nas reincidências, em dobro”.
            Mantida a lotação dentro do normal, umas 30 cabeças por milhão, era mais fácil conter o gado no campo onde estava aquerenciado. Com a lotação além do normal, quando escasseava o pasto, ocorria a invasão do terreno alheio.
            O uso do arame começou, em Lages, numa escala mínima no fim do século [XIX]. A taipa era então mais barata que o arame.


Taipa da Fazenda Pelotas, em Bom Jardim da Serra (SC).


Cancela na Fazenda Pelotas, em Bom Jardim da Serra (SC).


Taipa da Fazenda dos Ausentes, em São José dos Ausentes (RS).


Fazenda Conceição, Bom Jesus (RS).


Cemitério da Fazenda do Socorro, São Joaquim (SC).



Fazenda Rancho da Costa Brava, de Hélio e Rosa Velho.

Abigeato (Roubo de gado)

(pp. 1480-482)
            Um problema sério com que a pecuária lageana lutou por largo tempo, sem nunca ter conseguido resolvê-lo satisfatoriamente, foi o roubo de gado. As atas da Câmara de Vereadores registram pedidos de providências desde 1850, mais ou menos. O governo tomava medidas policiais, as queixas diminuíam por algum tempo; depois voltavam as denúncias, as autoridades entravam de novo em ação, os ladrões se recolhiam, seguia-se um período de relativa paz. E assim continuou por muitos anos, entre fases de atividade e de recesso dos gatunos.
            Mas por volta de 1875, são encaminhados à Câmara de Vereadores vários e enérgicos pedidos de providências, pois os ladrões chegavam ao ponto de levarem as reses furtadas para o matadouro público, onde as carneavam para ali mesmo venderem a carne. Já não bastavam as medidas tomadas pelo Poder Público local, era preciso que a Câmara se dirigisse à Assembleia Provincial sugerindo providências drásticas a serem contidas numa Postura mais enérgica do que as em vigor. E, na sessão de 11 de janeiro de 1876, foi encaminhado um ofício à Assembleia sugerindo a aprovação de um novo artigo das posturas, obrigando o condutor de reses para corte, destinadas ao consumo público, a dar a um fiscal seu nome e o número de reses que conduzia, de quem foram compradas, para onde se destinavam, tudo sob pena de serem multados em ...2$000 pelo não-cumprimento destas disposições legais. Parece que a Assembleia aprovou o artigo sugerido e ele criou embaraço aos traficantes de gado alheio, tanto que, por muito tempo, não apareceram reclamações de possíveis lesados.
            E a câmara teve tempo de legislar sobre os “pombeiros” em negócio de gado, classificando como tais, todos os que compravam para vender em pé, cortados ou retalhados, qualquer que fosse o número de cabeças. Estes, desde que profissionais, ficavam sujeitos a um imposto de 30$000 por ano. Também proibiram, os vereadores, que fossem abatidas reses cansadas.
            Mas, como os roubos voltassem e fossem cometidos em todo o Município, o que indicava que a rede dos gatunos era extensíssima, a Assembleia Provincial aprovou, em 7 de julho de 1883, uma enérgica lei passando para o Tribunal do Júri o julgamento dos crimes de abigeato.
            Comentando a Resolução, o “Lageano” de 1º de setembro do referido ano diz:

