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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Maíra

Na postagem de hoje, apresentamos um conto escrito por Ismênia Ribeiro Schneider, baseado em uma história real da sua família.

Maíra
(Ismênia Ribeiro Schneider)

Sentado na varanda, em frente à casa, Marcos ritmava os pensamentos com a cadência da cadeira de balanço, recordando aquela primeira conversa:
– Essa é a história mais estranha que já ouvi; o fato de ela ser sua filha me intrigava, confesso.
– Minha mulher e eu não costumamos contá-la aos estranhos que muitas vezes se hospedam aqui em São João de Pelotas.
– Por que, pode me dizer?
– Ela é como se fosse nossa filha de verdade e não achamos que precisamos dar explicações sobre o fato de ser índia. Não é da conta de ninguém.
– E por que abriram uma exceção para mim?
– O senhor vai ficar por aqui três meses. Há muita lenda em torno da menina e preferimos que conheça a versão correta.
– Eu lhe agradeço a confiança!
– Muito bem, rapaz! Já que vai morar conosco uns tempos, é bom que se acostume com o jeito diferente dela. Minha mulher ensinou-lhe tudo o que uma moça da nossa condição deve saber, mas não conseguimos dominar o seu temperamento índio e desistimos. Ela é feliz e isso é o que importa. Veio preencher a enorme falta de filhos que tínhamos. Vive mais livremente que qualquer moça daqui e não se sujeita aos padrões normais...
Chegara há quinze dias. Era mascate e viera de São Paulo entregar às fazendas da região as encomendas do Natal. Substituía o pai, cansado de viajar. Este não lhe contara, porém, sobre Maíra, a filha índia do Coronel Licurgo Machado. Ela o intrigara desde o momento em que a vira pela primeira vez, cavalgando, à maneira masculina, um garanhão, sem o costumeiro selim usado pelas mulheres. Era tranqüila e calada, mas tão intensamente viva que as outras pessoas pareciam sombras a seu lado. Achara-a bela, com os olhos de sua raça, muito grandes e negros; negros, longos e espessos os cabelos. Raramente sorria e pouco falava; quando o fazia, porém, a voz macia, pausada e feminina fazia bem, acostumado que estava com as vozes estridentes de suas conterrâneas. Não era muito alta, mas esguia, sem nenhuma gordura. Os malares largos era o que menos lhe agradara, mas com o passar dos dias foi vendo que aqueles olhos só ficariam bem naquela estrutura óssea.
Havia uma ameaça velada nas palavras do coronel. O pai o alertara severamente sobre o perigo de se envolver com as mulheres das fazendas, quer as senhoras, quer as mulheres e filhas dos peões; mesmo com as escravas não era seguro meter-se. Ali a honra era lavada com sangue e a justiça feita pelos próprios coronéis.
Então fora assim que ela se tornara filha da casa? A mãe que surgira das bandas do Rio Grande e viera dar na fazenda, do lado catarinense do rio Pelotas. Não contara de quem ou de que fugia. Simplesmente aparecera, só e grávida. Afeiçoara-se ao casal e, ao morrer, por ocasião do nascimento da filha, entregara-a a eles. Registrada legalmente, chamaram-na Maíra – a única – em língua indígena.
Na Europa, e mesmo nas grandes cidades brasileiras do litoral, as mulheres já gozavam de alguma liberdade, mas ali, neste ano de 1850, ainda vigoravam rígidas leis... mulher não devia aprender a escrever, nem andar sozinha, nem escolher o próprio marido, etc. Interessante terem-na educado assim. Montava como um rapaz, acompanhava o pai na supervisão da fazenda, tivera professor por quatro anos, andava sozinha pelas redondezas... Devia ser motivo de escândalo e curiosidade na pequena vila de São Joaquim, onde passavam o Natal. O poder do coronel fechava as bocas, imaginava...
Os dias continuavam a correr tranquilos. Afora às vezes em que negociava nas fazendas vizinhas, participava de todas as lidas do campo: vacinações e o sal, dado ao gado nos rodeios. Nas invernadas mais distantes ficava o gado chucro, atendido por todo pessoal da fazenda, ajudado, às vezes, pela vizinhança. Esse trabalho era o mais perigoso; só se podia fazê-lo a cavalo, quando os melhores laçadores tinham ocasião de mostrar suas habilidades. Assistira um touro matar um dos cavalos e, por pouco, não fazer o mesmo com o peão. Nessas ocasiões era morta uma rês gorda, e o moquém armado no próprio local do rodeio. Aos sábados, os peões iam ao “poço fundo”, no Pelotas, nadar e tomar o “banho geral”. Todas as noites, no galpão, fazia-se “fogo de chão”, assava-se uma manta de charque ou era feito um arroz carreteiro; assavam milho verde no espeto e o café de tropeiro era servido, quentíssimo, em canecos esmaltados, a “pinga” correndo a roda. As conversas se prolongavam e muitos “causos” eram contados, de assombração, de valentias com onças, cobras e gado bravo... O coronel aparecia e participava das rodadas, fumando o seu “paieiro”. A casa grande também possuía a sua “cozinha de chão”, onde a família se reunia com as escravas.
A admiração de Marcos crescia, à medida que os dias passavam. A perfeita organização e autonomia da propriedade, a atividade incessante, a calma e tranquilidade do lugar o encantavam. Perguntava-se amiúde se não preferiria pertencer a essa gente altiva, dura, mas hospitaleira. Mas sendo o que era, um paulista até a raiz dos cabelos, nada o fazia esquecer o burburinho, o movimento, a vida noturno de sua cidade... Nada? Já não estava tão certo. Tinha que confessar que uma avassaladora paixão o empurrava para a jovem índia.
Não poderia precisar quando as coisas começaram a acontecer. Sentia a atenção concentrada e intensa dela. Havia como que um fluido entre eles. Procurava disfarçar. Dona Cidinha não era nenhuma tola, menos ainda o coronel. Será que eles não sentiam a tensão? Precisava fugir enquanto era tempo! Mas o próprio perigo o atraía. Observava-lhe os movimentos envolventes. Era como uma aranha tecendo, inexoravelmente, a teia: plácida, suave e ternamente. Ela mesma planejava os encontros; Marcos não compreendia como descobria todos os passos que dava, pois estava sempre invisível. Surgia de repente, com tal intensidade de presença que o deixava estonteado. Quando, afinal, tudo aconteceu, ele nada mais fez do que se deixar levar. Enquanto não estava com ela, sofria cada minuto da ausência, e quando estavam juntos, assustava-o a violência daquele amor.
Estava metido até o pescoço numa enrascada; por mais que a moça o tivesse preso, não perdia a sensação da urgência da fuga. E começou a planejá-la. Já estava completando o terceiro mês na região, fizera todas as entregas e aproveitaria a visita à última fazenda para desaparecer. Nada o salvaria, se descoberto. Para não levantar suspeitas deixaria parte de suas coisas. Isso lhe daria uns dois dias de vantagem. Sentia-se um miserável, um traidor! Mas não tinha coragem de fazer a troca... De noite terminou os preparativos e durante o “fogo de chão”, avisou que ia à fazenda do coronel Amâncio. Com Maíra fez a despedida costumeira de dois a três dias de ausência. Escuro ainda, partiu. Ao dobrar o morro, de onde se avistava toda a sede, a casa grande, a senzala, os galpões, as mangueiras redondas de taipa, voltou-se para um último adeus. Ao chegar ao mato, perto do rio, no vau que dava passagem, ouviu o barulho de folhas e galhos, pisoteados por um cavalo. Os cabelos da nuca arrepiaram-se, o coração disparou loucamente. Pensou rápido. Parecia haver um único homem, o coronel, naturalmente, mas deveria haver muitos, atocaiados no mato que precisava passar. Não poderia voltar. Engatilhou o revólver no momento exato em que um cavalo saltou, empinando, do barranco. Teve apenas tempo de reconhecer o cavaleiro e desviar o tiro que foi perder-se no meio das árvores. À sua frente, com um 38 apontado, Maíra encarava-o, friamente. Quando e como descobrira? Não demonstrara, em nenhum momento, saber da sua intenção. Aquela terrível percepção índia... não a levara em conta. Não adiantava falar, não havia justificativa para a vilania... restava morrer. Guardou o revolver e esperou.
Foi então que ouviu a frase mais longa desses três meses:
– Vai voltar comigo e casar, porque o meu filho não vai ficar sem pai! Sabe agora que nunca conseguirá escapar, pois não haverá uma segunda chance para o senhor.
Envergonhado, humilhado, surpreso, Marcos virou o cavalo, finalmente livre do peso da decisão...



