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terça-feira, 21 de março de 2017

Rua Marcos Batista


            No centro da cidade de São Joaquim (SC), entre as ruas Manoel Joaquim Pinto e Domingos Martorano, localiza-se uma rua extensa, cujo nome homenageia mais um personagem importante para a história da fundação do município: Marcos Baptista de Souza.
Marcos Baptista de Souza nasceu em 09/08/1835, na Fazenda São João, depois “São João de Pelotas” (divisa c/ o RS), vendida ao Cel  João Ribeiro em 1850.
Filho do rico estancieiro João Baptista de Souza (19/01/1800 - 13/08/1850), “Inholo”, e de Maria Gonçalves do Espírito Santo (1802 - 19/08/1882).



Figura 1 - Marcos Baptista de Souza.


Aos quinze anos, Marcos perdeu o pai assassinado por dois de seus próprios escravos. Por determinação judicial, João Ribeiro, primo-irmão e cunhado, casado com sua irmã Ismênia Baptista de Souza (03/11/1831 - 01/09/1912), tornou-se seu tutor, e mais tarde mentor, incentivando seu precoce engajamento nas lides políticas.

Nota: Marcos tinha mais duas irmãs, Maria Benta (nasc. 26/05/1828), c.c. José Lins de Córdova (1817 - 15/04/1874), e Maria Magdalena (1833 - 21/11/1867), c.c Matheus Ribeiro de Souza (1829 - 18/11/1900), um dos irmãos mais moços do Coronel João Ribeiro.

Em 1873, Marcos Baptista foi um dos fundadores da “póvoa” de São Joaquim. Por ser bastante preparado intelectualmente para a época, foi escolhido Secretário Geral dos Trabalhos, cargo que desempenhou por muitos anos. Quando faleceu João Ribeiro, em 1894, Marcos Baptista o substituiu na presidência do Partido Republicano, antigo Partido Conservador.
Marcos Baptista de Souza casou-se, em 2 de outubro de 1860 (Lages, SC) , com MARIA RODRIGUES DE ANDRADE (bat. 14/03/1843[i] – 14/01/1926), “D. Marica”, filha de João Floriano Rodrigues de Andrade e Guiomar Valgos Galvão de Siqueira.
“D. Marica” era mulher de muita personalidade e gênio forte, usando sempre na cintura um revólver.



Figura 2 - Maria Rodrigues de Andrade e Marcos Baptista de Souza. (Fonte: Arquivos de Enedino Batista Ribeiro, acervo pessoal de Ismênia Ribeiro Schneider)

O casal teve sete filhos:
F1 - JOÃO BAPTISTA DE SOUZA NETO, “Batista Marcos”, (1860-1940), casado com (c.c.) Maria dos Prazeres Baptista de Souza (1869-1912), filha de João Ribeiro/ Ismênia. 14 filhos. Domicílio: Fazenda “Morro Chato”, Bom Jesus. Ancestrais da família joaquinense Cassão, da qual faz parte a historiadora Maria Baptista Nercoline.
F2 - MARIA BAPTISTA DE SOUZA SOBRINHA (ou Maria Paulina), c.c. Paulino José Ribeiro (1854-1909), filho de Pedro José Ribeiro e Jacintha Maria de Saldanha, sendo Pedro José irmão de João Ribeiro. Sem filhos, mas criaram uma sobrinha. Domicílio: Fazenda “São Pedro”.
F3 - ISMÊNIA BAPTISTA DE SOUZA ESTEVES, c.c. Manoel Ignácio da Silva Esteves (1871-1927), filho de Francisco da Silva Esteves e Ignácia Maria de Saldanha Sobrinha (também filha de Pedro José Ribeiro). 14 filhos. Domicílio: Fazenda “Vista Alegre” em Bom Jardim, SC. Ancestrais de Élvio Rogério Vieira Esteves, c.c. Filomena Nunes Esteves, residentes em São Joaquim.
F4 - CÂNDIDA DOS PRAZERES BAPTISTA DE SOUZA (1871-1930), c.c. João Baptista Ribeiro de Souza (1860-1944), filho de João Ribeiro/Ismênia. 12 filhos. Domicílio: Faz. “São João de Pelotas”. Ancestrais da Família Palma Ribeiro, da Família de Maria Cândida Ribeiro Vieira, “Candoca”, c.c. Hercílio Vieira do Amaral, avós de Clóvis Edu de Paula Vieira, Hercílio Vieira Neto, “Hercilinho”, e Hamilton José Palma Vieira, “Titinho”, que ainda conservam terras na fazenda original da família, após 156 anos de posse ininterrupta.
F5 - ANA BAPTISTA DE SOUZA, c.c. Manoel Martins Ribeiro, “Manoel Faié”, filho de Raphael José Ribeiro, outro filho de Pedro José/Jacintha Maria. 03 filhos. Domicílio: Bom Jardim.
F6 - AMBRÓSIO BAPTISTA ANDRADE DE SOUZA, c.c. Maria Trindade do Amaral e Souza, “Tia Trindade”, filha de Matheus Ribeiro de Souza (irmão de João Ribeiro) e Maria do Nascimento do Amaral e Souza, “D. Senharinha”. 13 filhos. Domicílio: Bom Jesus. Ancestrais maternos do Dr. Henrique Córdova.
F7-  MARIA DAS DORES BAPTISTA DE SOUZA, “tia das Dores”, c.c. Inácio Ribeiro Velho, filho de Manoel Inácio Velho e Ana Maria Ribeiro Velho (esta filha de João Ribeiro/Ismênia). 08 filhos. Domicílio: Fazenda “Boa Vista”, Bom Jesus.

Marcos Baptista tornou-se proprietário de duas fazendas separadas apenas pelo rio Pelotas: a Fazenda “São Pedro”, na região do Arvoredo, SC, e a “Santa Maria”, em Bom Jesus, RS, que se tornou seu domicílio. Foi grande estancieiro, cidadão e político muito respeitado, tanto em São Joaquim (SC), como em Bom Jesus (RS), onde faleceu em 07/10/1906. Foi sepultado, assim como sua mulher, no cemitério da Fazenda Morro Chato, aonde até hoje existe a sua sepultura.