A Lei de 7 de julho de 1883

“Pela lei de 7 de julho deste anno e que vem publicada no Diario Officioal de 17 do mesmo mez passou para o jury a competência do julgamento dos crimes de abigeato, isto é, os furtos de gado vacum, muar e cavalar, independentemente de circunstancia e logar.
            Todos esses crimes são públicos e compete ao promotor publico denunciar; assim como o de cortes de madeiras, cujo julgamento é também pelo jury.
            Forão, portanto, revogadas, nesta parte, as Lei ns. 1090 de 1º de setembro de 1860 e 362 de 2 de julho de 1850 e seu regulamento de 9 de outubro do mesmo anno.
            Assim, pois, todoso os crime de furto de gado vacum, cavalar ou muar cometidos em qualquer logar que seja: na estrada, no potreiro, nos pastos, nos campos, cabe acção publica e pertence ao promotor publico denunciar para ser julgado pelo Jury.
            Todos os processos que ainda não forão julgados definitivamente, isto é, dos quaes pode haver recurso, devem ser julgados pelo jury, e por isso, com maior força de razão, aquelles sobre os quaes não forão ainda proferidas sentenças.
            Entendemos ser de vantagem para os criadores e fazendeiros as disposições da nova lei: fica assim ao juízo dos Srs. Jurados julgarem da conveniencia ou desconveniencia de uma condemnação em taes casos. Está por tanto, nas mãos dos proprios interessados a garantia dessa sua propriedade, e os accusados mais tranqüilos apelando para a consciencia de seus concidadãos, que, como juízes de facto, julgão não só pelo visto e provado, mas também pelo que sabem, attendendo a muitas circunstancias que ao Juiz de Direito não é dado attender.
            Sendo as comarcas da serra acima todas entregues à indústria pastoril, possuindo extensas mattas de madeiras, o Lageano desempenha a missão do seu programma, dando a notícia da nova lei, que tão particularmente diz e tão de perto com os interesses mais vitaes dos habitantes de serra acima”.

            Verificou-se então um período de alguns anos de recesso dos ladrões, pois somente na sessão de 11 de dezembro de 1890, o Vereador João José Theodoro da Costa propôs à Câmara urgente representação ao Governo do Estado, acerca das péssimas condições em que se encontrava a Indústria Pastoril do Município, em consequência do furto praticado em larga escala, nas fazenda de criação, decorrentes das novas disposições do recente Código Penal, suavíssimas em relação ao abigeato. A sugestão foi encaminhada Governo Estadual e mereceu providências, sobretudo a de policiamento, que amenizaram a situação das vítimas. Mas, a verdade é que o roubo de gado nunca cessou completamente no Município e, de quando em vez, como nos dias atuais[5], recrudescia e atingia consideráveis proporções, obrigando os lesados a mobilizarem-se para combatê-lo, colaborando com a Polícia. Em certo período, de 1900 a 1920, conquanto continuassem os roubos esporádicos de bovinos, aumentou muito o de eqüinos. E rara era a semana em que a Delegacia de Polícia não recebia várias queixas de lesados. Roubavam-se tantos cavalos então, como carros atualmente... mas cavalos eram mais difíceis de reaver. Nos últimos anos, sobretudo a partir de 1970, recrudesceu o roubo de gado e a Polícia, malgrado o louvável esforço de sua chefia, não tem tido os elementos necessários para debelar completamente o mal.


As “marcas” (Marcas de fogo)

(pp. 1505-1511)
            Em 4 de fevereiro de 1890, foram aprovados pelo Conselho de Intendência de Lages, os artigos 1º, 2º e 3º das Posturas Municipais, que criaram a obrigação do registro das “marcas” destinadas a assinalar a propriedade do gado.
            Dias depois, com abertura datada de 8 do mesmo mês, já estava à disposição dos interessados o primeiro livro de “Registro de Marcas”, cujo termo foi assinado pelo Presidente do Conselho, Sr. João de Castro Nunes.
            Havia já dispositivo legal que obrigava os fazendeiros a marcarem seus rebanhos, o que aliás, mesmo sem tal obrigação, eles o faziam, na Colônia, desde remotos tempos, quando os campos não eram divididos e o gado se misturava com os da vizinhança. Em Viamão os primeiros registros de marcas datam de 1767, e as Posturas municipais já os tornavam obrigatórios. Então eram usadas marcas muito grandes, de até 25 centímetros de altura, para serem melhor distinguidas à distância.
            Em obediência às novas posturas, no dia 10 de fevereiro foi lavrado o primeiro registro, com a seguinte anotação:
“Aos dez dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e noventa, nesta Secretaria da Intendência Municipal de Lages, compareceu o cidadão IGNACIO ALVES DE CHAVES e por ele me foi apresentada a marca seguinte
 de que usa para distinguir os animais de sua propriedade. E para constar fiz esse registro, em que assina o apresentante comigo João da Cruz e Silva, Secretário que o subscrevi.”
           
