segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Frei Rogério: O Apóstolo do Planalto



            Na matéria de hoje apresentamos mais informações sobre Frei Rogério, frade missionário que ficou conhecido na Serra Catarinense como o “Apóstolo do Planalto”, onde permaneceu por quase três décadas atuando como sacerdote e cuidando de enfermos.
            Como mencionamos na postagem anterior, Frei Rogério nasceu na Alemanha, em Borken, em 29 de novembro de 1863. Seu nome de batismo era Henrique Neuhaus, terceiro filho do casal João Geraldo Neuhaus e Cristina Haddick[i]. Vindo de um ambiente familiar religioso, aos 17 anos demonstrou sua vontade em se tornar religioso, apresentando-se no Convento de Harreveld, Holanda, onde foi aceitoi


Frei Rogério Neuhaus, OFM: grande missionário do Planalto Catarinense. Pintura de Frei Rogério, sem identificação de autoria, exposta no Convento Franciscano, OFM, em Lages-SC. Captura da imagem: julho de 2019, por Toni Jochem, a quem agradecemos.

Detalhe do quadro anterior. Captura da imagem: julho de 2019, por Toni Jochem.


            Destacamos aqui um trecho da biografia de Frei Rogério, disponibilizada no site da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (OFM)[ii]:

No dia 03 de maio de 1881 recebeu o burel[iii] e o nome de Frei Rogério, iniciando com fervor a escalada para a santidade.
Na catedral de Pederborn, Alemanha, foi ordenado sacerdote, aos 17 de agosto de 1890, pelo bispo Dom Agostinho Gockel.
Levado pelo ideal missionário, associou-se à segunda leva de restauradores da Província da Imaculada Conceição do Brasil: 4 sacerdotes e 4 irmãos religiosos leigos.
Aportaram a 02 de dezembro de 1891 em Salvador, BA, mas já no dia seguinte prosseguiram viagem para o sul, desembarcando no Desterro (antigo nome da capital do Estado de Santa Catarina: Florianópolis) e chegando dia 12 de dezembro de 1891 em Teresópolis (agora: Vila Teresópolis, SC), a primeira residência dos frades restauradores no sul do Brasil.
Em 13 de fevereiro de 1892, foi enviado a Lages, SC, seguindo com tropeiros para o novo destino, que seria por longos anos seu campo de ação e de santificação, tornando-se verdadeiramente o “Apóstolo do planalto catarinense."

            Antes de vir ao Brasil, Frei Rogério já se mostrava atencioso para com os enfermos, conforme aponta Juliano Florczak Almeida (2019), em tese de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS:

 Quando estudava na Europa, cuidou dos colegas acometidos pelas epidemias de gripe. [...] Essa mesma atenção atravessou o oceano. E quando houve surto de gripe espanhola em Porto União e União da Vitória, cidades da fronteira entre Santa Catarina e Paraná onde frei Rogério atuou como vigário, novamente, o frade auxiliou os doentes. Era 1918 e, conforme escreveu um confrade de Rogério que também atuava na região à época, o número de gripados fora grande: A cidade toda parecia transformada num grande hospital”. De acordo com o mesmo franciscano, frei Rogério visitava todas as casas e tratava do corpo e da alma: “E frei Rogério, o anjo da caridade, ia de casa em casa, quase sem parar nem descansar, levando remédios para corpo e alma, [...] e tudo isso, quando ele mesmo se sentia fraco e meio gripado[iv].


Recortamos também desta tese (ALMEIDA, 2019), alguns trechos interessantes, que contam um pouco da trajetória do Frei no Planalto Serrano:

