quarta-feira, 23 de março de 2022

RUA RICARDO PAGANI

 

                                      Matéria elaborada por Carlos Solera

e

 Eleni Cássia Vieira

 

 

 

 Acervo Carlos Solera

                                                                             

URUPEMA TEMPO E MEMÓRIA

 

Projeto cultural idealizado e desenvolvido, voluntariamente, por Eleni Cássia Vieira e Carlos Solera. Conta com parceria técnica do Blog Genealogia Serrana de Santa Catarina, com as renomadas pesquisadoras, escritoras, professoras Ismênia Ribeiro Schneider, Cristiane Budde, Daniela Ribeiro Schneider e a importantíssima colaboração da comunidade de Urupema.

 Visa resgatar a história de vida de pessoas que nomeiam as ruas de Urupema, e, de alguma forma, contribuíram para o enriquecimento da cultura local. 

Abrimos o ano de 2022, com a matéria sobre Ricardo Pagani, homenageado com nome de uma rua central na sede urbana de Urupema. A escolha da publicação na semana de aniversário do município não foi por acaso. A cidade mais fria do Brasil completa 104 anos a partir do início de seu povoamento, oficialmente, constituído em 25 de março de 1918.

Valiosas informações e dados familiares, tanto de Ricardo, quanto de seus ancestrais, foram-nos repassados por seu filho Célio de Jesus Pagani, pela neta Luzia Fabre Pagani Paes, filha de Célio, pelo amigo e pesquisador da história urupemense e serrana, Inécio Pagani Machado, filho de Ida, irmã de Ricardo Pagani e por Ronei Pagani Arruda, neto de Arthur Pagani, tio de Ricardo. 

Para nosso projeto, é de fundamental importância que as pesquisas envolvam diferentes segmentos familiares e de amizade, daquele que recebeu homenagem da comunidade. Além de enriquecer a matéria elaborada, garantem o fortalecimento da história local. 

A condição de Ricardo Pagani ser descendente de uma família de imigrantes de origem italiana, possivelmente, pode retratar também importantes momentos da introdução da família Pagani em solo catarinense. Hoje, ela possui grande presença e descendência, principalmente, em Palhoça, Floripa, sul e região serrana do estado de Santa Catarina. 

Motivos suficientes nos levaram a pesquisar sobre interessantes aspectos da história catarinense e brasileira, desde a época imperial. Vejamos. 

A Vila de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages, fundada em 1766 por Antônio Correia Pinto e seus extensos limites, os Campos de Lages, pertenciam à Província de São Paulo. 

A partir de 1820, estas terras foram desanexadas do território paulista e passaram a fazer parte da Província de Santa Catarina, com sede na Ilha do Desterro, hoje, Florianópolis. 

Em 1822, ocorreu na região sul catarinense, a descoberta de carvão mineral, grande fonte de energia térmica. O carvão mineral é um tipo de combustível fóssil, originado a partir da decomposição de matéria orgânica, acumulada há milhões de anos. Sua extração da terra se dá por meio de mineração.  

A descoberta se deu por tropeiros que faziam o percurso serra acima/serra abaixo, descendo pela Serra do Doze (atual Serra do Rio do Rastro), em sentido a Laguna. Realizando pouso ali, junto à serra, perceberam que as pedras sob as fogueiras permaneciam queimando, mesmo sem a madeira de lenha. 

Com a noticia desse achado, algumas expedições do governo vieram à região fazer estudos e análises sobre a qualidade e a viabilidade econômica do carvão encontrado. Descobriram-se grandes jazidas por extensa região, desde o pé da serra do Doze até o litoral, envolvendo três bacias hidrográficas de Santa Catarina - bacia do rio Tubarão, bacia do rio Urussanga e bacia do rio Araranguá. 

Assim, desde 1827,o minério passou a ser explorado por uma empresa inglesa. Tudo indicava que a ocupação territorial da região, pelo trabalho de mineração, poderia ocorrer com rapidez. Porém, mais de 20 anos depois, ainda não havia acontecido. 

No ano de 1848, o governo imperial doou 156.000 hectares de terra pública para a Província de Santa Catarina, com objetivo de se realizar uma colonização na região. Não havia, porém, recursos financeiros e nem organização de colônias para imigrantes. 