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Taipas, casarões e costumes serranos


     O tempo passa célere e traz modernidades antes impensadas, importantes para a construção de nosso futuro. No entanto, as tradições de cada momento histórico, base de nossa identidade, perdem-se na poeira do tempo. Daí a necessidade do resgate de certos hábitos e costumes de um certo momento, pois através dele, conhecemos quem foram aqueles sujeitos, como viveram, quais eram seus valores e o que nos deixaram de herança sociocultural. Com isso, vamos ganhando consciência de onde viemos e de quem descendemos e, assim, pisamos firmes rumo ao nosso projeto de vida. 
         Apesar de não ter decorrido muito tempo na história, pouco se sabe sobre os costumes, tradições e o cotidiano das fazendas serranas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Como era o modo de vida e a cozinha das casas de fazenda? Como eram construídas as casas e as divisas? De que maneira era feito o controle e a criação de gado?
Nas últimas matérias, buscamos resgatar um pouco desses aspectos que acabaram se perdendo no tempo, de modo que, atualmente, as pessoas possuem pouco conhecimento da vida nas fazendas primitivas.
Nesta postagem, continuaremos esse resgate, apresentando trechos de alguns livros que tratam dos costumes e das construções típicas das fazendas serranas. Iniciamos versando sobre o uso das taipas de pedra, com trechos do livro A Casa do Planalto Catarinense: Arquitetura rural e urbana nos campos de Lages, séculos XVIII e XIX, de Fabiano Teixeira dos Santos[i].

Vestígios materiais dos mais importantes que se relacionam aos antigos caminhos de tropas do Planalto Serrano Sul-rio-grandense e Catarinense são os muros erguidos manualmente em ‘alvenaria de pedra de junta seca’, técnica conhecida na região como “taipa de pedra” ou simplesmente “taipa”, guarnecendo as estradas – corredores – e facilitando a condução das tropas de gado.
Popularmente denominados de “corredores de taipas”, esses caminhos murados beiram a monumentalidade ao atingirem em alguns trechos dezenas de quilômetros lineares ininterruptos. Sua construção se deu à custa dos fazendeiros locais e tropeiros (CURTIS, 2008, p. 173), mediante o emprego da mão de obra escravizada, e em aproveitamento da rocha basáltica que aflora em abundância nos campos locais, na forma de pedras soltas (p.132).
[...]
Por meio do emprego destas estruturas, cuja origem deve remontar às construções murárias primitivas de Portugal (CASELLA, 2003), também marcantes na paisagem do arquipélago dos Açores (ARQUITECTURA POPULAR DOS AÇORES, 1999), de onde vieram muitos dos povoadores da região, se configuravam as estradas, se dividiam as propriedades e se delimitavam as invernadas de criação do gado. Tais estruturas eram também utilizadas na confecção das mangueiras destinadas ao manejo do rebanho e para cercar os cemitérios rurais, destinados ao sepultamento do fazendeiro e sua família (CASTRO, 2011).
Para os corredores, divisas de campo e mangueiras, empregam-se para a construção da taipa uma seção de desenho trapezoidal, cuja altura é proporcional às larguras da base, maior, de forma a garantir a sustentação da estrutura, e do topo, menor. A medida da largura do topo geralmente é metade ou cerca de um terço da medida da largura da base (p. 134).
Diz-se “empregam-se” porque a construção de divisas e currais em taipa de pedra é uma técnica ainda em uso na região serrana, apesar de há muitas décadas o uso do arame farpado ter sido generalizado, pela facilidade de instalação e baixo custo.
É comum inclusive o reforço do fechamento com muros de alvenaria mediante a instalação de moirões de madeira com arame farpado correndo sobre as taipas, o que acaba tendo custo mais baixo que a manutenção das pedras. Afinal, hoje não existem mais peões cativos que se sujeitem às ordens do fazendeiro com esse propósito. Por tratar-se de tarefa habilidosa, geralmente consistindo em conhecimento transmitido ao longo de gerações de “taipeiros”, seu preço, cobrado por metro linear, atinge valores elevados, o que torna o uso do arame mais vantajoso. 
Tendo sido a construção de divisas e corredores de taipa de pedra uma tarefa árdua e trabalhosa, cabendo quase que exclusivamente aos escravos das fazendas, até hoje é comum ser o taipeiro negro ou mulato, pois herdou dos antepassados cativos o rude talento de encaixar pedras (SANTOS, 2015, p. 135).


                        

Figura 1 – Taipas de pedra demarcando o Caminho das Tropas.


É interessante observar que, segundo Licurgo Costa (1982), o uso do arame farpado para dividir fazendas começou em Lages, em uma escala mínima, somente no fim do século XIX. Nessa época, a taipa era mais barata do que o arame farpado. Como mencionado por Fabiano Teixeira dos Santos (2015), as taipas eram utilizadas, também, para a construção de mangueiras de pedra, que eram destinadas ao manejo do rebanho ou utilizadas para cercar os cemitérios rurais.
Sebastião Fonseca de Oliveira apresenta como um adendo ao seu livro Aurorescer das Sesmarias Serranas (1996), um trecho em que descreve as mangueiras existentes em São José dos Ausentes, Rio Grande do Sul:

Mangueiras de Pedra
  No município de São José dos Ausentes, Campos de Cima da Serra, existem quatro mangueirões antigos construídos de pedras, em data ainda não determinada (entre 1740 e 1808). Em agosto de 1995, o engenheiro agrônomo Hederaldo Paim Cesa efetuou a medição destes mangueirões:
1 – O da Fazenda Santo Antonio dos Ausentes tem a área de 9.307,75m², e a construção em forma de trapézio, com as seguintes dimensões: base maior 1,60m e a base menor (cabeceira) 1,10m. e altura 1,60m.
2 – O da Fazenda São José do Silveira (Sede) tem área de 6.182,00m². Dimensões: base maior 1,60m, base menor 1,30m e altura 1,70m.”
3 – O de Boa Vista localizado na mesma Fazenda São José do Silveira tem área de 2.741,48m². Dimensões: base maior 0,80m, base menor 1,10m e altura 1,75m.
4 – O do Chapadão localizado na mesma Fazenda São José do Silveira tem área de 2.741,48m². Dimensões: base maior 1,45m, base menor 1.00m e altura 1,45m. e ainda de perímetro 164,00m.


