terça-feira, 26 de outubro de 2010

Conferência sobre a Fundação da Cidade de São Joaquim-SC

Fundação da Cidade de São Joaquim-SC
Prof. Enedino Batista Ribeiro

(Conferência proferida em São Joaquim, por ocasião do 1º Centenário de fundação da cidade, no dia 7/5/73)

 Saudação às autoridades presentes e à platéia,

Atendendo a honroso convite do Presidente e Secretário da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – Escola Técnica de Comércio “São Joaquim”, em sintonia com as autoridades municipais de nossa terra, aqui me encontro para vos falar do tema que me foi proposto – FUNDAÇÃO E HISTÓRIA DA CIDADE DE SÃO JOAQUIM.
A tarefa foi árdua, mas sumamente honrosa e agradável. Por certo que outros joaquinenses poderiam fazê-lo com maior brilhantismo, pois meus 74 anos representam justificável impecilho para o êxito da missão que exige pesquisa, tempo e muito ardor.
Vários fatos concorreram para aceitar o desafio dos moços de nossos dias:
A oportunidade de voltar ao torrão natal, para rever a cidade, por nós todos muito querida, bela, progressista e altiva nos seus 100 anos de existência! E principalmente porque represento um espaço de mais de 70 anos, um elo entre as gerações do presente e as dos nossos valorosos antepassados. Saibam todos que nasci no derradeiro ano do século XIX, século esse de nascimento de milhares de cidades brasileiras e desta Suíça nativa!
            Em agosto de 1940, publiquei a monografia de São Joaquim às expensas do Departamento Estadual de Estatística. Trabalho elaborado com muitos sacrifícios e amor por esta terra de que muito me orgulho. Cem (100) exemplares desse trabalho foram entregues à Prefeitura para distribuição em todo o território municipal e arquivos da municipalidade. Nessa monografia, encontra-se um bom resumo histórico da origem do povoamento, evolução social e política do município de São Joaquim.
            Modéstia à parte, é um trabalho bom, minucioso e que na década de 1940 anos nos deu muito trabalho na colheita de dados. Quem desejar conhecer melhor a história de nossa terra, poderá compulsar aquela monografia.
            A presente conferência além dessa fonte histórica é vasada principalmente no conjunto de atas que registraram a fundação da cidade, seu nascimento e crescimento até 1890.
            O território joaquinense, como se sabe, integrava o imenso território de freguesia de Lages.
            Em 28 de janeiro de 1868, foi dado o primeiro passo para o surgimento do nosso município. Nessa data, foi criado um distrito policial no lugar denominado “Costa da Serra”.
            Pela lei provincial nº 645, de 2 de maio de 1871, 2 anos antes da fundação da cidade, foi criado o distrito da Costa da Serra.
            Ora, criado e desmembrado, o novo distrito passou a ser uma unidade autônoma, precisando de uma denominação própria, pela qual se tornasse conhecida.
            A criação do Distrito pelo Governo provincial, empolgou os homens que habitavam os nossos rincões e ao despontar o ano de 1873 um pugilo de bravos dedicaram suas vidas à consolidação política e administrativa de sua terra.
            Esta plêiade de varões ilustres, em reuniões informais, liderados pelo notável fazendeiro MANOEL JOAQUIM PINTO, natural de Piracicaba, Estado de São Paulo, batizaram esta terra abençoada com o pomposo nome de “São Joaquim da Costa da Serra”.
            Mas foi no dia 1º de abril de 1873, que se realizou a primeira assembléia geral para se proceder, oficialmente, à escolha do Sítio para a fundação da freguesia, com a construção imediata de uma Capela.
            Encontramos referências históricas e precisa que a reunião foi levada a efeito na casa de MANOEL JOAQUIM PINTO, que, dali por diante, foi sempre a sede das reuniões dos fundadores de São Joaquim.
            Consta da ata nº 1, cuja cópia possuo em meus arquivos particulares, que na manhã de 1º de abril de 1873, realizou-se a 1ª reunião, onde se nomeou a Comissão e a Mesa encarregadas da escolha e demarcação do terreno no centro do Distrito, bem como da edificação de uma Igreja que servisse para Matriz da nova freguesia.
            Os membros dessa Comissão, eleitos pelo período de 1 ano, foram integrados pelos seguintes joaquinenses, cujas gerações vêm se sucedendo até nossos dias:

PRESIDENTE DA COMISSÃO – Manoel Joaquim Pinto
SECRETÁRIO – Cap. Cte. Marcos Baptista de Souza
TESOUREIRO – Joaquim José de Souza
PROCURADOR – Antonio Gonçalves Padilha

            Na mesma reunião foi eleita a Mesa de controle das contas da comissão – o que corresponde hoje em dia aos Conselhos Fiscais.
            Há que se registrar, nesta oportunidade, o nome desses ilustres cidadãos, cujos sobrenomes hão de repercutir com carinho, admiração e respeito, no coração desta platéia, pois são nossos antepassados, cujos filhos, netos, bisnetos, e tataranetos, nasceram e se criaram sob os céus de São Joaquim. São eles:

Tenente Coronel – João da Silva Ribeiro
Major – Bento Cavalheiro do Amaral; Joaquim Cavalheiro do Amaral; Manoel Saturnino de Souza e Oliveira, Joaquim da Silva Mattos e Ezirio Bento Rodrigues Nunes.
           
            Ficou estipulado que a Mesa se reuniria todas as vezes que o presidente Manoel Joaquim Pinto a convocasse, podendo a reunião efetivar-se desde que presentes três membros, além do Presidente e do Secretário da Comissão. E mais, que o procurador Antonio Gonçalves Padilha ficaria encarregado de angariar donativos para as obras da Igreja, o que deveria ser rigorosamente lançado no livro de “Receita e Despesa”, que seria escriturado pelo Secretário, com a supervisão do Presidente e do Tesoureiro. Veja-se nesse tópico o zelo, cuidado e o resguardo pela honorabilidade dos fundadores da cidade e da coisa pública.
            Todavia, o registro mais importante dessa ata de fundação da freguesia, sede do novo distrito, é o seguinte:
            A Comissão e Mesa reunir-se-ão, ordinariamente uma vez por ano, no dia 1º de abril, data do aniversário da instalação da Freguesia.
            Portanto, 1º de abril é a data histórica da fundação da cidade de São Joaquim. Aqui fica a corrigenda, baseada em documento autêntico e irretorquível.
            A ata nº 2 e 3 foram lavradas no mesmo dia 1º de abril de 1873.
            Na 3ª ata ficou consignada a escolha do sítio onde se assentaria a cidade e que na época chamava-se Cruzeiro, cujo terreno era de propriedade dos cidadãos Joaquim Cavalheiro do Amaral, João Cavalheiro do Amaral, Antônio Cavalheiro do Amaral Tota e Inácio Cavalheiro do Amaral. O preço de Cr$. 1250 (hum mil, duzentos e cinquenta milréis).
Foi lavrada a escritura manual entre os membros da Comissão e os vendedores. Na mesma oportunidade, para usar o termo empregado pelo Secretário foi “riscado” o lugar da Matriz, com 70 metros de comprimentos por 45 metros de largura; a praça da Matriz com 300 palmos quadrados. Demarcou-se, ainda, o pátio da cadeia com 140 palmos quadrados, uma rua municipal que é a existente ainda hoje e mais, três transversais, recebendo estas as seguintes denominações: Duque de Caxias, General Osório e Gel. Câmara.
            Pergunto ao nobre auditório se não é lamentável que o nome dessas três ruas se tenham perdido na poeira dos tempos, e na memória das gerações, pois a permanência imperecível do nome das três primeiras ruas de nossa cidade seria um elo de união entre os nossos antepassados e as suas gerações descendentes.
            O mestre construtor da Matriz foi João Pedro Lucrécio, por contrato firmado com o Presidente Manoel Joaquim Pinto.
            A Comissão e a Mesa, com pequenas substituições, se mantiveram nos cargos até abril de 1875, durante três anos de intensa atividade, principalmente em torno da construção da Matriz, que foi para a nova comuna, a obra do século.