Não apenas em circunstâncias epidêmicas ou de guerra que se ocupava com os enfermos. O cuidado aos doentes fazia parte das tarefas diárias do período em que atuava no planalto catarinense: “Almoçava em seguida, esquecendo-se sempre a si mesmo, e contentando-se com o que lhe ofereciam, fosse o que fosse. Se já não o fizera de manhã, depois do almoço ia à procura de doentes, tendo que montar a cavalo e andar, às vezes, horas inteiras, fosse qual fosse o tempo” (SINZIG, 1939, p. 100 - grifos meus).
O frade saia à procura dos doentes assim como eles vinham em busca do auxílio do franciscano. [...].
[...] em Lages faltava o tempo, pois eram-lhe reclamados os serviços de sacerdote e de samaritano a cada hora. [...] Semanas depois [de peregrinar pela paróquia], regressava para Lages, onde, Deus sabe como, a notícia da sua volta, num instante, chegava a todos os recantos, fazendo muitas e muitas pessoas seguirem ao convento, para pedir algum remédio, ou procurando-o para visitar este ou aquele enfermo [...] (SINZIG, 1939, p. 97–100).
Não por acaso, frei Rogério também era acudido quando em enfermidade. Dia 23 de janeiro de 1912, ele ficou doente no município de Curitibanos. O médico que lhe atendeu ordenou que o levassem, às pressas, para Lages. Em pouco tempo, um confrade de frei Rogério juntou cerca de 30 homens para carregá-lo a um lugar com mais recursos. Quanto mais nos aproximamos da cidade de Lages, mais crescia a procissão, contou o confrade (SINZIG, 1939, p. 243-245).

[...] logo que chegou ao planalto catarinense, frei Rogério percebeu na população da região certa carência de assistência à saúde. Essa necessidade se ratifica pelo fato de que também os monges João Maria e José Maria distribuíam medicamentos. Diante dessa precisão, recorreu à medicina homeopática, que surgira na sua Alemanha natal no século anterior: “Mandou vir, então, uma farmaciazinha portátil, de homeopatia, começando a dar remédios a quem lhos pedia e a oferecê-los, ao encontrar algum doente” (Idem.). Não abandonou a atividade sequer quando a região já contava com médicos: “Mesmo quando, mais tarde, Lages já tinha um e mais médicos, à portaria do modesto conventozinho franciscano e viam constantemente pessoas da cidade e caboclos vindos de fora, com uma garrafa à mão, à espera de Frei Rogério e de seus remédios” (Idem).”
Na época em que frei Rogério chegou à região de Lages (final do século XIX), os matos nativos predominavam no planalto catarinense e as estradas eram inexistentes e os meios de transporte, precários (SINZIG, 1939, p. 92). Ainda assim, frei Rogério atuava em uma extensa área: Era maior do que muitos bispados, a imensa paróquia, que frei Rogério percorria, ora como coadjutor, ora como vigário [...]. Abrangia não só o extenso município de Lages, mas ainda os de São Joaquim, de Curitibanos e de Campos Novos, isto é, até às fronteiras, ao norte, do Paraná e, no sul, do Rio Grande. (Ibid., p. 92)”.


Em 1922, quando estava em Palmas (PR), Frei Rogério percebeu que estava perdendo a visão. Ao consultar um médico e verificar a gravidade da situação, foi aconselhado a procurar um centro mais equipado. Assim, transferiu-se para São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiroi. Foi internado na Casa de Saúde São José, com câncer generalizado nos intestinos, em 01 de março de 1934. Faleceu alguns dias após, em 23 de março de 1934i, com fama de santidadeiv.


Frei Rogério. Fonte: Folha D'Ouro Verde: Informação ao alcance de todos![v]. 



Referências e notas


[i] FRANCISCANOS, Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Frei Rogério Neuhaus. Disponível em: https://franciscanos.org.br/quemsomos/personagens/frei-rogerio-neuhaus/. Acesso em 09 set. 2019.

[ii] FRANCISCANOS, Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Frei Rogério Neuhaus. Disponível em: https://franciscanos.org.br/quemsomos/personagens/frei-rogerio-neuhaus/. Acesso em 09 set. 2019.

[iii] Burel: Tecido grosseiro de lã, mais comumente de cor parda, castanha ou preta, para a confecção de vestes de religiosos (Dicionário Michaelis Online, http://michaelis.uol.com.br/).

[iv] ALMEIDA, J. F. Atos dos Bons Samaritanos – Romanização e Medicalização na Vida de Religiosos Católicos. Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/194453/001093312.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 09 de setembro de 2019.