Figura 2 - Mangueira Redonda de Taipas das Ruínas da Fazenda São João de Pelotas.



Figura 3 – Taipas cercando o Cemitério da Fazenda do Socorro, São Joaquim (SC).

            Também no livro Aurorescer das Sesmarias Serranas, Oliveira (1996, p. 322) descreve as construções de pedras - casas, mangueiras, potreiros e divisas:
“As benfeitorias construídas com material existente na região, como casa e galpões, com suas paredes de pedra regulando um metro de espessura, mais ou menos, eram cobertas de tabuinhas lascadas e as divisórias internas com tábuas lascadas e falquejadas com mais ou menos 3 metros de comprimento por 60 cm de largura. As tabuinhas das coberturas eram lascadas e cuteladas com 60 cm de comprimento e 20 cm de largura. Para fazê-las, escolhia-se um pinheiro adequado (lascador) e maduro que era cortado em mês sem a letra R, e na lua nova, cortando as toras e lascando da ponta para o pé. As pedras das construções de mangueiras, potreiros e divisas eram transportadas em uma “Zorra” que é uma forquilha de árvore com madeiras atravessadas. A Zorra com as pedras era arrastada por bois carreiros ou mulas.
  Os galpões de esteios, com armações de madeira de lei, cobertos com tabuinhas, e paredes de pedra ou tábuas lascadas, tinham o piso de torrão (saibro) bem batido” (OLIVEIRA, 1996, p. 322).


Figura 4 - Bois carreiros transportando pedras na Zorra. Fonte: OLIVEIRA, 1996, adendo.


            Sobre as casas e o modo de vida nas primitivas fazendas, Licurgo Costa (1982, pp. 1482-1483) escreveu um trecho intitulado “O lento progresso na vida do fazendeiro”, do qual extraímos alguns excertos:
            As casas dos fazendeiros lageanos “eram paupérrimas e às vezes quase miseráveis. Os fazendeiros mais fortes, já em meados do século passado [século XIX], construíam-nas de pedras, com paredões externos como se fossem de fortaleza, beirando um metro de largura. Na verdade, era assim porque em tempo de escravos e de perigo de assaltos, as casas deviam oferecer grande segurança. Um pormenor significativo na planta normal das casas, não apenas em Lages mas em todo o Brasil, que dá bem a ideia das preocupações que deviam tomar os fazendeiros, eram os quartos internos, para dormir, sem janelas para o exterior, principalmente para as crianças e moças. Mas, não apenas as casas eram modestíssimas, no sentido geral, como o seu mobiliário, também muito pobre [...].
            No início, digamos da fundação até o fim do século XIX, [havia] apenas a mesa grande da sala de jantar, com bancos e não com cadeiras, um armário altíssimo, fundíssimo e fechado, que era o “guarda-comida”, um pote de cerâmica ou moringa para a água fresca. Nos quartos, os catres da armação rústica, com estrado de tiras de couro, e as canastras para a roupa, fazendo às vezes de armário. Nessas canastras havia algum requinte no trabalho de forração externa, de couro escolhido, para os quartos das moças entre os mais vistosos, de gado oveiro vermelho, “pintado” ou todo vermelho, enquanto que para os quartos dos “velhos”, eram selecionados couros mais discretos. Em geral, nesses quartos, nem mesinha de cabeceira usavam, e os tapetes, quando os havia, eram de couro de terneiros, mas muito mal curtidos, duros, meio enrugados. Na sala de visita, além de duas mesinhas com jarras e um ou outro enfeite, havia, nas casas muito ricas, o grupo de sofá de palhinha e as cadeiras. No fim do século passado [XIX] muitas dessas mobílias de sala eram importadas da Europa, principalmente da Áustria, onde existia um artesanato famoso de vime. Ainda atualmente [1980] se encontram em Lages remanescente de tais mobílias, que poderiam servir para um “museu do fazendeiro”, a ser criado.
            As cozinhas, sempre de chão, não tinham fogão, mas trempes de ferro ou ganchos seguros nas travessas do teto, sempre sem forro, onde penduravam os panelões, a imensa chaleira de ferro grosso. Mas que comida, que prato riquíssimos saíam destas trempes! Era o feijão com toucinho e charque gordo, os guisados com batatas paraguaias e manjerona e cebolinha; o arroz fumegante e cheiroso, feito tudo na banha de porco derretida; era o lombinho frito de porco; o quibebe com um tipo de abóbora amarela saborosíssimo; o tutu de feijão com torresmo; o frango ensopado, enfim, uma cozinha simples, porém gostosíssima. E para os rodeiros, no fundo do campo, que exigiam o dia inteiro, com almoço fora de casa: o “revirado”, a paçoca de charque, com café tropeiro. No capítulo das sobremesas não havia, como no norte do Brasil, grandes variedades, mas sempre se tinha o bom arroz-doce com canela ou cravo-do-reino, a coalhada com rapadura, as marmeladas feitas em casa, de frutas crioulas, guardadas em “caixetas”. Para beber: o café de coador, o “camargo”, o chimarrão. Bebidas alcoólicas – vinho e cerveja – só apareceram em escala maior muito tarde, por volta da Proclamação da República. A cachaça, então, já era usada de longa data.
            Aliás, esta menção à cozinha do fazendeiro de passável situação econômica se refere, obviamente, a uma época já bem avançada do século XIX. Do tipo de vida do fazendeiro pioneiro, como em outros aspectos da História de Lages, o que se sabe é por inferência. Sobretudo, baseada na suposição de que era idêntica à do pioneiro do Continente do Rio Grande.
            E lá a base da alimentação era a carne. Quanto às moradias e o modo de viver dos primitivos gaúchos, há um depoimento de Saint Hilaire, que visitou a província por volta de 1820, realmente impressionante. Diz o famoso observador francês:
“Os mineiros gastam o dinheiro que possuem com ostentação; os rio-grandenses têm muitas vezes uma fortuna considerável, mas, quem vê suas residências e a forma por que vivem, julga-os indigentes”.
            A vida cotidiana do fazendeiro lageano não condizia, pois, com suas posses. Era modestíssima, como a do rio-grandense, e assim foi desde o começo até o início do atual século [XX] quando, talvez, pela influência das colônias alemãs e italianas, começa a melhorar. Na verdade, acostumados a um tipo de vida espartana, não sentiam necessidade de grande conforto ou de melhor mesa. Só muito lentamente emergem dessa situação. Mas o primeiro sintoma de progresso é a preocupação com a educação dos filhos, que [...] começou a tomar vulto quando os Padre Jesuítas e as Irmãs de Caridade abriram os colégios de São Leopoldo, que granjearam altíssimo conceito em todo o sul do Brasil. Os filhos que voltavam de lá, nas férias e depois de terminado o curso secundário, e que iam para as “Academias” de Direito, Medicina ou Engenharia, foi que provocaram, ajudados também por maiores facilitadores de comunicação, a modificar a vida das velhas famílias da elite econômica local (COSTA, 1982, pp. 1482-1483).

Figura 5 - Casa de pedra da Fazenda do Socorro, pertencente à Família Martins.



Figura 6 - Sede da Fazenda São João, Lages. Foto: Ary Barbosa de Jesus Filho, Revista História Catarina, ano XI, n. 78, 2016.




