URUPEMA TEMPO E MEMÓRIA
Projeto cultural idealizado e desenvolvido, voluntariamente, por Eleni Cássia Vieira e Carlos Solera. Conta com parceria técnica do Blog Genealogia Serrana de Santa Catarina, com as renomadas pesquisadoras, escritoras, professoras Ismênia Ribeiro Schneider, Cristiane Budde, Daniela Ribeiro Schneider e a importantíssima colaboração da comunidade de Urupema.
Visa resgatar a
história de vida de pessoas que nomeiam as ruas de Urupema, e, de alguma forma,
contribuíram para o enriquecimento da cultura local.
Para ver a
primeira parte, clique no link: http://genealogiaserranasc.blogspot.com/2021/12/rua-lino-alves-de-souza.html
Nesta segunda
matéria, mostraremos outros aspectos históricos de sua vida, retratando ainda
alguns pontos da vida familiar do casal Lino e Petronilha e um pouco das
atividades profissionais, sociais e comunitárias, desenvolvidas por ele. Para
isso, contamos também com inúmeros documentos que compõem o acervo histórico da
Casa da Cultura Ana Paula da Silva Souza, de Urupema, deixados por Dimas Pinto
de Arruda, o guardião da memória local.
Atividades familiares
Citado na matéria anterior e já em outras mais por nós elaboradas, o início de desenvolvimento comunitário e social da então pequena vila de Sant’Anna (Santana) no início dos anos 1900, se deu por entrelaçamentos familiares, com casamentos e compadrios entre famílias aqui estabelecidas.
Atividades profissionais, sociais e comunitárias
de
Lino Alves de Souza
Em 04 de janeiro de 1930, encontramos Lino Alves de Souza no cargo de Juiz Districtal do 4º Districto de Santa Anna, então pertencente a São Joaquim da Costa da Serra, como mostra este comunicado da Intendência Districtal de Santa Anna.
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Acervo Casa da Cultura de Urupema |
Outra
lida que Lino gostava muito era a de abertura de estradas. Segundo informações
de familiares, foi ele quem iniciou a abertura da estrada de Sant’Ana para Rio
Rufino, por volta de 1933/34, utilizando pequenas carroças puxadas por muares,
pá, picareta e dinamite. Depois, repassou este serviço para Artur Pagani, que a
terminou e ali fez grande trabalho.
A nomenclatura local apresentava grafias diferentes, sendo o distrito mencionado ora como Santa Anna ou Santa Ana, ainda, Sant’Ana ou Sant’Anna, e mesmo, Santana.
A responsabilidade assumida para exercício do cargo de Sub-Delegado era grande, desgastante e até mesmo, bastante perigosa. Atuava garantindo a segurança local e em vários outros extratos da comunidade, como veremos a seguir.
Apesar de termos encontrado documentos de sua nomeação, especialmente para os anos 1935 e 1936, acreditamos Lino Alves já exercia a atividade antes desse período, quando a Vila de Sant’Ana não tinha vinte anos de existência oficial, como distrito.
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19/06/1935 - Nomeação de Lino Alves de Souza ao cargo de Sub-delegado de Polícia do distrito Santa Ana, município de São Joaquim da Costa da Serra.
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19/06/1935 - Ofício comunicando a nomeação de Lino Alves de Souza ao cargo de Sub-delegado de Polícia do Distrito de Santa Ana. Acervo Casa da Cultura de Urupema |
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20/06/1935 – Registro na Chefatura de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra da nomeação de Lino Alves de Souza ao cargo de Sub-delegado de Polícia do Distrito de Santa Ana.
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25/06/1935 – Comunicado de ações e despesas realizadas para diplomação de Lino Alves de Souza e Antônio Rodrigues de Lisboa (Sub-delegado e 1º Suplente) para o distrito de Santana, pelo amigo Waldomiro P. da Cruz.
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25/06/1935 – Comunicado de assinatura do termo de compromisso do cargo de Sub-delegado de Polícia do Districto de Sant’Anna, pelo Director da Fazenda Municipal de São Joaquim da Costa da Serra.