Foi proposta, então, pelo governo imperial, uma “lei orgânica de imigração”, que garantiria um lote de terra destinado a imigrante com família e não a indivíduo sozinho. De início, o lote mediria 60 hectares, que passou depois para 48 e finalmente, para 25 hectares, como intuito de diminuir o isolamento em que viveriam os assentados. Os lotes seriam pagos em 05 anos, incluindo juros a partir da primeira colheita.  

A vinda de imigrantes resolveria também, grave situação de mão de obra que o Brasil passou a ter depois de 1850, pois o tráfico negreiro havia sido extinto. E em 1871, seria aprovada a Lei do Ventre Livre, que concedia liberdade aos filhos de mãe escrava. Além disso, a imigração auxiliaria a povoar o Sul, estimular a economia nacional, uma vez que o imigrante iria auferir rendas e ajudaria a guarnecer as fronteiras com países vizinhos. 

A colonização italiana no sul catarinense, só começou a acontecer, por volta de 1870, com a vinda de famílias de Treviso, Belluno e Vicenza. Tudo iria se consolidar com a fundação das colônias de Azambuja (1877), Urussanga (1878), Criciúma (1880), Orleans e Lauro Muller (1884) e Cocal (1885). Era um momento em que a Itália enfrentava uma grande crise econômica, o que facilitava sobremaneira a imigração. 

Em 1876, Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, militar, diplomata e político brasileiro, o primeiro Visconde de Barbacena, dava início ao trabalho de mineração do carvão em território sul catarinense. Quatro anos depois, o governo imperial autorizava a construção da estrada de ferro D.Tereza Cristina. Em 1884,os 128 km de extensão entre Lauro Muller e Imbituba ficaram prontos, trecho inaugurado pela locomotiva “Visconde de Barbacena”. 

Por volta de 1890, outras centenas de famílias vieram de Bérgamo e Cremona, região da Lombardia, de Treviso, região do Vêneto, e de Ferrara, região de Emília Romagna. Todos em busca de terra para trabalho, paz, liberdade e um futuro de esperanças. 

Só o núcleo de Nova Treviso abrangia 429 lotes, que custavam em média 600$000 réis (seiscentos mil réis), acrescidos do custo de 14$500 réis (catorze mil e quinhentos réis), pela compra de ferramentas para o trabalho nas lavouras.

A presença da família Pagani na região sul de Santa Catarina, provavelmente, tem a ver com esse período. 

  

História Familiar de Ricardo Pagani

  

Vamos à história familiar de Ricardo Pagani, foco de nossa matéria, a partir de seus avós paternos. 

Pietro Giuseppe Pagani e Maria Rosa Betelli (Pedro e Rosa) se casaram em 1878, em Bérgamo, na Itália. Não imigraram para o Brasil. Rosa faleceu em 28/08/1945, com 86 anos; não sabemos a data de falecimento de Pedro.  

Ao menos três de seus filhos - Ernesto Stefano, João e Arthur, imigraram para o sul catarinense. Residiam nas colônias italianas de Nova Treviso/Urussanga.  

Arthur Pagani, segundo seu neto Ronei Pagani de Arruda, em matéria publicada em outra edição do Blog Genealogia Serrana de Santa Catarina:

http://genealogiaserranasc.blogspot.com/2020/03/rua-arthur-pagani-urupema-sc-e-rodovia.html

“na década de 1920, tornou-se um comerciante do sul que vinha para a serra, Sant’Ana, hoje, Urupema (serra abaixo/serra acima) e aqui fixou residência onde deu continuidade a sua família”.

 

João Pagani – no documento abaixo, Almanak Laemmert, de 1925, é citado como Secretário do Conselho Municipal de Urussanga.

 

Ernesto Stefano Pagani, pai de Ricardo Pagani, consta no mesmo documento do Almanak Laemmert, de 1925, como Agrimensor e residente em Urussanga. Talvez, fosse prático e não técnico formado, pois na região onde estava havia muito trabalho nessa área.

 

https://1.bp.blogspot.com/-_xVcjPYogU/XmJ2ac7vEbI/AAAAAAAAAfc/Z2L1jK9YPqw-jzi93T5uO96qQC6afHHgQCEwYBhgL/s1600/almanak%2Blaemmert%2B-%2BPagani.jpg 

O Almanak Laemmert (título original), administrativo, mercantil e industrial, editado no Rio de Janeiro, é considerado o primeiro almanaque publicado no Brasil, a partir de 1844.  

  

Ernesto Stefano Pagani nasceu em 01 de outubro de 1879, em Dalmine, Bérgamo, na Itália. 