[v] FOLHA D'Ouro Verde: Informação ao alcance de todos! Frei Rogério Neuhaus: O Apóstolo do Planalto.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O PRIMEIRO BISPO NA SERRA CATARINENSE E OUTRAS CURIOSIDADES


        
Na matéria de hoje, apresentamos um texto enviado por Henrique Brognoli Martins, que descreve a passagem do primeiro Bispo Diocesano pela Serra Catarinense. Depois de uma breve introdução, seguem relatos de um diário e escritos de Frei Rogério, que narram um pouco da viagem do Bispo Dom José Camargo de Barros.
Frei Rogério era o terceiro filho de João Geraldo Neuhaus e Cristina Haddick, e nasceu em “29 de novembro de 1863, em Borken, Alemanha”[i]. O Frei “veio ser missionário no Brasil em 1891. Depois de atuar por quase três décadas no planalto de Santa Catarina, foi transferido ao Rio de Janeiro, onde acabou falecendo em 1934 com fama de santidade. Cuidadoso com os enfermos, distribuía remédios homeopáticos, visitava hospitais e doentes em suas casas, levando sacramentos e promovendo curas por meio de sua bênção” (ALMEIDA, 2019, p. 18).

Nota: Na próxima matéria, falaremos mais sobre Frei Rogério, que ficou conhecido na Serra como o “Apóstolo do planalto catarinense”.


"VERDADEIRA ORIGEM DO NOME DO CAMARGO", UMA BEBIDA MATINAL TÃO APRECIADA NA REGIÃO SERRANA CATARINENSE E GAÚCHA
(por Henrique Brognoli Martins
e João Carlos Martins Sbruzzi)


Abaixo, segue texto do livro de Frei Rogério (Rogério Neuhaus), de 1913, sobre uma viagem a São Joaquim em 1898, e relatos do diário de viagem do Dom José Camargo de Barros, bispo de Curitiba, que foi designado, aos 35 anos, pelo Papa Leão XIII, como o primeiro Bispo de Curitiba, em 16 de janeiro de 1894. Porém, faleceu em 04 de agosto de 1906, no naufrágio do transatlântico Sírio, no litoral da Espanha, quando retornava de Roma.

O relato da viagem é muito interessante, pois destaca as dificuldades de uma viagem à serra catarinense, o clima, o povo da época, costumes e, principalmente, a hospitalidade dos moradores e fazendeiros que acolheram a comitiva.

Nota: Mais informações sobre O Bispo Dom José Camargo de Barros em: http://www.arquisp.org.br/historia/dos-bispos-e-arcebispos/bispos-diocesanos/dom-jose-de-camargo-barros

Um fato interessante na história da Serra Catarinene, é que o Dr. Nilo Sbruzzi, dentista, juntamente com Dr. Gil Ungaretti, também dentista, oriundo de Laguna, atendiam o chamado dos fazendeiros da região para tratamento dentário de seus familiares e empregados, como era costume na época. Dessa forma, os dois acabavam percorrendo várias fazendas, entre elas a Fazenda do Socorro, onde por conta do grande número de pacientes, permaneceram por longa temporada.

O Dr. Nilo relatava que a bebida típica dos serranos denominada “camargo”, tem origem no nome do Bispo Dom Camargo, que, quando de sua visita à região serrana de Santa Catarina, apreciou muito a bebida.

 Dr. Nilo soube da origem do nome da bebida “camargo” pela crônica familiar,  pois a sua passagem pela Fazenda do Socorro resultou no casamento com a Maria de Lourdes Ribeiro Martins, filha de Adolfo José Martins e Dolores de Souza e Oliveira Ribeiro. Era também bisneta de Matheus Ribeiro, que em 1898 hospedou a comitiva de Dom Camargo na sua Casa de Pedra, sede da Fazenda do Socorro.

O “camargo” consiste no café preto engrossado, com apojo (leite mais consistente da vaca, ordenhado depois de se tirar o primeiro que é mais ralo). O clima frio dá uma personalidade única aos costumes e tradições da região serrana, e o “camargo” é até hoje a  bebida quente tradicional das manhãs geladas, tomado quase sempre nos galpões da ordenha. Esse costume se fez presente inicialmente na região serrana, desde a Coxilha Rica, em Lages, até a Costa da Serra. Posteriormente, foi divulgado e adotado aos poucos por outras regiões, inclusive a vizinha Serra Gaúcha.