Figura 7 - Casa da Fazenda Limoeiro, Lages. Foto: Fabiano Teixeira dos Santos, Revista História Catarina, ano XI, n. 78, 2016.




Figura 8 - Casa da Fazenda Guarda-Mór, que existiu na Coxilha Rica, Lages. Pertenceu a Laureano José Ramos. Acervo Museu Thiago de Castro. Fonte: Revista História Catarina, ano XI, n. 78, 2016.




Figura 9 - Vista Geral da Sede da Fazenda do Socorro, em 1945.



Referências

COSTA, Licurgo. O continente das Lagens – sua história e influência no sertão da terra firme. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, v. 4, 1982.

OLIVEIRA, Sebastião Fonseca. Aurorescer das Sesmarias Serranas: História e Genealogia. Porto Alegre: Edições EST, 1996.




[i] SANTOS, Fabiano Teixeira. A Casa do Planalto Catarinense: Arquitetura rural e urbana nos campos de Lages, séculos XVIII e XIX. Lages (SC): Super Nova, 2015. 220p.: il.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Lida de campo em São João de Pelotas

         Dando continuidade a uma matéria anterior, que retrava um pouco da vida nas primitivas fazendas serranas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, escolhemos um texto de Enedino Batista Ribeiro: Lida de campo em São João de Pelotas. Esse excerto foi publicado em “A Tribuna”, de São Joaquim, em 1931, e, posteriormente, no livro Gavião-de-Penacho: Memórias de um Serrano (1999). Ele retrata a história de uma parada de rodeio na Fazenda São João de Pelotas.


 Lida de campo em São João de Pelotas
Ao amigo Inácio Pereira, publicado
em “A Tribuna”, de São Joaquim,
a 28 de junho de 1931

Nota: Excerto escrito em 1931, aparece aqui completamente refundido, para fazer parte das MEMÓRIAS [Excerto publicado em 1999 no livro “Gavião-de-Penacho – Memórias de um serrano”, de Enedino Batista Ribeiro].

            Voltando cinquenta anos atrás o pensamento, mergulho meu espírito na quadra feliz e doce da minha primeira infância, num tempo em que eu, guapo rapagote, nos rasgados das coxilhas, ou nos costões íngremes das montanhas, esporeava o “pingo” na cabeça do matambre, fazendo o corcel dar o máximo de velocidade, no encalço do touro bravio que, tresmalhando do rebanho, não obedecia à volteada.
            Recordo então, um por um, todos os episódios, muitas vezes dramáticos, mas sempre belos e atraentes da vida movimentada de uma grande fazenda de criação de gado.
            Só para quem não nasceu, ou nunca viveu numa fazenda, nem nunca sentiu a paz bucólica de um sítio, quando o sol à tardinha vai se escondendo atrás dos montes e dourando a paisagem com o mágico reflexo de nuvens de cor-de-rosa, só quem nunca viu uma queimada de campo, quem nunca assistiu a uma derrubada de roça, só quem nunca atirou um pealo, quem nunca viu como o caboclo destemido e garboso salta ao lombo do potro xucro e sai ao léu pelas campinas, só quem nunca parou um rodeio e nunca assistiu a uma briga de touros, desconhecerá que a vida do campo é a melhor, a mais pura e bela, a mais divertida de todas!
            Mas quem, como eu, na “lida de campo” e numa queda de cavalo arrancou o primeiro dente que lhe nasceu, ama tal vida como a nenhuma outra, e quando circunstâncias estranhas à sua vontade dela o privaram, chora a sua falta e há de morrer como o “cavalo mostardeiro”, com a cabeça voltada para a querência, ou seja, com o coração preso à inapagável saudade da vida dos campos!
             Façamos, então, leitor amigo, um retrospecto de meio século no passado, e me acompanhe na descrição de um dos mais apreciados acontecimentos que ocorriam anualmente na vida da Fazenda “São João de Pelotas”[1], ao tempo em que estava sob o mando de meu pai – João Batista Ribeiro de Souza.
            Vamos “parar” um rodeio no “Pinheiro Seco”, célebre rincão nos anais daquela Fazenda, tanto pelo número de cabeças, como pela brabeza do gado.
            Empregarei, quando possível, a linguagem e os nomes regionalistas que então aprendi e que muito perto me falam ao coração.