Era casado com Emília Ernetti e ambos imigraram para o Brasil. Tiveram 09 filhos - Ricardo, Hugo, Pedro, Albino, Alexandrino, Anita, Inês, Olga e Ida. 

 

Acervo Inécio Pagani Machado

                                                                   

Ricardo Pagani e sua história

 

Ricardo Pagani, homenageado com nome da rua e objeto desta matéria, era filho do casal Ernesto Stefano Pagani e Emilia Ernetti. Nasceu em 04 de outubro de 1904, em Nova Treviso/Urussanga, provavelmente, tenha sido o primeiro filho deles. 

Nos anos 1920, seu tio Arthur Pagani e a esposa Joanna Losso, mudaram de Nova Treviso/Urussanga e fixaram residência na então nascente e pequena povoação de Sant’Ana, hoje, Urupema. Local que desde 1923, era distrito de São Joaquim da Costa da Serra e se tornaria Vila, em 1938. 

Ricardo e sua irmã Ida vieram para ajudar os tios a cuidar dos filhos, com idéia de que quando as crianças aqui se adaptassem, eles retornariam a Nova Treviso. Ida era mais nova, nascida a 07 de agosto de 1924. 

Não foi o que aconteceu e os dois irmãos acabaram permanecendo por aqui. 

Em 08 de maio de 1929, Ricardo se casou com Almira da Silva Muniz, nascida em 27 de abril de 1908, filha de José da Silva Muniz (José Generoso) e Florinda Vivência de Jesus. 

Almira tinha dois irmãos - Maria e Florisnaldo Muniz, o “tio Naná”, que dá nome também a uma das ruas da cidade, onde está sendo implantada a Rua Coberta de Urupema. Esta rua já foi, anteriormente, objeto de matéria do projeto Urupema Tempo e Memória: http://genealogiaserranasc.blogspot.com/2021/10/rua-florisnaldo-da-silva-muniz-parte-ii.html 

Sua irmã Ida casou-se em 27 de dezembro de 1944, com Roseni Antunes Machado, filho de Ourozimbio* Pereira de Souza e Lavina Antunes de Amorin.

 

Orozímbio* - assim está escrito em certidão de casamento da filha e como Orozimbo, em decreto municipal de nominação de rua em seu nome, que será objeto de uma próxima matéria do projeto Urupema, Tempo e Memória.

 

Acervo Inécio Pagani Machado

                                                                       

Descendência familiar de Ricardo Pagani

 

O casal Ricardo e Almira formou numerosa família, com 15 filhos:

1) Alceu - nascido a 16 de julho de 1930;

2) Clélia - nascida a 23 de julho de 1931;

3) Dária;

4) Aldo;

5) Célio;

6) José Pedro;

7) Vilma;

8) Gildo;

9) Anita;

10) Hugo;

11) Maria Rosa;

12) Marta;

13) Olga;

14) Luiz Carlos;

15) Hulda

  

Em meados dos anos 1900, era costume se fazer uma foto familiar com todos os integrantes bem trajados. Os homens, quase sempre, de terno e gravata. Registros para a posteridade - pais e filhos.

 

Nesta foto, da direita para a esquerda – Alceu, Hugo, Gildo, Aldo (terno claro, ao lado de Ricardo), Célio(atrás), Rosa, Anita e Vilma (atrás de Almira), Hulda (a mais nova, ao lado de Almira), Olga (blusa escura), Marta, Dária (vestido branco), Maria e Clélia (Lela -vestido estampado). Apenas não está presente o filho José Pedro, a esta época já estudando Medicina em Curitiba.

                                                                                 Acervo Célio Jesus Pagani

 

 

As filhas de Ricardo e Almira (da esquerda para a direita, por ordem de nascimento) - Clélia (Lela), Dária, Vilma, Maria, Anita, Marta, Rosa, Olga e Hulda (a mais nova).

                                                                                 Acervo Célio Jesus Pagani

  

Texto do site da Associação Médica do Paraná – AMP, com histórico sobre seus presidentes. Aqui, sobre o doutor José Pedro Pagani, filho de Ricardo e Almira. 

Dr. José Pedro Pagani

José Pedro Pagani nasceu em Santa Catarina. Filho de pais humildes,teve dificuldades para estudar. Trabalhou como bancário e foi acadêmico, médico interno. Após formado, fez residência em Urologia no Rio de Janeiro. Lecionou na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná por diversos anos e sua filosofia de vida, em razão das experiências adquiridas, sempre foi calcada na solidariedade e filantropia. Atendia, gratuitamente, pacientes sem recursos. Este comportamento humanitário o transformou em líder e o fez ser reconhecido para chefiar, durante toda a vida profissional, o Serviço de Urologia do Hospital Evangélico de Curitiba.