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30 de junho de 1935 – Comunicado da Delegacia de Polícia da Comarca de São Joaquim da Costa da Serra sobre compromisso já prestado por Lino Alves de Souza para o cargo de Sub-delegado e Antônio Rodrigues de Lisboa, como suplente, para a Sub-Delegacia de Polícia de Sant’ Ana.
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15/10/1935- Ofício da Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia de Santana, quanto a editais de “prohibição” do uso de armas e envio das armas apreendidas.
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27/11/1935- Ofício da Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia de Sant’Ana, quanto a compromissos com os Inspectores de Quarteirão do distrito de Sant’Ana.
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Os
Inspectores de Quarteirão eram pessoas indicadas às Delegacias e Sub-delegacias,
para auxiliarem na manutenção da ordem local. E tinham atribuições de ações
estabelecidas, conforme o Capitulo VII do documento abaixo.
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08/01/1936 - Circular da Delegacia Especial de São Joaquim ao Sub-Delegado de Polícia de Sant’Ana, obrigando os donos de hotéis a terem no estabelecimento um livro de registro de entrada e saída de hóspedes, com nomes, nacionalidade, procedência e destino dos mesmos. Ainda a obrigação de se vistar o livro e aplicação de multa aos proprietários, caso haja alguma infração.
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08/01/1936 – Circular nº I da Inspectoria de Vehiculos de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado de Polícia do distrito de Sant’Ana, Lino Alves de Souza.
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Observar
que além de veículos motores, mesmo para as “aranhas” (um tipo de charrete com tração animal), era exigido
registro e caderneta de habilitação do condutor.
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18/01/1936 – Comunicado da Delegacia Especial de São Joaquim da Costa da Serra ao Sub-Delegado do distrito de Sant’Ana quanto a remessa de 6 regulamentos sobre atribuições dos Inspectores de Quarteirão.
Acervo da Casa da Cultura de Urupema |
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Fevereiro de 1936 – intimação do Sub-Delegado de Polícia de San’Ana, Lino Alves de Souza, ao senhor Antônio Alves do Prado, para que indique as pessoas envolvidas em uma briga em sua casa e convoque testemunhas deste “facto criminoso”, para comparecerem a Sub-delegacia de Polícia do 4º distrito de Sant’Ana no dia 17 de fevereiro, do ano corrente, sob pena de desobediência, em caso de não irem.
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21/07/1936 – Circular nº 10 da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública encaminhada ao Sub-Delegado de Polícia de Santana solicitando o envio das armas apreendidas no distrito de Santana, como pistolas, revólveres, facas, etc, conforme Lei e Instruções baixadas para o Serviço de Armas e Munições.
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25/07/1936 – Circular nº 11 da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública ao Sub-Delegado de Polícia de Santana referente a registro de armas e munições dos Vigias e Corpos de Vigias das propriedades industriais, agrícolas e pecuárias.
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Observam-se as muitas exigências feitas ao Sub-delegado do distrito, para o exercício de sua função, conforme comentamos.
Ao final de agosto de 1936, Lino Alves de Souza solicitou a sua exoneração do cargo de Sub-Delegado do distrito de “Santana do Cedro” (denominação usada também para a vila de Santana).
Possivelmente,
tenha indicado para seu lugar o cunhado José Canuto Pereira, filho de Elesbão
Pereira de Medeiros, pai de Petronilha.
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28/08/1936 – Nomeação de José Canuto Pereira para o cargo de Sub-Delegado de Polícia do distrito “Santana do Cedro”, município de São Joaquim, pelo Doutor Nereu Ramos, Governador do Estado de Santa Catarina.
Acervo Casa da Cultura de Urupema |
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28/08/1936 – Registro da nomeação de José Canuto Pereira ao cargo de Sub-Delegado de Polícia do Distrito de Santa Ana (Santa Ana) na Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina.