OUTUBRO

            Tempo de marcação e derrubada do gado para dar sal “guela” abaixo. Grande azáfama no velho solar dos descendentes do Coronel João Ribeiro, em São João de Pelotas. Gente como pinhão na pinha. Ao clarear do dia, todos os seus habitantes já estão de pé e se movimentam: uns socam o sal; outros vão ao potreiro recolher a cavalhada; aquele emenda um laço, este afia uma tesoura e, em todos os semblantes, pinta-se uma louca alegria; um entusiasmo, um frêmito como que agita aquele mundo de gente: é que hoje é dia de rodeio no “Pinheiro Seco”. Eta ferro! O negócio vai ser duro!
            Chegam os cavalos do potreiro e o velho Batista, homem ainda de boa idade, ríspido, severo e que entende da lida como gente grande, dá ordens aos peões; grita ao pessoal, e então todos os campeiros, de buçal na mão, dirigem-se à mangueira onde está a cavalhada, chegada há pouco do potreiro. Um laçador bom entra na mangueira e vai laçando os cavalos, enquanto os outros ficam sobre a porteira esperando as ordens do patrão.
            O primeiro cavalo laçado é um tordilho chato de nome Fumaça: é o encilha do chefe. Um “piazinho” chega o buçalete e o conduz para o galpão. O segundo que cai no laço é o cavalo baio amarelo, da tropilha da Taipa, chamado Beladona; diz o seu Batista: “chega, campadre Silvano”; o terceiro é um cavalo branco, crina preta, muito bonito, de nome Patarata: “Chega, Inácio Pereira”. O Patarata, bom como um veneno e velhaco como um raio, costumava velhaquear e derrubar o Inácio, escapando com o lombilho; apesar disso, era o seu favorito. O quarto é um cavalo sebruno, o Cedro: “Chega, Afonso”; o quinto um cavalo preto, o Fumega: “Chega, Antônio Pedro”; o sexto cavalo branco, o Cambraia: “Chega, Amado”; o sétimo, um cavalo rosilho, o Caçapava: “Chega, Máximo”; o oitavo é um pingo branco, pintado de preto na tábua do pescoço, o Garça: “Chega, seu Tinoco”. Um “piazinho” de sete a oito anos sai saracoteando e vai enfrenar[2] o seu corcel. O Garça era um dos melhores matungos da tropilha, lindo animal, faceiro, caminhava quebrando o freio com o queixo na maçã do peito.
            E assim por diante, que mais de trinta teria de enumerar, até que cada campeiro recebesse o seu cavalo, todos, um por um, determinados pelo velho Batista, geralmente o mesmo que recebera na véspera.
            Em seguida, cada qual encilha o seu pingo, sem apertar muito a chincha e sem pôr os pelegos.
            Enquanto isso, na cozinha e na casa grande, ia um atropelo do mulherio que prepara um almoço ligeiro, ou um café “salgado”[3], para a campeirada que se aproxima das mesas arrastando as esporas, alegres, jocosos, palradores. A tudo dirige com energia e afabilidade, a dona da casa, dona Cândida Ribeiro, ainda bem moça e sempre muito bonita.
É a hora de sair para o campo. Cada um aperta o seu cavalo, ata o laço nos tentos e os mais moços e mais “fachudos” amarram a cola do pingo, lá em cima, “onde a Maruca prende o grampo”; prende as rédeas na cabeça do serigote, bem curto, e o matungo fica ali, enfrenado, nervoso, pisando em flores, mordendo a maçã do peito.
Os campeiros de laço nos tentos, botas e esporas, montam a cavalo, de “arreador” ou “rabo-de-tatu” na mão. Saem para fora do parapeito, param, o patrão põe os olhos na turma para ver se não falta ninguém.
Coo! Coo! Coo! Chamam-se os cachorros, os inseparáveis e eficientes auxiliares do camponês na lida com gado xucro, atendendo logo, seis, oito, pulando, ladrando, correndo contentes, à frente dos cavalos.
Sai a cavalgada. A poucas quadras da casa, o patrão sustém o cavalo e dá as suas últimas ordens aos ginetes que se apinham ao seu redor:
- O Amado, o João Chica, o Joaquim Januário, o Chico Minducha e o Edmundo, vão ao fundo dos “Dois Irmãos” a galopinho, dando água para os cavalos, trazendo tudo, gado e cavalhada, não deixando nada.
- O Inácio Pereira, o Afonso e o Zé Negrinho, vão ao fundo do “Maria” e do “Faxinal”, a galopinho, dando água para os cavalos: tragam tudo, gado e cavalhada, e, às vezes, brincalhão... “veado, graxaim, jaguatirica, tudo que acharem”. A brincadeira dava como que ênfase às ordens transmitidas aos seus comandos, para que esses pusessem toda a atenção e empenho na recruta da gadaria.
- O Antônio Pedro, o Bento e o Guacho, vão ao “Corredor Ruim”, “Fundo do Rodeio” e “Picada Grande”, trazendo tudo, gado e cavalhada, que não fique nada... poupando e dando água para os cavalos.
- O Pedro Grande, o Marcos, o Loiola, e o seu “Tinoco” entram aqui no “Fundo da Lagoa”, no “Boi Brasino” e levam tudo que acharem para o rodeio.
- O Compadre Januário e o Narciso seguem com os cargueiros de sal diretamente para o “Pinheiro Seco”; descarregam e vão preparar o moquém para assarmos o churrasco do mamote[4] que vamos matar. Nessa palavra do chefe, “muito negro” passava a língua nos beiços, antegozando o sabor do churrasco com farinha seca, pão e café gostoso.
- Terminando, dizia o velho Batista: eu, o compadre Silvano (e mais as visitas, se as havia) vamos aqui pelo “Morro do Lagoão”, recrutando o que acharmos, esperando vocês no rodeio.
E desse modo, o experimentado fazendeiro distribuía o pessoal, de jeito que cada canto daquele fazendão, recebesse a sua turma de campeiros. Ele e os companheiros iam, mais ou menos diretamente, para o “Pinheiro Seco”; ali subiam um morrinho alto, de onde se descortinava uma vasta extensão de campos; e o velho Batista abria o peito chamando o gado: aon... maton... on... on! Dali a pouco principiava de novo: aon... maton... on... on!...
E que peito tinha o velho! Foi célebre! Sua voz clara e possante ecoava como um clarim na quebrada dos montes e como que rolava sem perder a intensidade no vargedo das campinas!
O gadaréu levantava a cabeça, ouvia o grito do pastoreio e imediatamente seguia para o rodeio, aos pinotes berrando e chifrando uns aos outros. Aí então, tinha-se diante dos olhos um espetáculo magnífico: O rodeio do Pinheiro Seco ficava numa rechã[5] formada pelo concurso de pequenas colinas e outeiros atapetados pela verde pastagem que, já em outubro, muito viçosa, reverberava aos raios do sol; aqui e ali, rasos e límpidos arroios prateavam, em riscos largos, o fundo da paisagem, sumindo além na orla dos capões.
Já perto do meio-dia, a campereada está chegando ao fim. De todos os lados afluem animais para o rodeio; aos pinchos[6], berrando, num alarido louco. Os terneirinhos novos, galantes como uns brincos, reúnem-se aos magotes para brincar, saracoteando, pulando e correndo uns atrás dos outros.
Dali a pouco começam a chegar os campeiros com os pontões de gado, os cavalos banhados em suor, resfolegando, arquejantes, batento o vazio. Está parado o rodeio: quatrocentas, quinhentas reses... Que bicharedo!
No gado do “Maria” vinha um touro preto caracu, da virilha branca, animal criado, possante, lindo como uma fita, e uma das raras reses mansas daquele rodeio de feras.
No gado dos “Dois Irmãos” vinha um touro colorado, bicho criado, grande como um rancho e feroz como um tigre.
Os dois titãs se avistam: velhos inimigos, começam logo a se provocar: cavando terra, defecando abundantemente, rabejando, urrando de espaço a espaço, enterram as aspas no chão, levantando leivas de terra; dos pescoços de rodo e dos cupins monstruosos levanta-se uma cerração de poeira vermelha. Quando apenas uns oitenta centímetros os separam, levantam muito a cabeça, ambos ao mesmo tempo, param, curvam o pescoço ligeiramente em sentido oposto, armam-se garbosamente, cavam a terra... É momento psicológico de grande emoção. Os cavaleiros, ofegantes pelo nervosismo que os domina, rodeiam os “gladiadores”, com grande cuidado e imensa cautela. Há perigo iminente (e logo veremos o fim trágico da luta), pois o touro que apanha sai seco, fulo de raiva; o que encontra pela frente leva na ponta dos chifres.
Há apostas entre os espectadores, as opiniões e palpites se dividem entre o preto e o colorado... subitamente, ouve-se um choque violentíssimo – a luta teve início: os dois touros, ambos possantes, ambos formidáveis, dão-se marradas tremendas, pontaços horripilantes, partem de lado a lado arrancando pelos, riscando o couro; o sangue esguicha dos pescoços nodosos e dos cupins hirsutos; outra vez uma cerração vermelha ergue-se daqueles corpos em feroz contenda qual uma caldeira efervescente de zarcão. E, por mais de dez minutos, prolonga-se a luta, sem que se possa calcular a qual dos contendores caberá a vitória.
De repente, em dado momento, o touro preto consegue pegar o colorado por baixo do pescoço hercúleo, suspende-o na cabeça e o carrega dezenas de metros, rasgando o chão com as patas, estendo o colorado na relva e calca-o furiosamente a cornadas! Este “berra como vaca”; é o sinal de que se acobardou. Rápido como o relâmpago levanta-se o colorado, destro como um lutador medieval; o preto crava-lhe as aspas, aceradas durindanas[7], nos quartos musculosos e atira-o, escafedendo.
Na fuga, episódio perigosíssimo para os espectadores, o touro colorado parte em vertiginosa carreira em direção aos cavaleiros que formavam um semicírculo próximo ao local da briga; alcança um deles, o Máximo, que montava o brioso Caçapava; levanta o cavalo e o cavaleiro nas aspas, enterra uma delas até o meio no ventre do pobre corcel.
Cena dantesca aquela em que um touro bravíssimo levanta sobre os chifres um cavalo, o cavaleiro fazendo prodígios para subtrair-se ao iminente perigo.
Rápido, o touro consegue atirar o cavalo ao solo o “tripedo” arrasto. Desde aquele momento o colorado passou, nas crônicas da Fazenda, a denominar-se “o Criminoso”.
Refeito da forte emoção que o prendeu, o velho Batista gritou energético: Capem essa fera!
Os cavaleiros se entreolharam; mas, habituados a esses lances dramáticos e arriscados da vida de uma fazenda de criação de gado, sacam os laços e avançam sobre o colorado que, a um canto do rodeio, cavava terra envolto num turbilhão de pó. O touro, vendo-se acossado por aquele pugilo de laçadores, resiste-lhes furioso, cavando terra, bramindo como um leão, investindo, ora contra um, ora contra outro dos cavaleiros; mas dez homens são também dez feras dotadas de inteligência – que é a força mais terrível do mundo – dez laços quase ao mesmo tempo caem-lhe em cima, maneiam-no e derrubam-no, mais rápido do que se poderia esperar. Laços nas pernas, laços nas mãos, aqueles destemidos camponeses estaqueiam o vigoroso animal.