Foi presidente da Associação Médica do Paraná de 1983 a 1985, onde já havia atuado como secretário-geral, no período de construção da atual sede da entidade. Foi um dos responsáveis pela criação da cooperativa de crédito Unicred, o que demonstrava sua preocupação em oferecer benefícios à classe. Presidiu, ainda, a Sociedade Brasileira de Urologia – Seccional do Paraná e trabalhou com mestres como Erasto Gaertner e Dante Luiz no antigo Instituto de Medicina e Cirurgia do Paraná. Faleceu em 2000, aos 63 anos. 

 

Filho de Ricardo Pagani dá nome ao Posto de Saúde de Urupema

  

No ano de 2003, Ricardo Pagani, médico humanitário, recebeu da comunidade de Urupema, merecida homenagem.

 

URUPEMA SC LEI ORDINÁRIA Nº 475 DE 07 DE JULHO DE 2003

 

LEI Nº 475/2003, DE 07 DE JULHO DE 2003.

DÁ DENOMINAÇÃO À UNIDADE MISTA DE SAÚDE

 

RENATO PAGANI DE ARRUDA, Prefeito Municipal de Urupema, faz saber a todos os habitantes deste município que a Câmara Municipal de Vereadores APROVOU e eu SANCIONO a seguinte Lei:

 

Art. 1º - A Unidade Mista de Saúde, localizada na sede do município de Urupema, passará a denominar-se Unidade Mista de Saúde Dr. José Pedro Pagani.

Art. 2º - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

Art. 3º - Ficam revogadas as disposições em contrário.

 

Prefeitura Municipal de Urupema, 07 de julho de 2003.

Renato Pagani de Arruda

Prefeito Municipal

 

Acervo Carlos Solera

                                                                            

 

Acervo Carlos Solera

                                                                                       

 

Certidão de casamento de Célio Jesus Pagani, filho de Ricardo e Almira, com Clélia Teresinha Fabre, filha de Estevão Fabre e Zenita Camargo Fabre.
   Acervo Célio de Jesus Pagani

 

 

Terceira geração de Ricardo e Almira Pagani

 

A terceira geração familiar também é bastante numerosa.

 

Netos e netas:

Arlene, Edna, Ligia, Silvana e Júlio;

Adélia, Clóvis, Alberto, Adolfo, Arnaldo, Adilson e Aldo;

Maura, Tadeu, Marilúcia, Janete, Nazareno, Amarildo, João Pedro e Luciane;

Lúcio, Luzia e Luciana;

Ricardo e Renato;

Edson, José Flávio, Ana Alice, Maria de Lourdes, Cláudio, João Carlos (padre) e Alexandre;

Sidnei e Sandro;

Paulo, Kátia e Sérgio;

João Paulo.   

A descendência familiar de Ricardo e Almira prossegue em novas gerações.


Atividades profissionais, sociais e comunitárias desenvolvidas por Ricardo Pagani em Urupema

 

Como carpinteiro, em Sant’Ana, depois, Urupema, construiu inúmeras casas de madeiras, montou galpões e serrarias. Na abertura da estrada ligando a Serra dos Pereiras ao Vale do Rio Canoas, ou seja, de Sant’Ana a Rio Rufino, meados dos anos 1930, construiu bueiros e pontilhões. 

Depois, teve curtume, olaria e sapataria. Pecuarista e sócio numa casa comercial familiar. Exerceu a função de Juiz de Paz e presidente da Igreja Católica local. Foi sócio fundador, presidente e sócio benemérito do Clube Social 03 de Maio de Urupema.    

Ricardo e Almira residiram em Urupema até o ano de 1967, quando mudaram para Lages, onde moraram até 1977. Por dois anos, entre 1977 e 1979, fixaram residência em Curitiba, onde morava o filho médico José Pedro. Talvez, Ricardo, já estivesse com algum problema de saúde. 

Em fevereiro de 1979 retornaram a Lages, onde Ricardo faleceu dois meses depois, em 24 de abril. Já Almira, faleceu em Urupema em 16 de dezembro de 1983. 