Relato da Viagem
(Texto de Frei Rogério)

As condições religiosas  no Brasil nos últimos decênios, mudaram muito. A vinda de um Bispo – havia tão poucos em todo Brasil – a Lages era um acontecimento de todo extraórdinário.

O primeiro bispo – conta Frei Rogério nas suas recordações – que visitou a região serrana de Santa Catarina, foi Sua Excelência Dom José Camargo Barros, bispo de Curitiba. Ainda hoje (1913), decorridos quinze a dezesseis anos, todos falam com amor e veneração do piedoso e bondoso bispo, que por suas maneiras afetuosas, ganhou todos os corações.

Veio por Laguna e Tubarão para São Joaquim, que em 1898, pertencia a Paróquia de Lages. O reverendo padre frei Redento tinha se encarregado dos preparativos da recepção, chegando Sua Excelência Dom José Camargo Barros a São Joaquim em meados de outubro de 1898, de onde prosseguira a viagem para a pequena povoação de Painel, onde alguns dias antes, tinham chegado vários sacerdotes, a preparar o povo para a recepção dos santíssimos sacramentos.

Pelo fim de outubro, Sua Excelência chegou a Lages, sendo hospedado do modo mais cordial, pelo senhor Vitor Alves Brito. Embora, nesse tempo, a maçonaria começasse a levantar a cabeça, a população estava muito entusiasmada, sendo grande o número dos que receberam os santíssimos sacramentos. Na Festa de Todos os Santos e no dia de Finados, a igreja estava repleta até o último canto.

“O Padre Redento tinha ido esperar-me em Orleans, de modo que, de Orleans para cá, vieram o Padre Redento e o Padre Bernardo de Tubarão (Padre Bernardo Freuser, pároco de Tubarão de 1897 a 1908). O Padre Larcher voltou para Tubarão a fim de seguir para Desterro. Os Padres Others, Frederico e Antônio Manno ficaram em Orleans para fazer algum serviço.”

“O caminho vai margeando o rio Tubarão acima, depois rio Novo acima e, depois, rio Laranjeiras acima.”

E, no dia 19, quarta-feira (outubro de 1898), há nova informação: “Levantamos às 5 horas, tomamos café, partimos às 7. Os companheiros de Orleans aqui ficaram todos, seguimos acompanhados do mulatinho José e do moço Polycarpo, trazidos pelo Padre Redento, este morador do Distrito de São Joaquim, aquele de Lages.”
“Hoje fizemos a dificílima passagem da Serra do Imaruím, gastamos de um pouso [Brusque, uma localidade do município de Orleans] a outro pouso, (casa do Sr. Matheus Ribeiro) [Casa de Pedra – Sede da Fazenda do Socorro], 9 horas; saímos às 7h e chegamos às 4.”

“Ao meio dia chegamos ao pé da serra, sestiamos e comemos um bom virado, que o Padre Redento fez arranjar na casa de Henrique Messer... Na subida só da serra gastamos hora e meia. O caminho é feio e horroso, em toda a minha excursão no Paraná e neste Estado não encontrei ainda um caminho tão horroso, e como diz o Francisco, não se pode explicar, é um caminho estreito, no fundo de uma garganta no meio de montanhas altíssimas, formado de pedras soltas, de todos os tamanhos e tão íngreme que o nível de 5 metros para diante na subida passa por cima do cavalo e do cavaleiro”.

“Em cima da serra já se descortina o aspecto, semelhante ao do Paraná, campos, pinheiros e frio.”

“Chegamos às 4 da tarde... às 8 horas da noite chrismei algumas pessoas da família do Sr. Matheus Ribeiro”.

E fala, então dos compadrios ali, adiquiridos, por ter sido padrinho de várias pessoas daquela família, que enumera.
Neste ponto, o diário passa para o livro nº 24 e assinala 20 de outubro, quinta-feira, quando diz:
“Ao meio dia, todos a cavalo, partimos para a casa do Sr. Manoel Rodrigues (Fazenda Bonsucesso) onde chegamos às 4 da tarde: o tempo esteve muito bom... em casa do Sr. Manoel Rodrigues nada fizemos... nos deram um jantar e um almoço no dia seguinte”.