Então o tio Amado, moço, jovial e destro camponês, joga-se de cima do Cambraia, saca de uma faca e, em golpes rápidos, extirpa os testículos enormes do colorado que, assim, perde a “cisma”, deixando desde aquele momento de ser touro, passando para o rol dos tourunos.
O tio Amado, sempre patusco, com os bidoques na mão, mostrando aos companheiros diz: “vou comer eles assados para eu ficá valente também!”. Mas, em seguida, desiste e joga ao “Veludo” e ao “Barão”, dois ótimos cachorros gadeiros, um preto e outro baio, que devoram o avantajado par de glândulas.
Ao levantar-se, “o criminoso” ficou dançando e se virando para todos os lados, tal como os touros nas arenas das praças de toureação; mas, os cavaleiros que, prudentemente, se haviam retirado do local, não deixaram “inimigo” contra quem o colorado pudesse investir.
E assim, o colosso perdeu a “cisma” e não teve em quem se vingar! O mesmo, muitas vezes, acontece na vida, para os homens... Perdem o rompante e ficam falando sozinhos.
Enquanto isso se fazia, minha mãe, que se encontrava com as filhas no Pinheiro Seco, mandou que alguns peões levassem o mísero Caçapava para a sombra de um capãozinho, onde havia uma aguada; ali chegando, com aquela sua presença de espírito admirável e ânimo sereno, mamãe ordenou que se pusesse a vítima de pernas para cima, lavou as tripas do animal com água de creolina e pôs-se pacientemente a recolhê-las, depois com tento de couro cru, bem desinfetado na creolina, coseu a barriga do cavalo.
Todos pensavam, corroborando com a opinião de que se devia sangrar o pobre animal pra não estar sofrendo, que o Caçapava não escaparia daquela. Mas minha mãe não deixou que o matassem, dizendo que não havia tripa furada e o cavalo podia se salvar.
Realmente, a vítima do colorado não morreu, sarou, sem voltar todavia ao seu antigo vigor.
Tempos depois, quando se avistava o Caçapava, magro e peludo, matando butuca pelas encostas dos matos, repetia-se a história mil vezes contada, da trágica cena do Pinheiro Seco.
Quando mamãe terminou o tratamento dispensado ao destitoso animal, era chegada a hora do churrasco. Então, todos a cavalo, inclusive as senhoras, reunidos em um piquete de cavalaria ou guarda avançada, atravessaram o rodeio coalhado de gado, em direção ao moquém que estava organizado justamente do lado oposto ao que ficara deitado o Caçapava. O lugar era pitoresco, um capãozinho com boa sombra e excelente água.
Três ou quatro menores ficaram rodeando o gado no rodeio, a fim de evitar que alguma rês mais arisca se tresmalhasse, enquanto o patrão e sua comitiva iam ao “encosto”[8] para a muda de cavalos e churrasquear.
Aí, na enseada de um banhado atolador, recostavam-se os cavalos, desencilhavam-se os que haviam servido para reunir o gado no rodeio, com um manojo[9] de capim desempastavam-se-lhes o lombo do suador, e um molequinho os conduzia aos bebedouros d’água, já na direção da sede da Fazenda.
Então, no “encosto”, com os cavalos de reserva, repetia-se a mesma cena da manhã na mangueira da casa: - Cai o laço no pescoço do Soberbo, “Chega fulano”; Vem o Preá, “chega o beltrano”; - O Serrote, o Sucena, a Beleza, e a Égua Moura, o Humaitá, o Corisco, o Gadeia, o Veado, O Mouro Grande etc., são distribuídos pelos campeiros.
É a hora boa da churrascada. Há tempo já, o tio Januário e seus comandados haviam carneado o mamote gordo. As postas graxudas eram moqueadas em cima do brasido, cheirando apetitosamente.
Grupos de três a quatro campeiros recebiam seu assado e dirigiam-se para uma mesa improvisada onde, com abundância recebiam farinha de mandioca, pão e grandes bules de café.
Era uma verdadeira festa. O trago da cachaça corria solto, de mão em mão, esquentando o sangue dos homens que discutiam, riam, gesticulavam, comentando as aventuras da campeirada do dia; a briga dos touros, o acidente com o Caçapava. Só o Máximo não ria, continuava macambúzio com o desastre acontecido ao seu amigo e pingo de estimação.
Pronto. Todos montados voltam ao rodeio, fazendo broxas (riscar a grama com as patas traseiras do cavalo quando esse em disparada é sustado abruptamente pelo freio), roseteando os pingos para alertá-los de que a hora é chegada do entrevero com o gado xucro: os excelentes cavalos de São João de Pelotas conheciam do serviço, só faltava falarem.
Chegando ao rodeio, acaba-se a farra: o velho Batista fecha a cara e dispõe os seus homens para “aparte” que é uma das fases mais emocionantes da lida de campo: - trinta, quarenta cavalarianos formam uma grande ala em meia-lua e, assim, conjuntamente, cortam um pontão de gado. É o sinuelo[10], que conduz a um determinado lugar na direção da Fazenda, para facilitar a sua próxima condução, fica separado, a pouca distância do grosso do gado do rodeio, pela ala de cavaleiros, espera-se uns minutos até o gado sossegar; depois dois ou três homens acompanham o chefe, entram no sinuelo, e vão, cautelosamente, fazendo voltar para o rodeio as reses que não devem ser conduzidas para a sede da Fazenda.
Então, o “seu” Batista determina a ordem dos trabalhos: Velhos e moços, peões e íntimos da família, naquela hora, todos são iguais, recebem ordens e ninguém discute. “Faz a fala”:
Vamos apartar as vacas de cria, terneiros de ano que vão à marca, os touros para castrar e as reses magras para se dar sal goela abaixo: poupando os cavalos e sem perder tempo. Vamos nas horas de Deus!
Todos levantam o chapéu, em sinal de respeito ao nome do Criador.
Três a quatro ginetes entram no sinuelo e vão refugando as reses que não figuram em nenhuma das classes enunciada pelo chefe.
“Limpo” o sinuelo, oito, dez homens ficam cuidando deste, enquanto o restante volta ao rodeio. Aí se dispõem aos pares, geralmente velhos parceiros de aparte, e vão separando as reses jeitosamente, para não atropelar a gadaria, até que cada um dos bichos sai fora do grosso do gado; nesse momento, sem pestanejar, ao mesmo tempo, ambos os cavaleiros cerram esporas nos matungos e, aos gritos, a estalos de arreador, a toda velocidade, levam a rês, “na barbela do freio”, até o sinuelo, onde, à entrada deste, sentando as mãos nas rédeas, fazem os pingos rasgar a grama naquele dependurado do Pinheiro Seco.
Barbaridade! Nossa Senhora! Que coisa bonita de se ver!
Quem nunca assistiu a um aparte de rodeio de gado xucro, não pode avaliar a técnica, a prática requerida por parte dos cavaleiros para que a rês chegue ao sinuelo, sem escapar nem para um nem para outro lado, nem que parando a rês subitamente, sigam, os dois ginetes no ímpeto da velocidade adquirida, emparelhados, sem rês nenhuma, como dois bobos... Quando isso acontece é um “fiasco” para os companheiros que se prezam.
E por essa forma continua o aparte, horas a fio, até que se tenha retirado do rodeio a última rês que se pretende conduzir para casa.
Terminando o aparte, todos os cavaleiros se dispõem ao redor do sinuelo que, no Pinheiro Seco, ficava formado por duzentas e mais reses.
Ligeiro descanso para os cavalos que, banhados em suor, arquejantes, resfolgam a plenos pulmões, narinas abertas, vermelhas como uma nesga de baeta[11]. Depois, a um sinal do chefe, encaminha-se aquele bicharedo em direção da Fazenda: é uma tarefa árdua. Ao restante do gado que ficou no rodeio, é distribuída farta quantidade de sal, colocado em cochos, que o bicharedo lambe gulosamente.
Naqueles bons dez quilômetros que separam o Rodeio do Pinheiro Seco da sede da Fazenda de São João de Pelotas, em todo o seu percurso, inumeráveis são os episódios que ocorrem de minuto a minuto. O gado é bravio. Por todos os lados refugam reses a toda brida, sobre as quais açula-se a cachorrada que, ganiçando, aos tombos, às dentadas, conseguem às mais das vezes fazer voltar as reses ao sinuelo. Esse serviço é feito, mesmo, quase exclusivamente pelos cães gadeiros, esses leais e valorosos serviçais do homem. Os cavaleiros não podem despegar-se do grosso do gado, pois esse pode se tresmalhar totalmente numa debandada geral, indo, água abaixo, um dia inteirinho de serviço e porfiada luta com o gado xucro.
Finalmente, eis-nos chegando, com aquele pontão de gado, à Fazenda, para encerrá-lo na mangueira: “Agora é que a porca torce o rabo se não for pitoca!”.
À vista da casa e do mulherio encarapitado em cima das taipas e das tronqueiras para assistir ao grandioso e “sui generis” espetáculo, o gado começa a refugar, trotando, correndo em redemoinho, batendo os chifres que repercutem em estalidos secos como o pipocar de metralhadora em funcionamento.
É o momento decisivo: é preciso evitar a todo o transe o “estouro da boiada, episódio grandioso e belo, mas perigosíssimo porque a manada assim desembestada, leva de roldão e amassa sob as patas tudo o que encontrar pela frente. A gauchada então cerra esporas nos matungos e comprime a gadaria sobre a porteira do mangueirão, toda aberta.
Acuação cerrada da cainçalha, gritos, estalos de arreador, berraçada das vacas de crias e dos bezerros – um alarido infernal!
Dez, vinte reses, tresmalham-se, mas o grosso do gado é encerrado: dois ou três ginetes postam-se à porteira, e os demais, a toda velocidade daqueles valentes corcéis, de laço na mão, matilhas e cães a ganiçar, cortam as coxilhas, sobem e descem as encostas do morro no encalço das reses que fugiram na estrada da mangueira. Raras escapam daqueles centauros veteranos e encanecidos no lombo dos cavalos; algumas são conduzidas no laço, a rabo-de-tatu, à custa de cachorros que se lhes ferram nos garrões, que outro jeito não há.
Recolhida a última rês que se tresmalhara e fechada e porteira, o velho Batista abre a fisionomia, levanta o chapéu bem alto e exclama:
Graças a Deus! Todos os presentes o acompanham no gesto e repetem a jaculatória.
Então a campeirada segue para casa, feliz, alegre, sem sentir canseiras, mentindo, contando lorotas, rasgando faixas de apocalípticas proezas praticadas naquele faustoso dia de rodeio no Pinheiro Seco.
Desencilhados os cavalos, cada qual puxa o seu até o riacho “Tourinho” onde, carinhosamente, lava o pingo dos pés a cabeça, molhando o “bolso” (nas entrepernas a capadura, ou o úbere das fêmeas). Em seguida, a cavalhada é repontada para o “Açude Grande”, no Capão da Lagoa, onde pastoreados, ficam pastando e bebendo água, sendo à noitinha conduzidos para o potreiro.