 

Decreto de nomeação da rua Ricardo Pagani

 

Em 31 de dezembro de 1996, Nelton Rogério de Souza, prefeito de Urupema, sancionou a Lei nº 255/96, aprovada pela Câmara Municipal de Vereadores, dando o nome de Ricardo Pagani à rua projetada, que partia das confluências da rua Juvelino Vieira de Souza em direção ao loteamento do Sr. Pedro Souza.

 

Acervo Prefeitura Municipal de Urupema

                                                         


Acervo Prefeitura Municipal de Urupema

                                                          

Rua Ricardo Pagani

 

Tranqüila, margeando o córrego Lomba que atravessa a cidade, vemos, à direita, o jardinete gramado e arborizado pelo nosso amigo Valentin Muniz, o tio Valente. Junto com sua esposa Irene Terezinha Muniz, foram os pioneiros moradores desta via urbana. 

 

Acervo Carlos Solera


                                                                                          

REENCONTRO DA HISTÓRIA

Parte inferior do formulário

  

Acervo Carlos Solera
                                                                                   

 

Aqui, como que por encanto, tio e sobrinho, personagens retratados na história acima, dão nome para duas ruas de Urupema que se encontram, como a dizer ..... Olá! Como vai?

  

O que revela uma rua

A partir das informações que compõem o nome de uma rua, um livro se abre a nossa frente. Costumes, crenças, transformações ocorridas ao longo da vida, vão enchendo os olhos a cada página escrita. 

No decorrer de cada rua que passa a ser motivo de pesquisa e estudos, deparamo-nos com a alegria dos familiares. 

O envolvimento é tão prazeroso que as documentações chegam como verdadeiros tesouros abrindo oportunidades a Urupema, de conhecer melhor os filhos homenageados. 

As informações, tão significativas, trazem consigo o embalo de lembranças da infância, os veios da herança e os hábitos que reforçam vínculos. O personagem que nomeia a rua é motivo de celebração pelas experiências vividas. 

O nome ali, no silêncio da placa, brilha como luz e abre passagem ao conhecimento, à formação da identidade, caráter, comportamento. Memórias que o tempo revela ao transmitir valores, passados de pai para filho na continuidade das gerações. 

Que importância tem o nome da rua? 

Ah! Quantas descobertas, encontros, reencontros, quantas brincadeiras a refazer e fortalecer os laços de família. 

E mais..... sentir que a história de cada um é a mais bonita de todas as histórias! 

 

 

  

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

RUA LINO ALVES DE SOUZA – II parte

 Matéria elaborada por Carlos Solera

e

Eleni Cássia Vieira

 


 

URUPEMA TEMPO E MEMÓRIA

 

Projeto cultural idealizado e desenvolvido, voluntariamente, por Eleni Cássia Vieira e Carlos Solera. Conta com parceria técnica do Blog Genealogia Serrana de Santa Catarina, com as renomadas pesquisadoras, escritoras, professoras Ismênia Ribeiro Schneider, Cristiane Budde, Daniela Ribeiro Schneider e a importantíssima colaboração da comunidade de Urupema. 

Visa resgatar a história de vida de pessoas que nomeiam as ruas de Urupema, e, de alguma forma, contribuíram para o enriquecimento da cultura local.

 A primeira matéria publicada sobre a vida de Lino Alves de Souza, personagem que nomeia uma das ruas de Urupema, foi muito bem aceita e lida pela comunidade. E motivou novas contribuições por muitos de seus descendentes familiares, para prosseguimento de nossas pesquisas.

Para ver a primeira parte, clique no link: http://genealogiaserranasc.blogspot.com/2021/12/rua-lino-alves-de-souza.html

 

Nesta segunda matéria, mostraremos outros aspectos históricos de sua vida, retratando ainda alguns pontos da vida familiar do casal Lino e Petronilha e um pouco das atividades profissionais, sociais e comunitárias, desenvolvidas por ele. Para isso, contamos também com inúmeros documentos que compõem o acervo histórico da Casa da Cultura Ana Paula da Silva Souza, de Urupema, deixados por Dimas Pinto de Arruda, o guardião da memória local.   

  

Atividades familiares   

 Citado na matéria anterior e já em outras mais por nós elaboradas, o início de desenvolvimento comunitário e social da então pequena vila de Sant’Anna (Santana) no início dos anos 1900, se deu por entrelaçamentos familiares, com casamentos e compadrios entre famílias aqui estabelecidas.

 Daí um dito bastante popular e ainda em voga, na atual Urupema: “quem não é parente, é amigo”. E, certamente, compadre e comadre. Era comum a “entrega” de um filho ou filha para o compadre e comadre criarem e darem à criança uma boa educação e alimentação. Ou mesmo, os filhos faziam isso com seus pais, entregando o neto ou neta para os avós criarem.