Figura 3 - Cemitério da Fazenda Morro Chato.



Figura 4 - Rua Marcos Batista, São Joaquim (SC). (Fonte: Google Street View)


Referências

SCHNEIDER, I. R. Notas biográficas dos dez fazendeiros que assumiram a chefia da fundação de São Joaquim da costa da serra, em 01.04.1873 – MARCOS BAPTISTA DE SOUZA (09.08.1835 – 07.10.1906 ), Secretário dos trabalhos de Fundação. Jornal Mural, outubr

Cadernos de Enedino Batista Ribeiro. Acervo pessoal de Ismênia Ribeiro Schneider.

RIBEIRO, Enedino Batista. Gavião-de-Penacho, memórias de um Serrano. 1999. 

Inventários arquivados nos fóruns de Florianópolis e São Joaquim. 


Acervos particulares de Ismênia e Maria Baptista Nercoline.



[i] Batismo de Maria Rodrigues de Andrade, 1843. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Praça Cezário Amarante



Ismênia Ribeiro Schneider
Cristiane Budde


            Entre as ruas Manoel Joaquim Pinto e Paulo Bathke (paralelas), em São Joaquim (SC), localiza-se uma praça que homenageia o quarto prefeito do município: Cezário Joaquim do Amarante. Ele governou a cidade durante 28 anos, de 1898 a 1926.


Figura 1 - Legenda do Busto que homenageia Cezário Joaquim do Amarante, na praça que recebeu seu nome.


Cezário Joaquim do Amarante (25/02/1852 – 10/08/1929) é filho de Felisberto Joaquim do Amarante (1796 - 03/02/1861[i]) e de Carlota Joaquina do Amarante (de Liz) (1807 - 08/10/1884[i]). Esta é filha de Nicolau de Liz e Abreu e Umbelina Maria Pereira (falec. 1878).
Felisberto, por sua vez, é filho de Miguel Bicudo de Amarante e Anna Joaquina de Boenavides (25/12/1773 - 05/08/1847[i]). Um fato intrigante na história local é o assassinato de Felisberto, pai de Cezário, que ocorreu em 03/02/1861. Veja abaixo mais informações sobre o assassinato.

Conforme destaca a Agência de Notícias São Joaquim Online, Cezário Amarante
“governou São Joaquim no período de 1898-1926, pelo Partido Republicano, reeleito em vários pleitos, onde demonstrou capacidade de conciliação e liderança em torno dos interesses da incipiente sociedade joaquinense.
Talvez pelo fato de ser um rico fazendeiro da época, fundador da Fazenda Barreiro, hoje importante destino para o Turismo Rural no município de Urupema, Cezário Amarante nunca aceitou receber salários pela superintendência que exercia no município. Conforme noticiou o Jornal “Região Serrana”, de Lages, em janeiro de 1899 (exemplar constante do acervo do Museu Histórico Thiago de Castro – Lages), o superintendente Cesário Amarante devolvia os seus honorários à municipalidade porque “tinha muito amor a sua terra”. (Fonte Revista Blumenau em Cadernos, Ed. 371, Nov/Dez de 1987- Historiadora Maria Batista Nercolini)”[ii].


Figura 2 - Praça Cezário Amarante, em São Joaquim, SC. (Fonte: Site Meus Roteiros de Viagem)


Figura 3 - Praça e busto em homenagem a Cezário Amarante. (Fonte: www.paranomio.com)


            Cezário Joaquim do Amarante casou-se, em 6 de setembro de 1885 (Lages-SC), com Belizária Ribeiro do Espírito Santo (nome de solteira) (nasc. 07/03/1866[iii]), filha de João da Silva Ribeiro Júnior (1819-1894), “Coronel João Ribeiro” e de Ismênia Baptista de Souza (1831- 1912).


Figura 4 – Belizária Ribeiro do Espírito Santo e Cezário Joaquim do Amarante. (Fonte: Foto disponibilizada por Rogério Palma de Lima, no site Genoom)


            O casal não teve filhos e, por isso, quando faleceu a irmã de Belizária, Ignês Batista Ribeiro (18/12/1853 – 09/04/1895), deixando cinco filhos pequenos, Cezário e Belizária adotaram com alegria a sobrinha PÁSCHOA BATISTA DE OLIVEIRA (falec. 03/02/1979[iii]), de três anos, que lhes confiou Ignácio Sutil de Oliveira, pai da menina, ao retirar-se para o Mato Grosso.
“Pascoinha”, como era chamada, casou-se no dia 21/12/1912 com OSCAR ALVES FERREIRA, passando a se chamar PÁSCHOA DO AMARANTE FERREIRA, mãe da conhecida família joaquinense “Amarante Ferreira”, herdeira da Fazenda “do Barreiro”, no Painel, e guardiã das ricas tradições da importante estirpe fundada por Cesário e Belizária.
Filhos de OSCAR e PÁSCHOA:

F1 – FULVIO AMARANTE FERREIRA (nasc. 1912), c.c. Nadir Borges, filha de Outobrino Vieira Borges e Maria Benta Macedo Borges.
Fazendas: “Butiá” e “Três Pedrinhas”.

F2 – DALMO AMARANTE FERREIRA (1915 – 10/05/1977), c.c. Ruth Ribeiro Ferreira (nasc. 1919, residente em Lages), filha de Affonso Ribeiro Sobrinho e Alzira Vieira Ribeiro.
Fazenda “do Barreiro”.

F3 – BELISÁRIA AMARANTE FERREIRA (nasc. 1916), c.c. Cícero Witzel (viviam em Campinas, SP), filho de José Witzel e Benedita Astrogilda Witzel.

F4 – CESÁRIO AMARANTE FERREIRA (1917 – 1967), c.c. Zenaide Córdova, filha de Antônio Córdova, “Tonico”, e Lídia Rodrigues Córdova.

F5 – DILMA AMARANTE FERREIRA (1919 – 2003), c.c. Joel Guimarães Batista, filha de Leonel Batista e Honorata Guimarães Batista.