Três horas da tarde.
Merenda farta.
Hora do pealo.
Eta! Mundo velho!
Vai começar a derrubada geral do gado. É a fase mais perigosa para os homens na lida de uma fazenda, quando se trata de um gado brabo como era o do Pinheiro Seco. O homem deixa de ser centauro, é simplesmente homem apeado do seu corcel que lhe oferecia uma proteção quase completa contra a agressividade dos animais xucros. Têm que entrar na mangueira a peito descoberto, no meio do gado feroz que entre as taipas do mangueirão se reborqueia, correndo de canto a canto, batendo os cascos, retinindo os chifres.
Naquele lote, todo o gado é brabo, mas algumas reses se sobressaem, e essas são as primeiras a pressentir os lidadores que de laço na mão, afoitamente, se lançam na mangueira de chinchador à ilharga, chapéu quebrado na testa, em mangas de camisa.
As mais ferozes carregam imediatamente sobre peleadores: alguns vão à taipa, outros mais destros e destemidos quebram o corpo e jogam o laço em reborqueado que, em rodilhas coleantes de serpente, vai “cantar” as munhecas do bicho; deitam o laço na cintura e o animal tomba fragorosamente, como se fosse ferido pelo raio.
- “Acarca, fulano”! grita o peleador e o fulano avança sobre o animal deitado e torce-lhe a cabeça; ato contínuo, outro laçador põe o seu laço nas pernas no animal, que fica assim bem seguro e estaqueado; nesse momento um dos três homens ali presentes, grita forte: “Sal e água, marca, tesoura e faca”, conforme as operações por que vai passar o animal.
Sal e água goela abaixo usa-se nas fazendas, na saída do verão, não só como tônico e reconstituinte, mas como um depurativo que, purgando a rês, facilita a queda dos pelos do inverno, abrevia a engorda, e, como dizem em veterinária caseira, faz “abortar alguma doença incubada”.
A marca, naturalmente, é para assinalar os animais, facilitando a identificação no caso do extravio, ou, quando na fazenda há mais de um dono, saber a quem pertence aquele animal.
A faca serve para fazer o sinal sangrento nas orelhas, cujo feitio há de todos os tipos, e para castração, quando for o caso.
A tesoura presta-se para destopetear o gado, isto é, aparar bem rente um pêlo alto que cresce na testa das reses durante o inverno, que as enfraquece e as enfeia; pode servir também para cortar a crina da cauda que é a matéria-prima sempre muito procurada nos mercados do mundo.
Para todos esses misteres há gente escolhida pelo patrão, escolha que recai de preferência sobre os indivíduos desadestrados no manejo do laço – que o pealo é uma arte difícil – ou então menores já com a prática desse serviço.
Trabalhada a rês, vai-se-lhe dar liberdade; nesse momento, parte do acalcador e seus parceiros o aviso:
Vai o charque, minha gente!”
Espalhados que andam por todos os recantos da mangueira, fazendo idêntico trabalho, peleadores se previnem; é que vai levantar-se uma rês muito braba, investideira.
Virgem poderosa! Os laços que a manietavam no chão afrouxam-se ao mesmo tempo, o acalcador já “se escafedera”, prudentemente. O animal se levanta enfurecido e investe furioso sobre o primeiro homem que se lhe depara pela frente e só o deixa quando a cerca em que o perseguido trepou, não lhe permite mais avançar.
E não raro, antes que o perseguido atinja a taipa, a rês o alcança e o levanta nas pontas aceradas: fere a vítima de morte ou a contunde gravemente – são os cavacos do ofício.
Há reses tão brabas e encanzinadas que, por mais destemerosos que sejam os homens, não lhes permite mais voltarem à mangueira para continuar a lida. Nesses casos é preciso recorrer a um expediente: derrubar a rês novamente e amarra-lhe curta a mão direita ao pé esquerdo ou vice-versa, o que impossibilita o animal de correr, embora possa se pôr em pé; fica ali urrando, cavando terra, esbravejando na sua ira impotente, que para tudo há remédio no mundo: para o boi brabo, a maneia cruzada, para homem louco, a camisa-de-força.
Trabalhando o gado todo, contada classe por classe, toma-se nota de tudo, para posterior registro no Livro Tombo da Fazenda, abrem-se as porteiras e solta-se o bicharedo que “sai de marca quente”, e vai direitinho, em marcha batida, para a querência.
Dezenove horas:
Lá se vai o sol entrando
Redondo como um vintém
E a Terra triste ficando
Co’a despedida de alguém!...