 Com Lino e Petronilha não foi diferente. Conversamos com dois netos que foram criados por eles dessa forma, como se filhos fossem. Ambos aproveitaram os ensinamentos recebidos deles, e se fizeram vencedores na vida.

 O neto Antônio Edson, filho de Erotides e Wilma, viveu com os avós dos 02 aos 14 anos. Foi sempre estimulado por eles a estudar, segundo nos relatou. Fez colégio industrial, escola técnica agrícola e acabou se casando, constituindo família e se radicando, mais tarde, no município de Campo do Tenente/PR, onde foi vice-prefeito e hoje, é radialista. 

 Outro neto criado por eles, Wilmar de Souza, nasceu em Urupema em 06 de novembro de 1948, filho de Maria do Carmo e Manoel Inácio Borges de Souza. Foi morar com os avós antes de fazer o primeiro ano e viveu com eles até o falecimento de ambos. Wilmar trabalhou 10 anos como Exator Municipal quando o distrito de Urupema ainda pertencia a São Joaquim. Depois, trabalhou por 23 anos na Cooperserra, empresa do setor macieiro, onde se aposentou.  

  

Atividades profissionais, sociais e comunitárias de

Lino Alves de Souza

 

Em 04 de janeiro de 1930, encontramos Lino Alves de Souza no cargo de Juiz Districtal do 4º Districto de Santa Anna, então pertencente a São Joaquim da Costa da Serra, como mostra este comunicado da Intendência Districtal de Santa Anna. 

 

Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

Outra lida que Lino gostava muito era a de abertura de estradas. Segundo informações de familiares, foi ele quem iniciou a abertura da estrada de Sant’Ana para Rio Rufino, por volta de 1933/34, utilizando pequenas carroças puxadas por muares, pá, picareta e dinamite. Depois, repassou este serviço para Artur Pagani, que a terminou e ali fez grande trabalho.

 Muitos documentos do acervo da Casa da Cultura de Urupema mostram a atuação de Lino como Sub-Delegado da Vila de Sant’Ana, principalmente, entre os anos 1935 e 1936, que, à época, era o 4º distrito do município de São Joaquim da Costa da Serra.

 Em São Joaquim da Costa da Serra funcionava a sede da Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra, onde se designavam os Sub-Delegados para seus distritos.

 Entendendo melhor. No ano de 1933, a divisão administrativa do município de São Joaquim da Costa da Serra apresentava 04 (quatro) distritos: São Joaquim da Costa da Serra (atual São Joaquim), Nossa Senhora do Socorro (atual Bom Jardim da Serra), Urubici e Santana do Cedro (também nominada como Nossa Senhora de Santana ou Santana, e atualmente, Urupema).

A nomenclatura local apresentava grafias diferentes, sendo o distrito mencionado ora como Santa Anna ou Santa Ana, ainda, Sant’Ana ou Sant’Anna, e mesmo, Santana.

A responsabilidade assumida para exercício do cargo de Sub-Delegado era grande, desgastante e até mesmo, bastante perigosa. Atuava garantindo a segurança local e em vários outros extratos da comunidade, como veremos a seguir.

Apesar de termos encontrado documentos de sua nomeação, especialmente para os anos 1935 e 1936, acreditamos Lino Alves já exercia a atividade antes desse período, quando a Vila de Sant’Ana não tinha vinte anos de existência oficial, como distrito. 

 

19/06/1935 - Nomeação de Lino Alves de Souza ao cargo de Sub-delegado de Polícia do distrito Santa Ana, município de São Joaquim da Costa da Serra.                                               

                                                    Acervo Casa da Cultura de Urupema



19/06/1935 - Ofício comunicando a nomeação de Lino Alves de Souza ao cargo de Sub-delegado de Polícia do Distrito de Santa Ana.  

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema



 

 20/06/1935 – Registro na Chefatura de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra da nomeação de Lino Alves de Souza ao cargo de Sub-delegado de Polícia do Distrito de Santa Ana.

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema


 

25/06/1935 – Comunicado de ações e despesas realizadas para diplomação de Lino Alves de Souza e Antônio Rodrigues de Lisboa (Sub-delegado e 1º Suplente) para o distrito de Santana, pelo amigo Waldomiro P. da Cruz.                                         

                                                    Acervo Casa da Cultura de Urupema


  25/06/1935 – Comunicado de assinatura do termo de compromisso do cargo de Sub-delegado de Polícia do Districto de Sant’Anna, pelo Director da Fazenda Municipal de São Joaquim da Costa da Serra.