No dia 20 de novembro do mesmo ano, foi completado o primeiro livro, com o registro da 552ª marca, depositada por João Florêncio de Souza Sobrinho.
             No segundo livro, com seu termo aberto em 28 de novembro de 1890, foram registradas mais 387, perfazendo nos dois livros o total de 939 marcas. O último registro tem a data de 1º de novembro de 1895, e corresponde à marca de Sr. Francisco Alves Theodoro.
            É curioso observar que nas centenas de registros o número maior de marcas corresponde a variações em torno do algarismo 5, e são tão semelhantes que, certamente, ocasionaram muita confusão entre os seus proprietários. Algumas outras são de tal maneira floreadas e com tanto “fogo”, conforme se dizia e, aliás, ainda se diz atualmente no “metier”, que deveriam causar grande dano aos animais.
            Em páginas juntas, reproduzimos os desenhos de algumas marcas antigas, de feitio normal e de outras que nos pareceram originais, ou pelo menos, curiosas. Também reproduzimos as pertencentes a alguns fazendeiros de renome naquele período do primeiro registro. Destes, faltam nos livros os registros de vários que alcançaram notoriedade como fazendeiros e/ou como líderes políticos.


Exemplares das marcas registradas em 1890.

Exemplares das marcas registradas em 1890.

Exemplares das marcas registradas em 1890.

  
Regulando o uso da marca de fogo

(pp.1511)
            Por muitos anos não houve alteração na regulamentação do uso da marca de fogo.
            Mas, pelo Decreto-Lei de 28 de março de 1939, o Presidente Getúlio Vargas estipulou novas normas para a sua utilização.
            Eis a íntegra do Decreto-Lei:
“O Presidente da República, usando das atribuições que lhe confere o art. 180 da Constituição, e,
Considerando que o couro vacum constitui artigo de grande valor econômico para os mercados internos e externos;
Considerando que a indústria nacional de curtumes, não só pelo progresso já realizado, como pelo vultoso capital nella investido, exige matéria-prima de boa qualidade e isenta de defeitos;
Considerando que do mau emprego da marca de fogo advêm prejuízos para a economia nacional, resultantes da depreciação que soffrem os couros e,
     Considerando, finalmente, que se faz indispensável a regulamentação do uso da marca de fogo da modo a preservar os couros de defeitos que os desvalorizam nos mercados internos e externo,
DECRETA:
     Art. 1º O gado bovino só poderá ser marcado a ferro candente, nas regiões da cara, do pescoço e abaixo de uma linha imaginária ligando as articulações femuro-rótulo-tibial e número-rádio-cubital, de sorte a preservar de defeitos a parte do couro denominada "grupon".
     Art. 2º Fica prohibido o uso da marca, cujo tamanho não possa caber em um circulo de onze centímetros (O,m,11) de diâmetro.
     Art. 3º Fica igualmente prohibido o emprego da marca de fogo comumente usada nos matadouros, para identificação de animais e couros.
     Art. 4º Aos proprietários de gado bovino ou de estabelecimentos industriais será aplicada a multa de 20$000 (vinte mil réis), por animal marcado em desacordo com o que preservem os arts. 1º e 2º, elevada ao dobro, em caso de reincidência.
     Art. 5º Cabe ao Departamento Nacional da Produção Animal, do Ministério da Agricultura, zelar por intermédio de seus órgãos e funcionários, pelo fiel cumprimento do presente decreto-lei.
     Parágrafo único. Essa fiscalização será, exercida:
a)    de preferência nos matadouros sujeitos à inspeção sanitária federal;
b)    nos matadouros que abatam para o consumo local e nos próprios estabelecimentos pastoris, sempre que for julgado conveniente.
     Art. 6º O presente decreto-lei entrará em vigor, em todo o território nacional, dentro do prazo de seis (6) mezes, a contar da data de sua publicação.
     Art. 7º Revogam-se as disposições em contrário.
Rio de Janeiro, 29 de março de 1939, 118º da Independência e 51º da República.
            O Sindicato Rural mantém um arquivo das marcas atuais, porém bastante incompleto, talvez devido à falta de obrigatoriedade legal de depositá-las [registrá-las no órgão competente].
            Quanto ao Decreto-Lei acima transcrito poder-se-á afirmar que seus termos são ignorados pela maioria dos fazendeiros e que não existe fiscalização sobre a sua observância.