F6 – JOSÉ AMARANTE FERREIRA (1920 – 1994 ), “Zelo”, c.c.
1ª esposa: Zilda Melo, filha de Felício Melo e ?
2ª esposa: Leila Antunes, filha de Júlio Antunes de Amorim e Rute Furtado Antunes.

F7 – ALDO AMARANTE FERREIRA (1922 – 1979 ), c.c. Laura Cândido Ferreira, filha de Vidal Cândido da Silva e Teodolina Cândido da Silva.
Fazenda: “Morro do Vento”.

F8 – DALILA AMARANTE FERREIRA (1923 – 1993), c.c. Arnaldo Salles de Abreu, filho de João Salles e Joana Cheromim Salles.

F9 – JARBAS AMARANTE FERREIRA (1924 – 1991), “Bio”, c.c. Norma Fontanella Cruz Ferreira, filha de Gregório Pereira da Cruz e de ?

F10 – OSCAR FERREIRA FILHO (1925 – 1995 ), “Oscarzinho”, c.c. Vírginia Damásio Ferreira, filha de João Damásio e ?

F11 – CLÊNIO AMARANTE FERREIRA (nasc. 1927, residente em Florianópolis), c.c. Iolanda Bleyer, filha de Thássilo Neves Bleyer e Filomena Mattos Bleyer.

F12 – JAILO AMARANTE FERREIRA (1929 – 1980), c.c.
1ª esposa: Lourdes Pires de Haro, filha de Horácio Pires de Haro e ?
2ª esposa: Leoni, filha de Francisco Abílio e ?

F13 – MARIA INÊS AMARANTE FERREIRA, “Cotinha” (nasc. 1930 – residente em São Joaquim), c.c. Saulo Andrade Vieira, filho de Belisário Araújo Vieira e ?


Figura 5 - Páschoa do Amarante Ferreira e Oscar Alves Ferreira. (Fonte: Foto disponibilizada por Rogério Palma de Lima, no site Genoom)

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            Mais informações sobre o assassinato de Felisberto Joaquim do Amarante, pai de Cezário Amarante:

O Assassinato de Felisberto Joaquim do Amarante (1797 – 1861)[iv]

FELISBERTO JOAQUIM DO AMARANTE era filho de Miguel Bicudo do Amarante e de Anna Joaquina Benevides, esta por sua vez, filha de Manuel da Silva Ribeiro e Maria Bernardes do Espírito Santo, patriarcas da Família Ribeiro na Serra Catarinense.           Foi casado com CARLOTA JOAQUINA DE LIZ, filha de Nicolau de Liz e Abreu e de Umbelina Maria Pereira, descendentes da importante família Pereira que primeiro povoou a região do Painel.
O casal tornou-se dono de fazendas contíguas em terras do hoje município de Painel, que originaram a famosa Fazenda do Barreiro. Tiveram seis filhos, entre eles Cesário Joaquim do Amarante, que foi o quarto prefeito de São Joaquim, com mandato de 1898 a 1926.
Pois bem, FELISBERTO foi assassinado a tiros, no dia 03 de fevereiro de 1861, em sua casa, na Fazenda do Barreiro. A sua esposa, presente no momento do crime, acusou como responsável pelo assassinato ao seu cunhado, irmão do morto, VASCO JOAQUIM DO AMARANTE.
Esses dados foram acessados através do documento “Translado dos Autos do Crime de apelação ex-ofício interposta pelo Dr. Juiz de Direito da Comarca (Lages) da decisão do júri que absolveu o réu Vasco Bicudo do Amarante”, de 1861[v]. Aparece ali a inquirição do testemunho de Carlota, que assim narra, sob seu ponto de vista, a ocorrência do crime:
... todos escravos haviam corrido para o mato logo que ouviram o primeiro tiro: o que sendo ouvido por ela, não esperou mais e correu com seu filho pela porta de trás; ao chegarem à cozinha ouviram um tiro e ao passarem a taipa junto ao Rio, ainda ouviram outro tiro; depois que passaram o rio do outro lado encontrou-se com o restante de seus filhos, e todos os escravos, exceto o Luiz e a Delfina. Daí seguiram todos juntos, e ainda ouviram no caminho, um tiro, o qual foi dado em um cachorro, que depois foi achado morto, cujo tiro ela informante julga ter sido dado pelo seu cunhado Vasco, porque ouviu ele dizer estas palavras: “Arre diabo, passa”; cujas vozes não só foram conhecidas por ela informante, como por todos os seus filhos e escravos. Depois que o cachorro deixou de gritar, ela informante, seus filhos e escravos, ouviram de Vasco Bicudo do Amarante chamar, bem destintamente seu filho, Nhôzinho, e os escravos Luiz e José, dizendo estas palavras: “Venham que isso não é nada”, ao que ela informante disse para os seus filhos teu pai ficou morto como nós vimos, e ele diz que não é nada, corramos meus filhos, que ele nos está chamando para matar (pg 18).
Vasco ficou preso por 16 meses, respondendo pelo crime, sendo, ao final, absolvido da acusação, conforme se pode ver no mesmo processo:
... da innocencia do appellado, a qual na verdade, além de se achar na competencia do Tribunal de Justiça tão evidenciada se acha tão bem no Tribunal da opinião pública desta comarca igualmente reconhecida. Em vista pois disto, Senhor (referindo-se ao Imperador) é líquido que o apellado está muito no cazo de ser absolvido, mesmo do crime pelo qual acabou de ser condenado pela sentença da folha sessenta e três verso.