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema


30 de junho de 1935 – Comunicado da Delegacia de Polícia da Comarca de São Joaquim da Costa da Serra sobre compromisso já prestado por Lino Alves de Souza para o cargo de Sub-delegado e Antônio Rodrigues de Lisboa, como suplente, para a Sub-Delegacia de Polícia de Sant’ Ana.   

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema  



 

15/10/1935- Ofício da Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia de Santana, quanto a editais de “prohibição” do uso de armas e envio das armas apreendidas.           

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

 

27/11/1935- Ofício da Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia de Sant’Ana, quanto a compromissos com os Inspectores de Quarteirão do distrito de Sant’Ana.                      

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema 

                                                    

Os Inspectores de Quarteirão eram pessoas indicadas às Delegacias e Sub-delegacias, para auxiliarem na manutenção da ordem local. E tinham atribuições de ações estabelecidas, conforme o Capitulo VII do documento abaixo.

 

Comunicado da Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia do Distrito de Sant’Ana, sobre instruções e atribuições dos Inspectores de Quarteirão.   

                                                    Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

18/12/1935 – portaria Nº 240 da Chefatura de Polícia do Estado proibindo a venda de armas e munições em Santa Catarina e exigindo apresentação de relatório das casas comerciais do ramo, quanto a estoque disponível.                                       

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema 




08/01/1936 - Circular da Delegacia Especial de São Joaquim ao Sub-Delegado de Polícia de Sant’Ana, obrigando os donos de hotéis a terem no estabelecimento um livro de registro de entrada e saída de hóspedes, com nomes, nacionalidade, procedência e destino dos mesmos.  Ainda a obrigação de se vistar o livro e aplicação de multa aos proprietários, caso haja alguma infração.                 

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema 

 

08/01/1936 – Circular nº I da Inspectoria de Vehiculos de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia do distrito de Sant’Ana, Lino Alves de Souza.       

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

Observar que além de veículos motores, mesmo para as “aranhas” (um tipo de charrete com tração animal), era exigido registro e caderneta de habilitação do condutor.

  

18/01/1936 – Comunicado da Delegacia Especial de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado do distrito de Sant’Ana quanto a remessa de 6 regulamentos sobre atribuições dos Inspectores de Quarteirão.  

                                                Acervo da Casa da Cultura de Urupema


Fevereiro de 1936 – intimação do Sub-Delegado de Polícia de San’Ana, Lino Alves de Souza, ao senhor Antônio Alves do Prado, para que indique as pessoas envolvidas em uma briga em sua casa e convoque testemunhas deste “facto criminoso”, para comparecerem a Sub-delegacia de Polícia do 4º distrito de Sant’Ana no dia 17 de fevereiro, do ano corrente, sob pena de desobediência, em caso de não irem.

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema


21/07/1936 – Circular nº 10 da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública encaminhada ao Sub-Delegado de Polícia de Santana solicitando o envio das armas apreendidas no distrito de Santana, como pistolas, revólveres, facas, etc, conforme Lei e Instruções baixadas para o Serviço de Armas e Munições.

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema


25/07/1936 – Circular nº 11 da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública ao Sub-Delegado de Polícia de Santana referente a registro de armas e munições dos Vigias e Corpos de Vigias das propriedades industriais, agrícolas e pecuárias.

                                                    Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

Observam-se as muitas exigências feitas ao Sub-delegado do distrito, para o exercício de sua função, conforme comentamos. 

Ao final de agosto de 1936, Lino Alves de Souza solicitou a sua exoneração do cargo de Sub-Delegado do distrito de “Santana do Cedro” (denominação usada também para a vila de Santana). 

Possivelmente, tenha indicado para seu lugar o cunhado José Canuto Pereira, filho de Elesbão Pereira de Medeiros, pai de Petronilha. 

 

28/08/1936 – Nomeação de José Canuto Pereira para o cargo de Sub-Delegado de Polícia do distrito “Santana do Cedro”, município de São Joaquim, pelo Doutor Nereu Ramos, Governador do Estado de Santa Catarina.

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

28/08/1936 – Registro da nomeação de José Canuto Pereira ao cargo de Sub-Delegado de Polícia do Distrito de Santa Ana (Santa Ana) na Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina.