Já na sexta-feira, dia 21 de outubro, as informações são mais circunstanciadas:
“Almoçamos e partimos as 9 horas da manhã, sendo acompanhado pelo Luciano Rodrigues, irmão, sobrinho Luis e mais alguns moços, chegando a São Joaquim às 2 horas da tarde”.

“Do Matheus Ribeiro ao Manoel Rodrigues, 4 léguas, e deste à Vila de São Joaquim, 5 léguas. O tempo continua muito bom, claro e fresco... Meia légua distante de São Joaquim fomos entrados por mais de 30 cavaleiros, que da vila vieram ao nosso encontro. Na porta da casa onde ficamos residindo nos esperavam a banda de música e os principais do lugar. Logo que apeamos, o Juiz de Direito Dr. Américo Cavalcanti Barros fez um discurso.”

“Às 6 horas da tarde fizemos a entrada solene, conforme o costume, sendo precedido pela Irmandade do Santíssimo, uma turma de anjos, outra de virgens, e acompanhado pela banda de música e todo o povo, que não é muito”.

“Aqui encontramos os Padres Oswaldo e Meinolpho, que já estavam trabalhando em preparação do povo.
“Tenho observado que por aqui há muita saúde e muito vigor: são fortes, grandes e corados.”

E, sabado dia 22, anota que crismou 130 pessoas. Já no domingo 23, merece alguns registros especiais:

“Do meio dia às duas paguei as seguintes visitas: Família Palma, João Pereira, Antonio Pereira, Matheus Ribeiro, Bernardino Esteves, etc.
Às 2 horas chrismei 271 pessoas.
O tempo tem estado esplêndido, de dia um sol radiante, de noite um luar magnífico e doce”.

E, na segunda-feira, dia 24, à tarde, fez visitas de despedida.
Finalizou a sua visita a São Joaquim, dia 25 de outubro de 1898, do que afirma:

“Celebrei às 8 horas e, em seguida, chrismei ainda 43 pessoas, perfazendo o número de  chrismas em São Joaquim, mais de 700. Almoçamos e, ao meio dia, acompanhados pela música e por todas as famílias, fomos a pé até o fim da rua, onde montamos a cavalo e fomos acompanhandos, até uma certa altura, por mais de 150 cavaleiros.”

“O Manoel Pereira, que já tinha enviado antes sua mulher, nos acompanhou até sua fazenda, onde descansamos um pouco e tomamos um café com muita mistura.”

“Chegamos, ao entrar do sol, em casa do Zeca Thomás, que está perto da margem do grande rio Lava Tudo”.

“Jantamos às 9 horas da noite, feijão e peixe frito, arroz e galinha”.

E, no dia 26, quarta-feira, as informações são deste tom:

“O Padre Redento, às 5:30 partiu para o Painel, a fim de tomar as providências para nossa chegada”... “Tomamos um bom leite e às 8:30 almoçamos:  feijão e peixe, arroz com carne picada e café .....às 10 horas partimos, tendo atravessado o Rio Lavatudo em canoa. Do outro lado do rio, montamos e partimos em direção ao Painel, pequena povoação, que não é ainda paróquia, nem freguesia.”... “fomos encontrados por 150 cavaleiros, tendo a frente o incansável Padre Redento, que havia tudo arranjado para nossa chegada.”

“Tendo partido às 10 horas, aqui chegamos às 2 da tarde”...
“Aqui (Painel) não tem música, nem irmandade”.    

------

A título de curiosidade, acrescentamos abaixo a assinatura de Frei Rogério, que consta em um documento localizado no site Family Search.

Assinatura de Frei Rogério em documento no site Family Search, Registros de batismo, São Joaquim, Igreja Católica, 1714-1977.


---




Fontes:

ALMEIDA, J. F. Atos dos Bons Samaritanos – Romanização e Medicalização na Vida de Religiosos Católicos. Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/194453/001093312.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 14 de agosto de 2019.

ARQUEDIOCESE de São Paulo, História dos Bispos e Arcebispos. Dom José Camargo de Barros, 12º Bispo Diocesano (1903-1906). Disponível em: Bispo Dom José Camargo de Barros em: http://www.arquisp.org.br/historia/dos-bispos-e-arcebispos/bispos-diocesanos/dom-jose-de-camargo-barros.