Vasco foi, pois, inocentado, partindo, logo a seguir, para a acusação de sua cunhada, Carlota, como sendo a verdadeira mandante do crime. Estes dados aparecem em outro processo: “Sumário de culpa ex-officio contra Carlota Joaquina de Liz e todos os seus escravos”, de 1862[vi]. Vejamos, então, a exposição apresentada por Vasco contra a cunhada:
Vasco Bicudo do Amarante, morador na cidade de Lages infamemente caluniado como assacino de seo irmão Felisberto Joaquim do Amarante, e que por tal crime o conservarão prezo dezaseis mezes, respondendo durante esse tempo duas vezes perante ao jury, sendo plenamente absolvido e querendo que a justiça discubra os verdadeiros criminozos, para assim serem punidos, e ficar o Suppe.(suplicante) izento d’essa nodôa, vem perante Vª Excª pedir que ordene às authoridades da Cidade de Lages, para novamente sindicarem, afim de se descobrir os authores de tão orrendo crime, pois é publico naquela Cidade, que a viuva do finado Felisberto Bicudo do Amarate e escravos da cazada são cumplices nesse horrorozo crime, imputar donde com mais affinco ao escravo Jozé. Procedendo Vª Excª com a devida cautela, certo estou, de que descobrirão os authores, tanto mais sendo voz publica de que a própria viuva, quando cazada com João Francisco Cidade Junior, igualmente assacinára, ministrando-lhe venêno. Actualmente, acha-se essa viuva cazada com o filho do Suppe. com quem já tinha relações illicitas antes da morte de seo irmão. Vª Excª poderá cordenar a verificação desse crime pelos cidadãos honestos do Termo de Lages, bem como pelos do Lavatudo e milhor será informado das circonstancias que existem. Tendo sido feita essa morte no dia três de fevereiro de mil oito centos e cessenta e hum, foi chamado o Inspector do quarteirão respectivo José N. Francisco, pelo Capitão José Marcellino, para fazer acto de Corpo de Delicto, dando-lhe verbalmente minucioza parte do ocorrido, o que cumprio, dezejando escrevel-a, e não an mirado a isso o mesmo Capitão Marcellino, incontenente demittio ao mesmo Inspector, tornando-se assim suspeito, na referida morte. A vista d’estes pontos que apresente o Suppe alem de sua defeza, e nos geraes se indica de alguma forma os crimonozos de tão horrendo crime; pede o Suppe a Vª Escª que obrando com justiça e imparcialidade que o caracterizão, ordene a prizão dos criminozos, punindo-os como merecem.

        Não tivemos acesso ao processo de julgamento de Carlota Joaquina de Liz, somente a este sumário de culpa ex-ofício. Mas sabe-se, pela história oral, que ela também foi absolvida, ficando o crime sem solução.
        Este, portanto, é mais um mistério que ronda a história de nossos ancestrais.


Referências
Inventário Judicial com Testamento de Cezário Joaquim do Amarante, 1929. Comarca de São Joaquim da Costa da Serra – SC, Inventário nº 733 – Reg. no livro nº3, Fls. 44.
Documento disponibilizado por Rogério Palma de Lima no site Genoom: Registro de óbito de Felisberto Joaquim do Amarante, 1861. Disponível em: https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-X959-WGQ?i=19&wc=MFKV-K36%3A1030404201%2C1030404202%2C1030457301%3Fcc%3D2177296&cc=2177296.




[i] PALMA DE LIMA, Rogério. Dado disponibilizado no site Genoom.
[iii] PALMA DE LIMA, Rogério. Dado disponibilizado no site Genoom.
[iv] Originalmente publicado no livro: SCHNEIDER, Ismênia Ribeiro. O voo das curucacas: estudo genealógico de famílias serranas de Santa Catarina. Florianópolis: Letra Editorial, 2013. Coleção Memória Familiar, INGESC, v. 1, 292p.
[v] MUSEU do Judiciário Catarinense.  “Translado dos Autos do Crime de apelação ex-ofício interposta pelo Dr. Juiz de Direito da Comarca (Lages) da decisão do júri que absolveu o réu Vasco Bicudo do Amarante”, de 1861. Cx 22 (Lages), Cx 77 Museu, nº 513.
[vi] MUSEU do Judiciário Catarinense.  “Sumário de culpa ex-officio contra Carlota Joaquina de Liz e todos os seus escravos”, de 1862. Cx 85 Museu, Cx 30 Lages.



sexta-feira, 10 de março de 2017

Rua Manoel Joaquim Pinto

Ismênia Ribeiro Schneider
Cristiane Budde

Uma das ruas do centro da cidade de São Joaquim (SC) recebeu o nome de Manoel Joaquim Pinto (de Arruda Filho), o chefe do grupo de fazendeiros que fundou São Joaquim da Costa da Serra, em 01 de abril de 1873.
Também em sua homenagem, foi conferido o nome de Manoel Joaquim Pinto a um monumento em madeira e pedras, localizado ao lado da Prefeitura Municipal de São Joaquim. A escultura foi idealizada e perpetrada por Élson Outuki e escultores colaboradores: Agostinho Hugen – Madeira – escultura; Nelson Neves Matias – Madeira – escultura; Yolanda Bathke – Desenho na madeira; Teizo Tonooka – Auxiliar Esculturas – pedra; e Tadeu – Serviço de pedreiro. O monumento visa contar a saga dos tropeiros que desbravaram a cidade (PMSJ, 2017).
Manoel Joaquim Pinto (de Arruda Filho) nasceu em 04 de outubro de 1808, em Porto Feliz-Piracicaba-SP[i]. Filho de pai com o mesmo nome e de Maria Josefa de Sampaio. 
Nota:  Pelo que se sabe, Manoel Joaquim Pinto de Arruda Filho, passou a utilizar apenas o nome "Manoel Joaquim Pinto". Assim, no documento original de óbito consta apenas "Manoel Joaquim Pinto". O mesmo pode ser observado em seu inventário (de 1880). A informação que temos é que ele abriu mão do último sobrenome, não se sabe a razão, mas que exigiu que os filhos o conservassem.