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

09/09/1936 – Comunicado de nomeação de José Canuto Pereira ao cargo de Sub-Delegado do distrito de Santana do Cedro, pela Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim.

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema

                                                     

09/09/1936 – Comunicação de exoneração, a pedido de Lino Alves de Souza, do cargo de Sub-Delegado do distrito de Santana do Cedro, pela Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim.

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema

                                                                                                                  

Após deixar o cargo de Sub-Delegado do Distrito de Sant’Ana, Lino Alves de Souza implantou por volta de 1941 uma serraria na região da igreja da Consolação, no vale do rio Gargantilha, próxima ao rio Urubici, junto a atual rodovia que liga os municípios de Rio Rufino a Urubici.

Em visita à Casa da Cultura de Urupema, em setembro de 2021, a tia Joce, única dos filhos do casal Lino e Petronilha ainda viva, contou-nos detalhes da mudança (temporária) deles do distrito de Sant’Ana para o terreno da serraria.

Lembrou que Lino, Petroniilha e mais alguns empregados foram para o local da serraria, montados numa tropa de muares e eqüinos. Ela, com 04 anos e Doilio, seu irmão mais novo, com cerca de apenas 02 anos, foram levados, ora no colo da mãe, ora em dois cestos revestidos de couro, tipo bruacas, colocadas no lombo de uma mula. Foi um relato emocionante, tanto de parte dela quanto nosso, estudiosos que somos das atividades tropeiras.    

Na serraria, ainda existente e empresa privada de outra família, há ruínas da caldeira feita à época, quando ali chegaram a produzir papel, que pendurados em cercas, eram “secados ao sol”. E também, diversos tipos de artefatos de madeira eram feitos ali, como tábuas, forrinhos, postes de cerca, etc. 

Sobre a serraria, contribuiu também o amigo Paulo Nunes, empresário que atua no segmento de Turismo Rural de Rio Rufino, que fortaleceu o relato da tia Joce.  

Lino foi também madeireiro de grande porte, à época da extração das matas de araucárias. Para isso, abria picadas e estradas para transporte das madeiras extraídas, conforme podemos ver no documento abaixo.

 

 

23/01/1946 – Carta do amigo e parceiro comercial Alfredo Martins de Morais para Lino Alves de Souza, sobre serviço realizado e a realizar por ele, em abertura de estrada rural para retirada de madeira cortada nas matas do distrito de Santa Ana (que desde janeiro de 1944 já era denominado distrito de Urupema). 

                                                     Acervo Casa da Cultura de Urupema


 Lino também era requerido para prestação de serviços comunitários, como vemos nesta portaria da Justiça Eleitoral no ano de 1950. 

  

Acervo Casa da Cultura de Urupema

 

Chegamos ao final do ano de 2021. Nossas pesquisas e contribuições de diversos segmentos da comunidade de Urupema e região, a   especial parceria com o blog Genealogia Serrana de Santa Catarina, nos permitem fazer um balanço positivo e dizermos que valeu a pena partilhar a estrada dos valores da cultura local. 

O projeto Urupema Tempo e Memória, em atividade desde março de 2020, completa 19 matérias elaboradas, retratando 10 ruas de Urupema, a garantirem o histórico dos homenageados, abrindo o campo ao conhecimento.

 Agradecemos aos leitores que nos acompanharam durante todo este tempo, nessa “caminhada cultural”. Voltaremos em 2022 e desejamos a todos, paz, saúde e harmonia.

 Urupema aguarda a visita de todos que desejarem conhecer um local onde resplandece o “calor humano e sincera acolhida”. Onde o “sentido de família” faz parte do cotidiano.

 A todos um até breve!

E como curiosidade, postamos aqui um documento de 1956, de autoria do senhor Moysés Ramos de Oliveira, então Sub-Delegado do distrito de Urupema - “Licença para realização de um Baile Público” na residência de um morador local, da noite do dia 22 de dezembro ao amanhecer do dia 23 de dezembro daquele ano, onde a premissa principal, já era, a tranqüilidade de todos.

 

 

Dezembro de 1956 – Licença de ordem do Sub-Delegado de Polícia do Distrito de Urupema, para um morador realizar um baile público, da noite de “22 de dezembro ao manhecer dia 23 de dezembro de 1956. Diversão com “chorascada e Botequim”, sendo expressamente proibido pessoas assistir a mesma sociedade, armados. 

                                                      Acervo Casa da Cultura de Urupema