Jantar.
Que povão!...
Que lida braba também a do pessoal doméstico. A esposa do velho Batista (velho só no nome) que tinho administrativo tinha, que ordem e que limpeza reinavam naquele casarão! E que boa era minha mãe, alma santa, sempre tão meiga tão afável para com todos, grandes e pequenos, pobres e ricos. E, por isto, Deus, que já a levou deste mundo, te-la-á premiado com o Céu!
Depois do jantar, a rapaziada ia brincar e fazer estripulias ao luar: laçar os terneiros ou brincar de “roda-cotia” e de “gata cega”.
A peonada, os agregados, os negros velhos, ficavam em grupos palestrando, gracejando, contando mentiras, comentando os episódios da campeirada ou da lida da mangueira.
A casa grande se iluminava, alegre. Nas salas e nas varandas, os homens de mais idade e de mais responsabilidade se reuniam a meu pai, e as mulheres, à minha mãe, palestrando alegremente e tomando chimarrão, comendo guloseimas.
Dali a pouco, ouvia-se o som de uma gaita: era o Inácio Pereira que a tocava; a rabeca gemia sob o arco manejado pelo Zé Cláudio; o violão chorava: era o Serciliano que o dedilhava. Estava formado o baile, que moços e moças não faltavam na residência do casal Batista Ribeiro, dado o seu largo círculo de amizades e parentada. Por aqueles tempos de lida de campo, a vizinhança toda estava em São João de Pelotas.
De repente, fazia-se silêncio, atenção geral: eram dois cabras que se atracavam num desafio em versos, na lira pura, singela e expressiva do sertanejo – o “quero mana”. Ou era então um cabriola que se fincava a recitar versos de estirada décima.
E, para quebrar a monotonia da minha prosa – oca e balofa – lá vão alguns versos tais quais os aprendi, nesse já remoto passado da minha vida tão inocente, feliz e descuidosa. Por ignorância, e por prazer, perfilho aqui todos os delitos, contra a Poesia, dos versos que deliciaram outrora os meus ouvidos de criança:

Na costa do Rio Pelotas,
Naquele curral de dunas,
Deixei o negro deitado
No coice de uma reúna.
A sorte que negro teve
Ser preto como um carvão,
Se não eu não dava tempo
Do negro levantar as mãos!

Outro:
O índio quando me viu no laço
Disse: eu hoje não te deixo.
Olhei na cara do índio e
Contei dezoito fios no queixo;
Os olhos eram dois botões e
A barba como de peixe!...

Mais:
Lírio roxo, riscadinho,
Tem a cor de um penitente,
Quem anda cego de amor
Passa trabalho e não sente!

Ainda:
Vai-te carta venturosa,
Por esse mundo sem fim,
Se um dia me perder de vista,
Nunca te esqueças de mim!

Finalmente:
Menina dos olhos pretos,
Não me olhes chorando,
Eu faço que não te quero
Mas estou te namorando!...

            E, nesse diapasão, furavam as horas os poetas e queromanistas de São João de Pelotas! Bons tempos aqueles! Era-se mais feliz, havia mais amizades sinceras, mais dinheiro, o câmbio não oscila tanto e... Benza-me Deus! Cala-te língua! Ainda não de tinham inventado a bomba atômica e o tubaronismo, o quebra-quebra, o comunismo etc.
            Aí tem os amáveis leitores de “A TRIBUNA”, a história de um rodeio no Pinheiro seco, dedicada ao meu querido amigo Inácio Pereira, armado cavaleiro nas façanhas épicas de uma lida de campo no famoso rodeio de gado xucro, e que “Gavião-de-Penacho” se lhes propôs a contar.
Só há uma diferença: Gavião-de-Penacho – na pena – é como pintor pobre, sem arte e remendão, que foi fazer o retrato de um homem e lhe saiu do pincel a figura grotesca de um orangotango.

São Joaquim, julho de 1931.
(Ass.) Gavião-de-Penacho[12]




Figura 1 - Mangueira Redonda de Taipas das Ruínas da Fazenda São João de Pelotas.


Figura 2 - Em uma parte da Fazenda São João de Pelotas está localizada uma grande cruz de cedro, que assinala o assassinato de João Baptista de Souza, "Inholo", em 1850.  Essa parte da fazenda passou a ser denominada pelos moradores da região como Santa Cruz, nome pelo qual é conhecida até hoje.


Notas:

[1] Fazenda São João de Pelotas: ao sul do município de São Joaquim, divisa com o Rio Grande do Sul. Essa grande fazenda pertencia no tempo dessa parada de rodeio a João Baptista Ribeiro de Souza e de Cândida dos Prazeres Baptista de Souza. Mais informação sobre a fazenda em: https://genealogiaserranasc.blogspot.com.br/2012/06/sao-joao-de-pelotas.html
[2] Enfrenar: do espanhol; substituir o bocal pelo freio em animais que amansam. Sinônimo: enfrear.
[3] Assim chamado porque era servido algum tipo de carne: guisado com farinha de mandioca, charque, etc.
[4] Mamote: Terneiro crescido que ainda mama.
[5] Rechã – Planura alta.
[6] Pinchos – aos pulos.
[7] Durindana: nome dado por Carlos Magno à sua espada.
[8] Encosto: parte do campo concernente à pastagem dos animais durante um certo tempo.
[9] Manojo: molho ou feixe que se pode abarcar com a mão; manolho.
[10] Sinuelo: palavra de origem do espanhol platino e que significa o gado manso habituado ao curral, e que se emprega nos trabalhos rurais como guia de animais xucros.
[11] Baeta: tecido felpudo de lã.
[12] Gavião-de-Penacho: pseudônimo utilizado pelo autor em seus artigos na “A Tribuna” de São Joaquim.


Referência

RIBEIRO, Enedino Batista. Gavião-de-Penacho – Memórias de um serrano. Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Co-edição da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina. 544p. Coleção Catariniana, n. 1. Florianópolis: Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, 1999.