            Anotem que a 1º de abril de 1874, reeleitas a Comissão e Mesa, foi feita a primeira tomada de contas e meditem nesta curiosidade – Diz a ata nº 7, textualmente:
            “Na prestação de Contas, a Comissão verificou importar a receita em 1.518$920 e mais 31 rezes, 15,50 alqueires de feijão e a despesa na quantia de 1.494$380 e mais 6 rezes e 12 alqueires de feijão, resultando um saldo a favor da Comissão da quantia de Cr$. 24$540 e mais 25 reses e 31, 2 alqueires de feijão”.
            Anotem, ainda, que no dia 1º de janeiro de 1876 feriu-se a primeira eleição de São Joaquim do Cruzeiro da Costa da Serra.
            Por motivos que não pudemos investigar por falta de tempo, nessa data procedeu-se à eleição para renovação geral dos cargos, saindo vitoriosa a chapa encabeçada por José Florêncio Pereira de Medeiros, com 38 votos. Joaquim da Silva Mattos foi reeleito Secretário, passando a ocupar o cargo de Tesoureiro: Manoel Cavalheiro do Amaral, e como procurador, José Rodrigues de Souza.
            Foram nomeados para a Mesa (Conselho Fiscal) Joaquim Cavalheiro do Amaral, João Pinto de Arruda, Manoel José da Silva, Manoel José Pereira, Inácio da Silva Mattos e Timóteo Pereira da Cruz.
            Conhecidos os resultados e proclamados os eleitos, estes se reuniram para consignarem em ata voto de louvor e reconhecimento e Manoel Joaquim Pinto e seus companheiros.
Consignou-se, ainda, na ata, que Manoel Joaquim Pinto, durante 32 meses de sua gestão, dispendeu do próprio bolso os recursos para prosseguimento das obras da Igreja,  contratando, inclusive, mais um servente para os pedreiros.
            Entre tantas coisas que poderíamos relatar, quero deixar registrado nesta oportunidade as deliberações da reunião de 9 de julho de 1876, que comprovam que a freguesia, crescia e prosperava:
            1º - Daquela data em diante qualquer cidadão que desejasse edificar uma casa, deveria formular requerimento que, mediante aprovação da Comissão, seria encaminhada à Câmara Municipal de Lages, para os devidos fins;
            2º - Nome e balizamento das ruas para atender aos interesses da comuna;
            3º - Criação do cargo de arruador público, sendo nomeado o cidadão Joaquim da Silva Mattos e seu substituto Joaquim Cavalheiro do Amaral;
            4º - Edificação do nicho do Santo Sacrário e compra dos paramentos para a solene benzedura da Matriz.
            Ao terminar esta conferência, na realidade uma palestra com os meus jovens e velhos conterrâneos, registro um conhecimento que tenho, o qual não deixa de ser um sugestivo episódio histórico sobre a fundação de São Joaquim: A primeira reunião foi presidida, como sabemos, por Manoel Joaquim Pinto; faziam parte da Comissão Joaquim Cavalheiro do Amaral e Joaquim José de Souza; era Juiz da Comarca de Lages a que pertencia o Termo de São Joaquim – o Dr. Joaquim José Henrique, que aplaudiu a fundação do povoado às margens do rio São Mateus, sendo presidente da província de Santa Catarina o Dr. Joaquim Bandeira de Gouvêa, que sancionou a lei que desmembrou o Distrito da Costa da Serra da Freguesia da cidade de Lages para formar outra freguesia.
A colaboração de quatro cidadãos com o prenome de Joaquim explica a razão por que o povoado recebeu o nome de São Joaquim, sobre ser ainda a invocação do nome de um grande santo, que é o avô materno de Jesus Cristo.

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