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09/09/1936 – Comunicado de nomeação de José Canuto Pereira ao cargo de Sub-Delegado do distrito de Santana do Cedro, pela Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim.
Acervo Casa da Cultura de Urupema |
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09/09/1936 – Comunicação de exoneração, a pedido de Lino Alves de Souza, do cargo de Sub-Delegado do distrito de Santana do Cedro, pela Delegacia Especial de Polícia de São Joaquim.
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Após deixar o cargo de Sub-Delegado do Distrito de Sant’Ana, Lino Alves de Souza implantou por volta de 1941 uma serraria na região da igreja da Consolação, no vale do rio Gargantilha, próxima ao rio Urubici, junto a atual rodovia que liga os municípios de Rio Rufino a Urubici.
Em visita à Casa da Cultura de Urupema, em setembro de 2021, a tia Joce, única dos filhos do casal Lino e Petronilha ainda viva, contou-nos detalhes da mudança (temporária) deles do distrito de Sant’Ana para o terreno da serraria.
Lembrou que Lino, Petroniilha e mais alguns empregados foram para o local da serraria, montados numa tropa de muares e eqüinos. Ela, com 04 anos e Doilio, seu irmão mais novo, com cerca de apenas 02 anos, foram levados, ora no colo da mãe, ora em dois cestos revestidos de couro, tipo bruacas, colocadas no lombo de uma mula. Foi um relato emocionante, tanto de parte dela quanto nosso, estudiosos que somos das atividades tropeiras.
Na serraria, ainda existente e empresa privada de outra família, há ruínas da caldeira feita à época, quando ali chegaram a produzir papel, que pendurados em cercas, eram “secados ao sol”. E também, diversos tipos de artefatos de madeira eram feitos ali, como tábuas, forrinhos, postes de cerca, etc.
Sobre a serraria, contribuiu também o amigo Paulo Nunes, empresário que atua no segmento de Turismo Rural de Rio Rufino, que fortaleceu o relato da tia Joce.
Lino
foi também madeireiro de grande porte, à época da extração das matas de
araucárias. Para isso, abria picadas e estradas para transporte das madeiras extraídas,
conforme podemos ver no documento abaixo.
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23/01/1946 – Carta do amigo e parceiro comercial Alfredo Martins de Morais para Lino Alves de Souza, sobre serviço realizado e a realizar por ele, em abertura de estrada rural para retirada de madeira cortada nas matas do distrito de Santa Ana (que desde janeiro de 1944 já era denominado distrito de Urupema).
Acervo Casa da Cultura de Urupema |
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Acervo Casa da Cultura de Urupema |
Chegamos ao final do ano de 2021. Nossas pesquisas e contribuições de diversos segmentos da comunidade de Urupema e região, a especial parceria com o blog Genealogia Serrana de Santa Catarina, nos permitem fazer um balanço positivo e dizermos que valeu a pena partilhar a estrada dos valores da cultura local.
O
projeto Urupema Tempo e Memória, em atividade desde março de 2020, completa 19
matérias elaboradas, retratando 10 ruas de Urupema, a garantirem o histórico
dos homenageados, abrindo o campo ao conhecimento.
Agradecemos aos leitores que nos acompanharam durante todo este tempo, nessa “caminhada cultural”. Voltaremos em 2022 e desejamos a todos, paz, saúde e harmonia.
E
como curiosidade, postamos aqui um documento de 1956, de autoria do senhor
Moysés Ramos de Oliveira, então Sub-Delegado do distrito de Urupema - “Licença para realização de um Baile Público”
na residência de um morador local, da noite do dia 22 de dezembro ao amanhecer
do dia 23 de dezembro daquele ano, onde a premissa principal, já era, a tranqüilidade de todos.
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Dezembro de 1956 – Licença de ordem do Sub-Delegado de Polícia do Distrito de Urupema, para um morador realizar um baile público, da noite de “22 de dezembro ao manhecer dia 23 de dezembro de 1956. Diversão com “chorascada e Botequim”, sendo expressamente proibido pessoas assistir a mesma sociedade, armados.
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