Manoel Joaquim Pinto (de Arruda Filho) casou-se com Joaquina da Silva Medeiros (Joaquina Rosa de Jesus) (1819 - 01/08/1879), filha de José Pereira da Cunha Medeiros e de Vicência Rosa de Jesus (José e Vicência são pais de Manoel José Pereira da Cunha (Manduca Pereira) [1806 - 03/09/1858]).
Manoel Joaquim Pinto e Joaquina tiveram os seguintes filhos[ii]:
F1 – JOÃO DE DEUS PINTO DE ARRUDA (de Arruda Medeiros), c.c. Carolina Muniz de Saldanha (nasc. 30/12/1838), filha de Antônio Caetano da Silva Machado (1788 - 05/09/1864) e Esmênia Muniz de Saldanha (06/07/1805 - 31/08/1888).
Filhos[iii]:
N1.1 – Manoel Pinto de Arruda (20/02/1866 - 26/11/1947);
N1.2 – Boaventura Lopes Pinto de Arruda (NASC. 1872);
N1.3 – Francelisio Pinto de Arruda.
Além desses filhos, segundo Glacy Weber Ruiz, João de Deus teve mais uma filha, chamada Ignácia Teodora de Lima (23/01/1862 -19/02/1940). Contudo, na certidão de batismo de Ignácia, consta apenas que ela é filha de Theodora, escrava de Dona Izabel Joaquina de Jesus. Ademais, no documento de óbito, ela é registrada como filha de pai incógnito e de Teodora de Lima (ou Teodora Rosa de Jesus, como consta em outros documentos). O mesmo dado sobre o pai aparece no registro de matrimônio civil, e também no religioso, com Saturnino Julio da Silva (Pinto) (nasc. 02/11/1853)[iv].

F2 – JOSÉ PINTO DE ARRUDA (1844 - 05/08/1928), c.c. Silvina (Rosa) Pereira de Jesus (Medeiros) (1854 - 15/04/1936), filha de Manoel Silvério de Bastos e Bernardina Pereira de Jesus[v].
Filhos:
N2.1 – Faustino Pinto de Arruda (05/04/1876 – 1959);
N2.2 – Honorata Pereira de Arruda (nasc. 1879);
N2.3 – Joaquina Pinto de Arruda (nasc. 1880);
N2.4 – Dorvalina Pereira de Arruda (nasc. 1883);
N2.5 – Sebastião Pinto de Arruda (nasc. 22/10/1885);
N2.6 – Isabel Pereira de Arruda (1888 - 25/02/1969);
N2.7 – José Pinto de Arruda Filho (nasc. 1888);
N2.8 – Joanna Pinto de Arruda (nasc. 1892);
N2.9 – Bernardina Pereira de Arruda (nasc. 12/04/1893);
N2.10 – Belizário Pinto de Arruda (nasc. 11/01/1899);
N2.11 – Enerícia Pinto de Arruda (nasc. 20/06/1901);
N2.12 – Manoel Pinto de Arruda (nasc. 10/10/1904 – 24/06/1994);
N2.13 – Maria Pinto de Arruda.

F3 – JANUÁRIO PINTO DE ARRUDA (10/07/1848 - 26/09/1924[vi]), c.c. Floripa Pereira de Jesus (1859 - 17/09/1916[vii]), filha de Manoel José Pereira de Medeiros (1833 - 22/08/1900) e Esmênia da Silva Muniz (Saldanha) (1832 - 05/05/1901).
Filhos:
N3.1 – Cesária Joaquina (nasc. 12/03/1881);
N3.2 – Francisca (nasc. 1884);
N3.3 – Manoel Joaquim de Arruda (nasc. 08/12/1885);
N3.4 – Pedro Pinto de Arruda (nasc. 07/07/1896);
N3.5 – Octacilio Pinto de Arruda.

F4 – FRANCISCA ROSA DE JESUS (de Arruda), “Chiquinha” (nasc. 10/10/1850), c.c:
Em primeiras núpcias: João Rodrigues de Souza (1843 - 03/07/1886), filho de Manoel Rodrigues de Souza (21/09/1796 - 18/09/1868) e de Anna Maria de Lima (20/08/1799 - 13/07/1863).
Nota: Manoel Rodrigues de Souza é filho de Matheus José de Souza e Clara Maria de Athayde.
Filhos:
N4.1 – Joaquina Rosa de Lima (nasc. 1871);
N4.2 – Anna de Souza Lima (1874 - 18/01/1916);
N4.3 – Manoel Pinto de Souza.
Em segundas núpcias: Antônio da Silva Mattos (15/10/1829 - 15/06/1916), “Tonico das Palmas”, filho de João da Silva Mattos (1799 - 26/04/1843) e de Ana Joaquina da Conceição Cardoso (falec. 1881). Sem filhos.

F5 – ROMUALDO PINTO DE ARRUDA, c.c. Leocádia Vieira Ramos, filha de Luiz José de Oliveira Ramos e de Maria Gertrudes de Oliveira Ramos. Casamento: 19 de julho de 1866, Lages[viii].
Filhos:
N5.1 – Idalino Pinto de Medeiros.

Manoel Joaquim Pinto (de Arruda Filho) faleceu em 27/06/1879, em São Joaquim-SC[ix], e foi sepultado no cemitério da Fazenda do Cedro.


Figura 1- Manoel Joaquim Pinto.



Figura 2 - Monumento Manoel Joaquim Pinto, ao lado da Prefeitura Municipal de São Joaquim-SC.



Figura 3 - Rua Manoel Joaquim Pinto (Fonte: Google Street View).


 Figura 4 - Rua Manoel Joaquim Pinto revitalizada. Fonte: Site Agência de Notícias São Joaquim Online.


Referências e Notas

PMSF, Prefeitura Municipal de São Joaquim. Monumento Manoel Joaquim Pinto. 2017. Disponível em: http://turismo.saojoaquim.sc.gov.br/item/detalhe/1364.

Para maiores detalhes sobre o Monumento Manoel Joaquim Pinto, acesse: http://saojoaquimonline.com.br/prefeitura/?p=18.

Inventário de Manoel Joaquim Pinto, 1880. Juízo Municipal da cidade de Lages, Processo nº29.1880 – cx 51 – na 2ª Listagem do livro de Gilberto Machado de 1999 “As Alforrias a partir da Análise dos Processos de Inventário da Comarca de Lages no Período de 1840-1888”.