CADERNOS de Blumenau - Livro do Frei Rogério 1913.

Contribuições: João Carlos Martins Sbruzzi e Henrique Brognoli Martins.

FAMILY SEARCH, Registros de batismo, São Joaquim, Igreja Católica, 1714-1977.

REVISTA do Instituto Histórico e Geográfico de SC ano 1984.

Relatos de Nilo Sbruzzi e Manoel Cecilio Ribeiro Martins.


[i] FRANCISCANOS, Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Frei Rogério Neuhaus. Disponível em: https://franciscanos.org.br/quemsomos/personagens/frei-rogerio-neuhaus/. Acesso em 04 set. 2019.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Homenagem a Manoel Cecilio Ribeiro Martins



          Dedicamos a matéria de hoje a Manoel Cecilio Ribeiro Martins, descendente de duas importantes famílias serranas, a Ribeiro e a Souza. Manoel Cecílio Ribeiro Martins nasceu em 08 de agosto de 1922, em Lages, e faleceu na semana passada, em 16 de agosto de 2019, com 97 anos de idade.
Foi casado com Maria do Carmo Brognoli (nasc. 18/11/1932).

Manoel Cecílio Ribeiro Martins era:
- filho de Dolores de Souza Ribeiro (19/09/1891 – 25/06/1928) e Adolfo José Martins (15/03/1884 - 23/10/1968);
- neto materno de Manoel Cecílio Ribeiro (15/01/1856 – 02/04/1917) e de Rozalina de Souza e Oliveira (23/01/1871 - 05/03/1932);
- bisneto de Matheus Ribeiro de Souza (1829 – 18/11/1900) e de Maria Magdalena Batista de Souza (1833 - 21/11/1867) (filha de João Batista de Souza – “Inholo” [nasc. 1800 – falec. 1850]).
- trineto de João da Silva Ribeiro (Sênior) (23/06/1787 – 12/05/1873) (filho de Pedro da Silva Ribeiro e Anna Maria de Saldanha) e de Maria Benta de Souza (filha de Matheus José de Souza e Clara Maria de Athaide).

Manoel Cecilio Ribeiro Martins com a mulher Maria do Carmo Brognoli ao iniciar as obras de restauração da Casa de Pedra.

        Destacamos abaixo um trecho de um texto escrito pelo próprio Manoel Cecilio Ribeiro Martins sobre a Casa de Pedra, construída na Fazenda do Socorro. A Fazenda situa-se no município de Bom Jardim da Serra (SC) (antigamente, pertencente ao município de São Joaquim-SC).

“Foi minha mãe Dolores Ribeiro (1891-1928), filha única e herdeira de Manoel Cecilio Ribeiro que nos deixou essa “Tradicional e Amparadora Fazenda do Socorro” como dizia meu pai Adolfo José Martins (1885-1968), professor e editor da Gazeta Joaquinense em 1906, deputado estadual (1935-1936) e vereador por São Joaquim: “e foi essa Casa de Pedra que nos abrigou após sua morte prematura”.
[...]
Em 26 de junho de 1964, meu pai alertou-me para a necessidade urgente de reparos no “prédio residencial”, que considerava “obra de frisante valor”, os quais foram realizados em 1965 de forma limitada em razão das dificuldades da época.
Decorridos todos estes anos, acredito que meu pai me deu tal missão, não por eu ser engenheiro civil, mas por imaginar que eu continuaria as atividades agropastoris da família e principalmente por levar nome de meu avô Manoel Cecilio Ribeiro, a quem certamente ele sempre prestou homenagens.
Embora eu não tenha permanecido com a sede da minha fazenda na Casa de Pedra, ainda assim agradeço em especial aos meus sobrinhos, herdeiros de meus irmãos, pela realização em 2013, do acordo divisório da propriedade, que interrompeu um lento processo de destruição da casa pela ação do tempo e que me possibilitou, ainda, aos 94 anos realizar a minha missão, de poder preservar a Casa de Pedra para mantê-la como um prédio com significativo valor histórico para as famílias Souza, Ribeiro, Amaral e Martins e para nosso Bom Jardim da Serra”.