Impostos

(p.1511)
            Para que se possa fazer uma ideia de como eram os tributos que pesavam sobre os pecuaristas de outros tempos, mencionamos aqui a criação do Imposto de Indústria Pastoril, ou simplesmente “Imposto Pastoril”, como era denominado então. Foi ele criado pela Lei Nº 258, de setembro de 1910, e recaía
“sobre todos os criadores de gado de qualquer espécie, sendo considerados: de 1ª classe, sujeitos ao pagamento de 80$000 por ano aqueles cuja produção seja superior a 300 crias; de 2ª classe, os de produção entre 200 e 300 crias, que pagarão 60$000; e 3ª classe os de produção entre 100 e 200 crias, que pagarão 40$000, de 4ª classe, os que tenham produção entre 50 e 100 crias, que pagarão 20$000 e os de 5ª classe, aqueles cuja produção seja de 15 a 50 crias, que pagarão 5$000 anualmente. Os que tenham produção inferior a 15 terneiros nada pagarão.
Para efeito de pagamento do imposto ficam equiparados à 1ª classe os que invernam mais de 500 cabeças por ano; aos de 2ª classe, os que invernam entre 300 e 500 cabeças; aos de 3ª, os que invernam entre 300 e 400; 4ª, entre 150 e 300, 5ª de 50 a 150”.
            Estes impostos eram cobrados diretamente pelo Município. Com a reforma geral do Sistema Tributário da União, a criação do Instituto Nacional da Reforma Agrária, Imposto de Circulação de Mercadoria (ICM) e Funrural, os tributos passaram a ser recebidos pelos Governos Federak e Estadual obedecendo atualmente, a um critério que visa à área da propriedade, suas matas, lotações, produção agropecuária, vendas, compras, etc. Parte do tributo é devolvido ao Município.


Referências

COSTA, Licurgo. O continente das Lagens – sua história e influência no sertão da terra firme, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, v. 4, 1982.

SANTOS, Fabiano Teixeira. A Casa do Planalto Catarinense: Arquitetura rural e urbana nos campos de Lages, séculos XVIII e XIX. Lages (SC): Super Nova, 2015. 220p.



Notas:


[1] August de Saint’Hilaire era um botânico francês que, em suas viagens, percorreu os seguintes estados: Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Viajou a cavalo, ou no lombo de burro, pelos sertões, geralmente por caminhos empoeirados e, na maioria das vezes, por picadas abertas a facão por seus acompanhantes, ainda que escravos. Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/biografia/august-de-saint-hilaire.htm.
[2] Taipas: Muros erguidos manualmente em alvenaria de pedra de junta seca, técnica conhecida na região como “taipa de pedra” ou simplesmente “taipa”, guarnecendo as estradas – corredores – e facilitando a condução das tropas de gado (SANTOS, 2015, p. 132).
[3] Cargueiro: mula adestrada para ser encilhada e carregada com duas “bruacas”, caixas duras de couro, que suportavam até 30 kg em cada uma delas.
[4] O gado chamado “costeado” era o gado manso. Já o “alçado”, era o que não era manso.
[5] O livro de Licrugo Costa, “O continente das Lagens – sua história e influência no sertão da terra firme”, volume 4, foi publicado em 1982.