[i] Batistério de Manoel Joaquim Pinto, 1808. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima.
[ii] Não, necessariamente, em ordem cronológica.
[iii] PALMA DE LIMA, Rogério. Documentos disponibilizados no site Genoom.
[v] Óbito de Silvina Pereira de Jesus, 1936. Documento disponibilizado no site Genoom por Rogério Palma de Lima. https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-621S-M5G?mode=g&i=64&wc=MQRQ-HPD%3A339728001%2C339728002%2C339820201&cc=2016197.
[vi] PALMA DE LIMA, Rogério. Dados disponibilizados no site Genoom. Fonte: Brazil, Catholic Church Records Santa Catarina Lages Nossa Senhora dos Prazeres Batismos 1847, Abr-1850, Dez, Image of 95/192; Óbito: https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-267-12454-20263-61?cc=2016197 e https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-267-12454-18567-89?cc=2016197.
[vii] PALMA DE LIMA, Rogério. Dados disponibilizados no site Genoom. Fonte: Óbito: https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-267-12454-15524-12?cc=2016197.
[viii] Matrimônio de Romualdo Pinto de Arruda e Leocádia Vieira Ramos, 1866. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima.
[ix] Óbito de Manoel Joaquim Pinto, 1879. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Nomes de Ruas e Praças de São Joaquim - Praça João Ribeiro

      Ismênia Ribeiro Schneider
Cristiane Budde


      Nomes de ruas e praças possibilitam que as pessoas se localizem e se locomovam com mais facilidade em uma cidade. Contudo, esses nomes, em geral, não se limitam apenas a orientar geograficamente os habitantes e turistas, e não são dados meramente ao acaso. Por vezes, fazem referência a acontecimentos históricos importantes ou homenageiam um personagem relevante para o país, estado, cidade ou região. Esse fato pode ser constatado também na cidade de São Joaquim (SC), ao observar nomes de ruas como Manoel Joaquim Pinto, Paulo Bathke, Inácio Palma, Bento Cavalheiro do Amaral, dentre outros.
Contudo, muitas vezes a história de quem deu origem ao nome das vias e praças acaba se perdendo “nas poeiras do tempo”, e a própria população desconhece a razão pela qual foi prestada tal homenagem. Dessa maneira, ressalta-se a importância do resgate histórico sobre as personagens que nomeiam os logradouros da cidade, proporcionando o conhecimento da história local para habitantes e pessoas que visitam ou pesquisam sobre a região. Este dado histórico fornece substrato para um resgate cultural e cidadão da localidade, pois o povo que conhece sua história sabe localizar-se melhor em seu presente e planejar com mais segurança seu futuro. 
Iniciamos hoje, portanto, uma série de matérias em que serão apresentados estudos sobre diversos personagens que deram nome às praças e ruas de São Joaquim (SC). Começamos com João da Silva Ribeiro Júnior, “Cel. João Ribeiro”, que deu nome à praça central da cidade.

PRAÇA JOÃO RIBEIRO

            A praça central da cidade de São Joaquim (SC) recebeu o nome de “Praça João Ribeiro”, em homenagem a João da Silva Ribeiro Júnior. Da mesma forma, a praça em frente à Catedral Diocesana Nossa Senhora dos Prazeres de Lages (em Lages, SC) também recebeu seu nome. “Coronel João Ribeiro”, como era conhecido, foi político influente na região, chefe do Partido Conservador no tempo do Império na Região Serrana, que continuou a comandar depois de proclamada a República, já então com o nome de “Partido Republicano”.
            É um personagem muito importante para a história local, pois foi um dos fazendeiros fundadores da Freguesia de São Joaquim da Costa da Serra, no dia 1º de abril de 1873, quando desempenhou a função de chefe do Conselho Fiscal. De 1891 a 1895 foi nomeado 2º Intendente da cidade (Prefeito), e desempenhou a função de Presidente da Câmara de Vereadores de Lages nos anos de 1875 e 1878.
Coronel João Ribeiro.


Praça João Ribeiro em São Joaquim. Ao fundo, Igreja Matriz. Fonte: site café com bagagem.


Praça João Ribeiro, em Lages. Ao fundo, a Catedral Diocesana Nossa Senhora dos Prazeres de Lages. Fonte: Cartão postal de Lages (Fonte: paulomarques.net).
  

            Cel. João Ribeiro nasceu em 29 de março de 1819, em Lages (SC). Casou-se em 17.05.1845, em Lages, com Esmenia Baptista de Souza, filha de João Batista de Souza, “Inholo”, (19/01/1800 - 13/08/1850) e de Maria Gonçalves do Espírito Santo (1802 - 19/08/1882). O casal residia na Fazenda São João de Pelotas, e teve dez filhos, dos quais apenas dois eram homens.
Cel. João Ribeiro era filho de João da Silva Ribeiro (Sênior) (1878 – 1868) e de Maria Benta de Souza (1790 – 1857), sendo, portanto, descendente de duas famílias importantes na região: a Ribeiro e a Souza.
Para mais informações sobre seus ancestrais e filhos, visite o link: http://genealogiaserranasc.blogspot.com.br/2011/02/vida-familiar-e-politica-do-coronel.html.

João da Silva Ribeiro Júnior e Esmênia Baptista de Souza.