Para maiores informações sobre a Casa de Pedra e sobre a ascendência de Manoel Cecilio Ribeiro Martins, veja:

- Casa de Pedra – 150 anos

- Adolfo José Martins e Dolores de Souza Ribeiro

- Rua Manoel Cecílio Ribeiro


Manoel Cecilio Ribeiro Martins era engenheiro civil, sendo que, em 8 de março de 2018, o portal de notícias Agora! publicou uma notícia (CREA-SC comemora 60 anos de história em sessão solene da Alesc no dia 13/03), que cita Manoel como o profissional com o registro mais antigo no CREA-SC. O referido site, também disponibiliza uma pequena biografia do engenheiro: Saiba mais.


Notas e referências

Agradecemos em especial a Henrique Brognoli Martins, filho de Manoel, que sempre nos disponibilizou material sobre a família e sobre a Casa de Pedra.

Textos de Henrique Brognoli Martins, e de Manoel Cecilio Ribeiro Martins, disponibilizados pelo Henrique.

Agora! Portal de notícias. CREA-SC comemora 60 anos de história em sessão solene da Alesc no dia 13/03.  Disponível em: https://agorasul.com.br/crea-sc-comemora-60-anos-de-historia-em-sessao-solene-da-alesc-no-dia-13-03/. Acesso em: 21/08/2019.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

FAZENDA DO PELOTAS




         Iniciamos uma série de matérias no Blog Genealogia Serrana, publicando trechos e/ou reedições de capítulos que fizeram parte do meu livro “O Vôo das Curucacas” (2013). Postaremos ainda, alguns textos originais sobre curiosidades e histórias da Serra Catarinense (não publicados no livro).
Retomamos hoje, um fragmento do capítulo do meu livro Algumas fazendas e suas histórias, sobre a Fazenda do Pelotas, com pequenos ajustes e o acréscimo de algumas informações e de fotografias.

---

A FAZENDA DO PELOTAS, muito conhecida na região serrana, foi comprada em torno de 1765 pelo primeiro Ribeiro em terras catarinenses: MANOEL DA SILVA RIBEIRO, que veio do norte de Portugal.  Estabeleceu-se, ainda novo em Santo Antonio da Patrulha, Rio Grande do Sul, onde se casou com a lagunense Maria Bernarda do Espírito Santo (Benavides), de lá vindo para a região de Lages, passando a morar na referida fazenda.
Possuía uma área de 450 milhões de metros quadrados, e se localizava na Costa da Serra, no hoje município de Bom Jardim da Serra, tendo entre suas divisas o Rio Pelotas e a Fazenda do Socorro.
Alguns documentos comprovam a posse da Fazenda do Pelotas, no período, por Manoel. Um desses documentos é a escritura particular de compra da Fazenda do Socorro (logo abaixo abordada, por ser o berço da outra família estudada: a Souza), em 19 de abril de 1775, limítrofe à do Pelotas:
Os limites partem para o sul com Manoel da Silva Ribeiro, servindo de divisa um arroio que faz barra no Rio Pelotas, chamado Porteira[i].
Também outro documento, de registro de venda dos campos chamados “FAXINAL”, foram vendidas por Manuel Marquez Arzão a Matheus José de Souza, em abril de 1775, que afirma que “as terras partem para a parte sul com Manuel da Silva Ribeiro, servindo de divisa um arroio que faz barra no Rio Pelotas chamado a Porteira, para o norte com o Tenente Antonio Marquez Arzão¹,[ii].
Manoel e Maria Bernarda tiveram 10 filhos, sendo o mais velho, Pedro da Silva Ribeiro, casado com Ana Maria de Saldanha, ancestral direto da autora por linha masculina. Em 1790, Manoel dividiu a fazenda em duas partes: a parte norte para o seu filho Inácio e a parte sul para Pedro[iii].
Estas terras foram provavelmente transmitidas por herança aos filhos, tendo registro documental da propriedade de pelo menos três de seus filhos: Pedro, Ignácio e Domingos José Brito (filho mais moço que ganhou o sobrenome de sua avó materna Domingas Leite Peixoto, da família “Brito” de Laguna).
 Em texto de Bogaciovas (1999) aparece a permuta da fazenda Pelotas, feita por  Domingos Jose de Brito, filho de Manoel. Conforme escritura pública de 02 de março de 1801, o Capitão-mor Regente Bento do Amaral Gurgel Annes e Dona Genoveva Raquel de Fontoura, sua mulher, trocaram uns campos denominados PELOTAS, sitos na Costa da Serra, distrito da vila de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages, com os Campos denominados BOM SUCESSO, que pertenciam ao dito Domingos José de Brito, que, assim, volta a ser o proprietário da fazenda primitiva de sua família.
Nos autos de demarcação dos limites da Fazenda Bom Sucesso de 1814, Domingos José de Brito deu depoimento, a pedido da autoridade judicial, sobre uma questão de posse de quando era ainda proprietário em Bom Sucesso. Contudo, seu depoimento foi lavrado em “Pelotas”, em 14 de junho de 1814, quando, portanto, já havia sido feita a permuta acima citada.
No caderno de Enedino Batista Ribeiro, de 1950, “Histórias que não vêm na História”, p. 20, diz que Ignácio da Silva Ribeiro e sua mulher, D. Anna Muniz de Saldanha, venderam a Domingos José de Brito, no dia 1º de agosto de 1824, por escritura pública, a metade da Fazenda de Pelotas.
Já em 1858, a Fazenda do Pelotas pertencia a Francisco José Velho (falecido em 1858), sem descendentes. A herdeira foi a mãe, D. Anna Gonçalves Vieira Padilha, que também morreu em 15 de agosto do citado ano, passando a herança para os filhos e netos[iv].

Herdeiros de D. Anna Gonçalves Vieira Padilha:
1 - ANTONIO MANOEL VELHO, residente em Vacaria - solteiro - 5 filhos reconhecidos.
2 - MANOEL ANTONIO VELHO, residente em Vacaria, c. c. Ana Tereza da Anunciação (primos-irmãos).
3 - JOSÉ JOAQUIM VELHO, residente em Lages - solteiro - 5 filhos reconhecidos.
4 - JOAQUIM JOSÉ VELHO, residente em Lages - solteiro - 1 filho reconhecido.
5 - IGNÁCIO MANOEL VELHO, residente em Lages, c. c. Maria Ignácia de Souza.
6 - FRANCISCA MANOELA DE ASSUMPÇÃO, c. c. Jacintho José Ferreira, residentes em SC – capital.
7 - GERTRUDES DE ASSUMPÇÃO (ou da Anunciação do Senhor?), c. c. José Joaquim Ferreira, residente em SC - capital - sem filhos.
8 - MARIA ANTONIA DA ANUNCIAÇÃO, c. c. Francisco Antonio de Candia - 11 filhos.

Principais bens do Espólio (Inventário de Francisco José Velho):
- Fazenda do Pelotas: 20:000$000.
- Casas da referida fazenda: 2:000$000.
- Casas e Campos da Fazenda Quinze dias: 4:000$000.
- Campos “Morro Grande”: 6:000$000.
- Casas nessa fazenda: 300$000.

Essa fazenda foi dividida entre muitos herdeiros e foi sendo vendida a pessoas fora do círculo familiar. Apesar disso, ainda há alguns descendentes com glebas de terra nela, como os Cassetari, cuja ascendência é pela linha feminina dos Ribeiros.

Abaixo fotos da Fazenda do Pelotas em 2007 e, após, em 2017.


2007

Casa da Fazenda do Pelotas, 2007.





---

2017 
 
Casa da Fazenda do Pelotas, 2017.








Referências

SCHNEIDER, Ismênia Ribeiro. O Voo das Curucacas: Estudo genealógico de famílias serranas de Santa Catarina. Florianópolis: Letra editorial, 2013.


[i] Cartório de Notas da cidade de São Joaquim. Fls. 822 do Livro nº19. 
[ii] 1º Oficio de Lages, Livro nº 2, fls 12-v a 13.
[iii] RIBEIRO, Enedino B. Gavião de Penacho: Memória de um serrano. Fpolis: IHGSC, 1999.
[iv] MUSEU do Judiciário Catarinense. Inventário de Francisco José Velho, de 1858.