João Ribeiro faleceu em 10 de maio de 1894, com 75 anos, na Fazenda Limoeiro[1] (Quarteirão do Pelotinhas), Coxilha Rica, em Lages. Foi enterrado no cemitério particular de Pelotinhas, devido a perturbações da ordem ocasionadas pela Revolução de 1893. No dia 10 de maio de 1897, três anos após sua morte, seus restos mortais foram transladados para o Cemitério público de Lages, o “Cruz das Almas”, após missa solene cantada na Igreja Matriz, oficiada pelo Reverendíssimo Padre Rogério Nenhaus. Nessa ocasião foram distribuídas esmolas aos pobres, em honra à memória do falecido, cidadão dos mais ricos da região, mas conhecido por sua simplicidade e generosidade.
Por ocasião do inventário de Inholo (pai de Esmenia), após o seu assassinato por dois escravos em 13 de agosto de 1850, a grande fazenda de São João de Pelotas foi herdada pelos quatro filhos naturais (Maria Benta, Esmênia, Maria Magdalena e Marcos). O Casal Esmênia e Coronel João Ribeiro adquiriu toda a propriedade dos demais herdeiros, não sabemos ainda como, mas provavelmente por permuta e compra. É só a partir daí que a fazenda recebe essa denominação, antes era chamada “Fazenda São João”. Todo o seu território, bem mais tarde, se transformou num distrito do município de São Joaquim, com o nome de São João de Pelotas. Em 1858, a nova sede mandada construir pelo Coronel João Ribeiro estava pronta. Para defesa do frio intenso da região, a maioria das fazendas localizava-se em zonas baixas, e assim aconteceu com essa: do alto das coxilhas que a rodeavam avistava-se um impressionante conjunto de casa, benfeitorias e taipas, tudo em “pedra-ferro” (basalto), sede de fazenda que se transformaria em referência na Região Serrana. As ruínas das taipas ciclópicas atestam ainda a grandiosidade do que foi o latifúndio construído por João da Silva Ribeiro Júnior.
Dos quinhentos inventários da Comarca de Lages, referentes ao período 1840-1888, e os dezenove pertencentes à Comarca de São Joaquim, período de 1888-1940, o que denota a maior fortuna da Região nesse período é a do Cel. João Ribeiro, seguida pela de Inácio da Silva Mattos, na época do inventário de sua mulher, Ismênia Pereira Machado, falecida em 1934 – Inácio e Ismênia Palma – casal fundador da Família PALMA de São Joaquim, cujo monte-mor (montante de bens) alcançava 333:921$000. O montante dos bens de João Ribeiro era de 406:016$370. A terceira maior herança pertenceu a Vidal José de Oliveira Ramos, no valor de 286:111$500. Vale ressaltar que, segundo o historiador Gilberto Machado, quem tivesse a partir de dez contos de réis, era “remediado”. Esta análise sobre as fortunas é relativa, pois naturalmente, perderam-se, ou estão arquivados em lugar desconhecido, muitos inventários além dos aqui referidos, que se encontram a salvo no Museu do Judiciário Catarinense, em Florianópolis e os de São Joaquim no Fórum daquela cidade.
Mais informações sobre o inventário do Coronel João Ribeiro podem ser encontradas no link: http://genealogiaserranasc.blogspot.com.br/2011/04/coronel-joao-ribeiro-um-dos-dez.html.


REFERÊNCIAS

Caderno de Enedino Batista Ribeiro. Acervo pessoal de Ismênia Ribeiro Schneider.

Inventário judicial sem testamento de João da Silva Ribeiro, do ano de 1894, Processo nº 76, Fls 1, arquivado no Juízo de Direito da Comarca de São Joaquim da Costa da Serra, Província de SC. Em julho de 2007, encontrava-se arquivado na 2ª Vara Civil, no cartório sob responsabilidade da escrivã D. Josenádia Vicentini de Nardi, Fórum de São Joaquim, SC.

Inventário João Baptista de Souza, 1850, arquivado na pasta 43 (0-10), no Museu do Judiciário Catarinense.

Certidão de batismo de João da Silva Ribeiro Júnior. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima. Disponível em: https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-1-9835-75988-44?cc=1719212&wc=MMLV-SVB:1784094033

Certidão de Matrimônio João da Silva Ribeiro Júnior e Esmênia Baptista de Souza. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima. Disponível em:  https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-267-12415-26157-57?cc=1719212&wc=11578550

Certidão de Óbito de João da Silva Ribeiro Júnior. Documento fornecido por Rogério Palma de Lima. Disponível em:    

Obs.: O arquivo morto da 2ª Vara do Fórum de São Joaquim foi transferido para o Museu do Judiciário de SC, em Florianópolis.
  



[1] A Fazenda do Limoeiro era de propriedade Moysés da Silva Furtado (1832 – 04.08.1900), casado com Emília Baptista de Souza (nasc. 01/04/1852), filha do Cel. João Ribeiro. Moysés era filho de José da Silva Furtado e Joaquina Maria do Espírito Santo.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Maíra

Na postagem de hoje, apresentamos um conto escrito por Ismênia Ribeiro Schneider, baseado em uma história real da sua família.

Maíra
(Ismênia Ribeiro Schneider)

Sentado na varanda, em frente à casa, Marcos ritmava os pensamentos com a cadência da cadeira de balanço, recordando aquela primeira conversa:
– Essa é a história mais estranha que já ouvi; o fato de ela ser sua filha me intrigava, confesso.
– Minha mulher e eu não costumamos contá-la aos estranhos que muitas vezes se hospedam aqui em São João de Pelotas.
– Por que, pode me dizer?
– Ela é como se fosse nossa filha de verdade e não achamos que precisamos dar explicações sobre o fato de ser índia. Não é da conta de ninguém.
– E por que abriram uma exceção para mim?
– O senhor vai ficar por aqui três meses. Há muita lenda em torno da menina e preferimos que conheça a versão correta.
– Eu lhe agradeço a confiança!
– Muito bem, rapaz! Já que vai morar conosco uns tempos, é bom que se acostume com o jeito diferente dela. Minha mulher ensinou-lhe tudo o que uma moça da nossa condição deve saber, mas não conseguimos dominar o seu temperamento índio e desistimos. Ela é feliz e isso é o que importa. Veio preencher a enorme falta de filhos que tínhamos. Vive mais livremente que qualquer moça daqui e não se sujeita aos padrões normais...
Chegara há quinze dias. Era mascate e viera de São Paulo entregar às fazendas da região as encomendas do Natal. Substituía o pai, cansado de viajar. Este não lhe contara, porém, sobre Maíra, a filha índia do Coronel Licurgo Machado. Ela o intrigara desde o momento em que a vira pela primeira vez, cavalgando, à maneira masculina, um garanhão, sem o costumeiro selim usado pelas mulheres. Era tranqüila e calada, mas tão intensamente viva que as outras pessoas pareciam sombras a seu lado. Achara-a bela, com os olhos de sua raça, muito grandes e negros; negros, longos e espessos os cabelos. Raramente sorria e pouco falava; quando o fazia, porém, a voz macia, pausada e feminina fazia bem, acostumado que estava com as vozes estridentes de suas conterrâneas. Não era muito alta, mas esguia, sem nenhuma gordura. Os malares largos era o que menos lhe agradara, mas com o passar dos dias foi vendo que aqueles olhos só ficariam bem naquela estrutura óssea.
Havia uma ameaça velada nas palavras do coronel. O pai o alertara severamente sobre o perigo de se envolver com as mulheres das fazendas, quer as senhoras, quer as mulheres e filhas dos peões; mesmo com as escravas não era seguro meter-se. Ali a honra era lavada com sangue e a justiça feita pelos próprios coronéis.
Então fora assim que ela se tornara filha da casa? A mãe que surgira das bandas do Rio Grande e viera dar na fazenda, do lado catarinense do rio Pelotas. Não contara de quem ou de que fugia. Simplesmente aparecera, só e grávida. Afeiçoara-se ao casal e, ao morrer, por ocasião do nascimento da filha, entregara-a a eles. Registrada legalmente, chamaram-na Maíra – a única – em língua indígena.
Na Europa, e mesmo nas grandes cidades brasileiras do litoral, as mulheres já gozavam de alguma liberdade, mas ali, neste ano de 1850, ainda vigoravam rígidas leis... mulher não devia aprender a escrever, nem andar sozinha, nem escolher o próprio marido, etc. Interessante terem-na educado assim. Montava como um rapaz, acompanhava o pai na supervisão da fazenda, tivera professor por quatro anos, andava sozinha pelas redondezas... Devia ser motivo de escândalo e curiosidade na pequena vila de São Joaquim, onde passavam o Natal. O poder do coronel fechava as bocas, imaginava...
Os dias continuavam a correr tranquilos. Afora às vezes em que negociava nas fazendas vizinhas, participava de todas as lidas do campo: vacinações e o sal, dado ao gado nos rodeios. Nas invernadas mais distantes ficava o gado chucro, atendido por todo pessoal da fazenda, ajudado, às vezes, pela vizinhança. Esse trabalho era o mais perigoso; só se podia fazê-lo a cavalo, quando os melhores laçadores tinham ocasião de mostrar suas habilidades. Assistira um touro matar um dos cavalos e, por pouco, não fazer o mesmo com o peão. Nessas ocasiões era morta uma rês gorda, e o moquém armado no próprio local do rodeio. Aos sábados, os peões iam ao “poço fundo”, no Pelotas, nadar e tomar o “banho geral”. Todas as noites, no galpão, fazia-se “fogo de chão”, assava-se uma manta de charque ou era feito um arroz carreteiro; assavam milho verde no espeto e o café de tropeiro era servido, quentíssimo, em canecos esmaltados, a “pinga” correndo a roda. As conversas se prolongavam e muitos “causos” eram contados, de assombração, de valentias com onças, cobras e gado bravo... O coronel aparecia e participava das rodadas, fumando o seu “paieiro”. A casa grande também possuía a sua “cozinha de chão”, onde a família se reunia com as escravas.
A admiração de Marcos crescia, à medida que os dias passavam. A perfeita organização e autonomia da propriedade, a atividade incessante, a calma e tranquilidade do lugar o encantavam. Perguntava-se amiúde se não preferiria pertencer a essa gente altiva, dura, mas hospitaleira. Mas sendo o que era, um paulista até a raiz dos cabelos, nada o fazia esquecer o burburinho, o movimento, a vida noturno de sua cidade... Nada? Já não estava tão certo. Tinha que confessar que uma avassaladora paixão o empurrava para a jovem índia.
Não poderia precisar quando as coisas começaram a acontecer. Sentia a atenção concentrada e intensa dela. Havia como que um fluido entre eles. Procurava disfarçar. Dona Cidinha não era nenhuma tola, menos ainda o coronel. Será que eles não sentiam a tensão? Precisava fugir enquanto era tempo! Mas o próprio perigo o atraía. Observava-lhe os movimentos envolventes. Era como uma aranha tecendo, inexoravelmente, a teia: plácida, suave e ternamente. Ela mesma planejava os encontros; Marcos não compreendia como descobria todos os passos que dava, pois estava sempre invisível. Surgia de repente, com tal intensidade de presença que o deixava estonteado. Quando, afinal, tudo aconteceu, ele nada mais fez do que se deixar levar. Enquanto não estava com ela, sofria cada minuto da ausência, e quando estavam juntos, assustava-o a violência daquele amor.
Estava metido até o pescoço numa enrascada; por mais que a moça o tivesse preso, não perdia a sensação da urgência da fuga. E começou a planejá-la. Já estava completando o terceiro mês na região, fizera todas as entregas e aproveitaria a visita à última fazenda para desaparecer. Nada o salvaria, se descoberto. Para não levantar suspeitas deixaria parte de suas coisas. Isso lhe daria uns dois dias de vantagem. Sentia-se um miserável, um traidor! Mas não tinha coragem de fazer a troca... De noite terminou os preparativos e durante o “fogo de chão”, avisou que ia à fazenda do coronel Amâncio. Com Maíra fez a despedida costumeira de dois a três dias de ausência. Escuro ainda, partiu. Ao dobrar o morro, de onde se avistava toda a sede, a casa grande, a senzala, os galpões, as mangueiras redondas de taipa, voltou-se para um último adeus. Ao chegar ao mato, perto do rio, no vau que dava passagem, ouviu o barulho de folhas e galhos, pisoteados por um cavalo. Os cabelos da nuca arrepiaram-se, o coração disparou loucamente. Pensou rápido. Parecia haver um único homem, o coronel, naturalmente, mas deveria haver muitos, atocaiados no mato que precisava passar. Não poderia voltar. Engatilhou o revólver no momento exato em que um cavalo saltou, empinando, do barranco. Teve apenas tempo de reconhecer o cavaleiro e desviar o tiro que foi perder-se no meio das árvores. À sua frente, com um 38 apontado, Maíra encarava-o, friamente. Quando e como descobrira? Não demonstrara, em nenhum momento, saber da sua intenção. Aquela terrível percepção índia... não a levara em conta. Não adiantava falar, não havia justificativa para a vilania... restava morrer. Guardou o revolver e esperou.
Foi então que ouviu a frase mais longa desses três meses:
– Vai voltar comigo e casar, porque o meu filho não vai ficar sem pai! Sabe agora que nunca conseguirá escapar, pois não haverá uma segunda chance para o senhor.
Envergonhado, humilhado, surpreso, Marcos virou o cavalo, finalmente livre do peso da decisão...